FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR

   Corre o ano de 1940, ano de grandes vitrias dos exrcitos alemes, ano da queda da Frana. Em terras brasileiras, o Estado Novo assume plenamente suas simpatias pelo regime nazista:  tempo de represso e tortura. Em meio a essa atmosfera de guerra, a morte do poeta Antnio Bruno, em Paris, abre uma vaga na Academia Brasileira de Letras. E esse acontecimento desencadeia na cidade do Rio de Janeiro uma batalha to ou mais acirrada que aquela travada do outro lado do Atlntico pelos exrcitos europeus.

   Em Farda fardo camisola de dormir, seguindo a tradio inaugurada no final do sculo XIX por Alphonse Daudet com Dimmortel, Jorge Amado nos conta, em forma de folhetim e com moral de fbula, a luta por esse raro lugar entre os imortais. Essa "fbula para acender a esperana", como indica o subttulo original,  permeada pela ironia e pelas opinies polticas caractersticas da obra do escritor baiano, e nela transparecem as experincias do prprio Jorge Amado com a prestigiosa Academia que o acolheu, bem como personagens cuja semelhana com pessoas reais no deixa dvidas.

   Embora fuja aos padres tradicionais dos grandes romances de Jorge Amado, Farda fardo camisola de dormir se encaixa de forma perfeita no estilo de stira social consolidada por estes, mostrando de forma divertida, mas contundente, o modo como os pequenos episdios refletem os grandes acontecimentos da Histria.

Obras de Jorge Amado
O Pas do Carnaval
Cacau
Suor
Jubiab
Mar Morto
Capites da Areia
ABC de Castro Alves
Terras do Sem Fim
O Cavaleiro da Esperana
So Jorge dos Ilhus
Bahia de Todos os Santos
O Amor do Soldado Seara Vermelha
Os Subterrneos da Liberdade:
1 - Os speros Tempos
2 - Agonia da Noite
3-A Luz no Tnel Gabriela Cravo e Canela
A Morte e a Morte de Quincas Berro Dgua 
Os Velhos Marinheiros ou
O Capito de Longo Curso 
Os Pastores da Noite Dona Flor e Seus Dois Maridos 
Tenda dos Milagres 
Teresa Batista 
Cansada de Guerra 
O Gato Malhado e a Andorinha 
Sinh 
Tieta do Agreste
Farda Fardo Camisola de Dormir 
O Menino Grapina 
A Bola e o Goleiro 
Tocaia Grande - A Face Obscura 
O Sumio da Santa 
Navegao de Cabotagem 
A Descoberta da Amrica pelos Turcos 
O Compadre de Ogun
Sobrecapa: Ilustrao de Jenner Augusto


(preparada pelo Centro de Cataiogao-na-fonte do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ) Amado, Jorge, 1912- A494f       
Farda Fardo Camisola de Dormir- Fbula para Acender uma Esperana: romance; ilustraes de Otvio Arajo. - 16* ed. - Rio de Janeiro, Record, 1997.
240p.   ilust.   21 cm 1. Romance brasileiro, l. Ttulo
76-0522
CDD - 869-93 CDU-869.0(81 )-31
FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
16a edio
Traduzido em alemo, blgaro, espanhol, francs, ingls, italiano, russo e grego.
Reservados todos os direitos de traduo e adaptao.
Copyright (c) by Jorge Amado, Rua Alagoinhas, 33, Rio Vermelho,
41940-620, SSA, Bahia, Brasil.
X2S

EDITORA AFILIADA
Direitos desta edio:
Distribuidora Record de Servios de Imprensa S.A. Rua Argentina 171 - 20921-380 Rio de Janeiro. RJ - Tel.: 585-2000
Impresso no Brasil
ISBN 85-01-04975-1
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 - Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

JORGE AMADO
O projeto de fixao de texto da obra de Jorge Amado tem o patrocnio da ORGANIZAO ODEBRECHT
Superviso do projeto: Slvia Rezende e Caio de Andrade
Capa de Pedro Costa com ilustrao de Otvio Arajo 
Sobrecapa sobre quadro de Jenner Augusto 
Ilustraes de Otvio Arajo 
Vinhetas recuperadas de ilustraes de
Otvio Arajo por Pedro Costa 
Retrato do autor por Jordo de Oliveira 
Fotografia da sobrecapa de Zlia Gattai

FARDA FARDO CAMSLA DE DORMIR
FBULA PARA ACENDER UMA ESPERANA
ROMANCE
RECORD


FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

Para Zlia, revivendo sua infncia na Pedra do Sal.
Para minhas irms Fanny, Lu e Misette.
 memria de Afrnio Peixoto e Antnio da Silva Melo.
Para Alceu Amoroso Lima e Joo Conde que conhecem as histrias daqueles tempos.
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JORGE AMADO
VIII
FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
...a glria que fica, eleva, honra e consola.
(Machado de Assis, sobre a Academia Brasileira de Letras)
Quelle connerie, laguerre! (Jacques Prvert, Barbara)
HeilHitler!
(saudao bastante usada na poca)
No pasarn!
(palavra de ordem de La Pasionaria na guerra da Espanha, retomada pelo velho Acadmico Evandro Nunes dos Santos)
IX

JORGE AMADO 
FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

   Esta fbula conta como dois velhos literatos, acadmicos e liberais, partiram em guerra contra o nazismo, a ditadura e a prepotncia. Toda e qualquer semelhana com tipos, organizaes, academias, classes e castas, figuras e sucessos da vida real ser pura e simples coincidncia, pois a anedota  produto exclusivo da imaginao e da experincia do autor. Reais so apenas a ditadura do Estado Novo com a Lei de Segurana, a mquina de represso, as prises cheias, as cmaras de tortura e o obscurantismo, e a Segunda Grande Guerra Mundial, desencadeada pelo nazifascismo, em seu pior momento, quando se dava tudo por perdido e a esperana fenecia.
XI

JORGE AMADO
FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

I
EXECUO DO POETA ANTNIO BRUNO, OCORRIDA EM CONSEQNCIA
DA QUEDA DE PARIS, DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

JORGE AMADO
FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR

O SONETO QUE NO FOI ESCRITO

O poeta Antnio Bruno faleceu, vtima de fulminante enfarte - o segundo em curto prazo -, a 25 de setembro de 1940. A manh luminosa, de atmosfera lmpida e temperatura amena, trouxera-lhe  memria outra manh assim, difana, entrando pela clarabia, iluminando o estdio parisiense, envolvendo, rsea e transparente camisola, o corpo nu da mulher adormecida. Viso digna de um soneto, pensara, mas no o escrevera pois a moa despertou e estendeu-lhe os braos.

  Ao recordar, tomou do papel e da caneta, e com sua bela caligrafia quase desenhada traou no alto da pgina o que deveria ser certamente o ttulo de um poema de amor: A Camisola de Dormir. A lembrana tornou-se dolorosa, a saudade cruciante, ai, nunca mais! O poeta no teve tempo para um verso sequer: levou a mo ao peito, arriou a cabea em cima do papel, abriu vaga na Academia Brasileira.

   O primeiro enfarte o acometera exatamente trs meses antes, ao escutar, num programa de rdio, a notcia da queda de-Paris.

UMA BATALHA, RDUA E SANGRENTA

   Uma batalha, sim, e que batalha! - afirmava, anos depois, mestre Afrnio Portela que, com a idade, se fizera categrico. Por ocasio dos comentados sucessos, argumentara com o carter mundial da guerra: nela estamos todos envolvidos, dissera, o campo de luta no tem limites de nenhuma espcie, geogrficos ou militares; qualquer arma  til e prpria, e a menor vitria acende uma esperana. 

   Com o decorrer do tempo, octogenrio de prosa envolvente e sedutora, de lngua solta, conversador sem igual, acentuou-se nele a tendncia a ampliar o alcance do acontecido e dos ensinamentos resultantes, proclamando-se, meio a srio meio a caoar, membro
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JORGE AMADO
atuante da Resistncia Francesa, dos maquis, chefe guerrilheiro - e assim agiu, ao que parece.

   Assim teriam agido, alis, ele e o desabusado professor Evandro Nunes dos Santos, seu comparsa na conspirao e, conforme testemunho do prprio Afrnio, o mais afoito e implacvel na segunda fase das operaes:
   
   - Eu j me dera por satisfeito, considerando que tnhamos alcanado nosso objetivo, mas Evandro no se conformou, com ele era tudo ou nada.
Mestre Afrnio Portela no esquecia de acrescentar que essa batalha, na qual tinham sido derrotadas as foras internacionais do nazi-fascismo e as foras nacionais da reao e da prepotncia, fora no apenas rdua mas tambm sangrenta.

 A CONTINGNCIA HISTRICA

  Batalha, uma simples eleio? Pleito, alm do mais, reduzido a uma corporao, a estrito nmero de eleitores, apenas trinta e nove, os trinta e nove acadmicos vivos. 
   
   Sem querer obscurecer o alcance e a monta da eleio de um novo membro da Academia Brasileira de Letras, assunto de repercusso na imprensa e nos meios intelectuais, dado o inegvel ainda que discutido prestgio da entidade, deve-se convir que se tratava de evento de limitado porte num tempo de sucessos histricos imensos e terrveis, pois ocorreu em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1940, ou seja, quando as tropas vitoriosas da Wehrmacht vinham de dominar a Frana e a Luftwaffe arrasava cidades e campos da Inglaterra. Para muitos, para a maioria talvez, a derrota das naes democrticas fizera-se irremedivel, o colapso total no tardaria - questo de muito pouco tempo. Hitler anunciava um milnio de dominao nazista, ingressvamos nele. Tempo de medo e de desesperana.

   Mil anos, quantas geraes de escravos? Os avies alemes cobriam os cus de Londres, em bombardeio contnuo, os tanques invasores ocupavam o territrio dos pases da Europa, a Polnia 
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desaparecera do mapa, no mais se ouviam valsas de Viena nem se pronunciava o nome imperial da ustria, na velha torre de Praga tremulava a bandeira da sustica e no peito dos judeus a estrela-dedavi era uma flor de sangue. Sangue e lama, terror e vilania, protetorados e protetores, a Gestapo, os S e os SS, os campos de concentrao, as cmaras de gs, a ignomnia e a morte. Tempo do medo e da desesperana. Tempo de desespero. 

   No Brasil, sob a Constituio totalitria do Estado Novo, na vigncia do estado de guerra, reflexo das vitrias do Eixo, a represso atingira seu momento de maior brutalidade e obscurantismo. O idlio com a Alemanha nazista determinava a poltica governamental: completa censura da imprensa, a famigerada Lei de Segurana e seu tribunal de condenaes, nenhuma garantia individual, nenhum direito, nenhuma liberdade, o poder de polcia exercendo-se absoluto, sem qualquer restrio. Nas penitencirias, nas colnias correcionais, nos pores das diversas polcias os presos polticos e a tortura.

   Na hora exata em que o Acadmico Lisandro Leite telefonou, alvoroado, ao Coronel Agnaldo Sampaio Pereira para comunicar a fnebre e grata notcia da morte do poeta Bruno, telefonema que deu incio  movimentao de foras, o ferrovirio Elias, tambm conhecido por Profeta, nome de guerra, estava suspenso no ar, pendurado pelos escrotos, no Quartel da Polcia Especial. Atletas daquela corporao de choque, baluartes do regmen, queriam que Profeta, preso dois dias antes, citasse nomes, revelasse endereos e ligaes. Curiosamente, algumas estrofes de um poema recente, lido em suja cpia mimeografada, concorriam para o obstinado silncio do prisioneiro, sustentavam-no na prova atroz. No sustentaram, porm, o poeta Antnio Bruno, que as escrevera, no lhe deram foras para superar o desalento e o desespero.

   Diante de to pattico panorama, como levar a srio simples eleio acadmica, emprestar-lhe outro significado alm das futricas e falatrios habituais? Eleitores ilustres,  claro, personalidades exponenciais na vida cultural do pas, a imortalidade, o ttulo, o fardo, tudo isso concorre para que a disputa de vaga na Academia Brasileira de Letras seja episdio de ressonncia nacional, por vezes motivo de spera competio. Mas da a transformar-se em luta sem
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JORGE AMADO
quartel entre o nazismo triunfante e as debilitadas foras democrticas, vai considervel distncia.

 Assim aconteceu, no entanto. Mestre Afrnio Portela no mentiu nem exagerou ao falar em batalha e ao referir-se a uma luz de esperana. Quanto ao outro velho literato, autor de alguns ensaios fundamentais sobre a realidade e o homem brasileiros, notveis pelo conhecimento dos assuntos, pela originalidade do pensamento e pela ousadia das afirmaes, Evandro Nunes dos Santos, sendo extremamente individualista, levou o combate s suas ltimas conseqncias. Tinha horror a qualquer espcie de arbtrio e de mando, a ponto de evitar o uso do fardo Acadmico, preferindo comparecer de casaca s sesses solenes. Casaca que ia muito bem com sua conscincia civilista e com o seu fsico de setento alto e magro, as mos ossudas e as sobrancelhas bastas.

PERFIL DO HERICO CORONEL

   Desagradvel mesmo foi quando o Coronel, tendo comeado a folhear as provas tipogrficas, perdeu a cabea e deixou de representar. At ento, a entrevista decorrera numa atmosfera pesada porm suportvel; tampouco se pretende ambiente cordial, troca de amabilidades, gentilezas e sorrisos num encontro entre o Chefe do Sistema de Segurana da ditadura do Estado Novo e um reles jornalista subversivo, suspeito de pertencer ao Partido Comunista e escarradamente judeu.

   O rosto descomposto pela ira, nos olhos a fulgurao amarela dos sectrios, o Coronel tornou-se ameaador e imprevisvel. Agitou o punhado de provas diante da cara magra do indivduo assustado no outro lado da mesa. No outro lado da trincheira, sendo como era o gabinete do Coronel um campo de batalha. A voz rompeu-se em falsete, esganiada:

   -Cnico! Atreve-se a afirmar que esse pasquim no  comunista! Que acha que eu sou? Um imbecil? - um soco na mesa, um obus ou uma granada. 
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

  Em geral, a voz do Coronel ressoa redonda, declamatria, bem empostada, voa! de comando. Seja quando afirma verdades a seu ver indiscutvis seja quando as palavras, no ardor da polmica, estalam na face do antagonista com a violncia de bofetadas. Voz e gestos medidos, pose de lder. Acontece, porm, o Coronel descontrolar-se e l se vai gua abaixo a imagem do comandante audaz e sereno, duro e competente, impvido. Do imperturbvel e herico Coronel  Agnaldo Sampaio Pereira, o famoso (e famigerado) Coronel Sampaio Pereira.

   Homem de ao e de pensamento, provado na luta (na guerra, corrige ele, na guerra sem trgua contra os inimigos da Ptria), autor aplaudido de mais de uma dezena de livros, cinqento bem conservado, moreno ligeiramente queimado na cor. Pouco antes, ao ouvi-lo proclamar a superioridade da raa ariana - ns, os arianos, tomaremos as rdeas do universo e o cavalgaremos... -, o jornalista Samuel Lederman, apesar da incmoda posio em que se encontrava, em vez de admirar e aplaudir o lavor e a pujana da frase, no pde impedir desrespeitoso e temerrio devaneio: qual a porcentagem de sangue negro nas veias azuis do nobre ginete do universo? Quanto ao nariz enrgico porm adunco e ao sobrenome Pereira, no acusavam por acaso rastro de cristo-novo, de avoengo semita, convertido a ferro e fogo pela Santa Inquisio? (Tu s um pervertido, Samy, repetia-lhe Da, enrodilhando-se a seus ps.) Sigilosa injria, ainda bem, pois de nada adiantaria querer discutir a intrnseca qualidade ariana do Coronel.

   Sim, porque mesmo sendo ele, com tamanha evidncia, brasileiro de muitas geraes e mltiplas misturas de sangue, ao afirmar-se ariano fazia-o com absoluta convico. Escrevera alentado volume, Por uma Civilizao Ariana nos Trpicos - Ensaio de Brasilidade, exaltado pelos jornais de direita e cuja adoo nos ginsios oficiais, na ctedra de Educao Moral e Cvica, lhe garantia sucessivas tiragens e pingues direitos de autor.

    Algumas mulheres achavam-no bonito, admirando-lhe os ombros largos, o passo firme, o cabelo negro bem assentado, lustroso de brilhantina, o perfil enrgico sob a tnica impecvel. Visto de relance, lembrava certo ator norte-americano, coqueluche da poca. Alis, tinha algo de ator, pois na celebrada postura de chefe inflexvel,
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dotado de inteligncia viva, de mente perspicaz, intransigente, desumano se necessrio, na defesa das convices inabalveis, havia, com certeza, elementos de composio, visveis na empostao da voz, no acento oratrio presente nas frases mais corriqueiras, e no olhar inquisidor, capaz de ler nas conscincias culposas. O olhar custava-lhe real esforo, constante ateno, j que possua um par de olhos redondos, habitualmente inexpressivos, ingnuos, sem malcia.

   Certos jornais, ao citar-lhe o nome, precediam-no de adjetivos marcantes e marciais - bravo, denodado, intrpido. Sobretudo a partir da tarde em que o ento tenente-Coronel Sampaio Pereira,  testa dos batalhes da Polcia Especial e dos choques da Delegacia de Ordem Poltica e Social, enfrentara e vencera nas ruas do Rio de Janeiro, Capital da Repblica, ululante e ameaadora malta de agitadores armados at os dentes com ferozes palavras de ordem, gritos e punhos erguidos, em passeata de protesto contra a entrega pelo Itamaraty dos prprios da Embaixada da Tchecoslovquia s autoridades da Alemanha nazista, aps o Pacto de Munique e a ocupao de Praga. Histrica derrota das foras da subverso, determinando o fim das manifestaes de massa durante longo perodo.

  Homem de ao, igualmente homem de pensamento com vasta obra de terico a conquistar-lhe ttulos e louvores no campo das letras: um dos mais copiosos e atuantes escritores de sua gerao, fecundo pensador poltico, ensasta de vo pinacular e por a afora. Seus livros faziam a apologia e a propaganda dos regmens fortes, analisavam a decadncia e a podrido das democracias, denunciavam o monstruoso perigo comunista.

   Os primeiros ensaios, os escrevera ainda membro da Cmara dos Quarenta, ardoroso militante da Ao Integralista. Quando o golpe de 1937 dissolveu os partidos polticos, ele dessolidarizou-se do integralismo, afirmando em artigo: O Estado Novo significa a aplicao na prtica da doutrina, dos ideais integralistas, no cabendo assim a existncia de uma estrutura partidria, desnecessria e, a rigor, dplice e provocativa. Por ocasio da intentona de 1938, Sampaio Pereira se manteve fiel ao Governo e no teve dvidas em mandar prender antigos correligionrios. Os ltimos volumes publicados propunham-se a servir de base ideolgica para o Estado Novo, ameaado, na pureza dos princpios totalitrios e na frrea disciplina, pela
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comprovada incapacidade do povo brasileiro de levar a srio as grandes idias e de reconhecer os grandes homens, explicao fornecida por ele prprio ao jornalistaSamuel na primeira parte da entrevista: 
   -... fraquezas, perverses, tibiezas de carter, desgraas devidas  mestiagem... - tinha horror  mestiagem. 

  Segundo- tenente, recm-sado da Escola Militar, escrevera versos romnticos e os reunira em raqutico volume. No detendo ento o novel poeta qualquer poder, os crticos da poca desconheceram ou malharam o opsculo. Nem sequer mestre Joo Ribeiro, to generoso com os estreantes em seu rodap semanal, conseguiu encontrar naquelas pginas nada alm de rimas baratas e pfios sentimentos. Contudo, anos depois, quando Sampaio Pereira abandonou a poesia pelo ensaio poltico, o mesmo velho crtico lastimou o acontecido:... antes houvesse persistido em massacrar a mtrica e a rima, pois ameaa agora, em prosa chinfrim, a nao e o povo, a liberdade
e o futuro. 

   Como se comprova, ao lado de tantos admiradores incondicionais e servis, tinha o Coronel detratores que no lhe perdoavam nem a ao pblica nem a literatura. Acusavam-no de coveiro da democracia e dos direitos humanos, de desmoralizar a farda que vestia, colocando-a a servio da reao policial, de chefe nacional da Quinta-coluna, de comandar a represso poltica e ordenar torturas, de importar tcnicos da Gestapo: diziam-no candidato a gauleiter de Hitler no Brasil.

   Orgulhava-se o Coronel tanto dos louvores quanto dos ataques. Cobriam-no de loas e louros os patriotas comprovados, cerne do novo Brasil; os insultos e vilipendies provinham da canalha liberal e comunista. 

ORDENS SUPERIORES

- Ordens superiores, meu caro, no depende de mim, nada posso fazer...

   Quando o Diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda transmitiu a notcia da cassao do registro da revista e lastimou no poder ajudar, completando a explicao com um gesto significativo, 
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Samuel Lederman nem assim se deu por vencido, decidiu dirigir-se diretamente ao Coronel Sampaio Pereira. Dele viera a ordem, tentaria convenc-lo a mudar de opinio. (Tu no tens jeito, Samy, -vais morrer acreditando em milagres, e Da balanava a cabea de encaracolados cabelos castanhos.) 

   Nosso Goebbels caboclo  uma besta, considerou o Diretor do DIP referindo-se ao Coronel, mas, fazendo-lhe justia e revelando certo temor, acrescentou: uma besta sanguinria. Cuidado, para no ir parar na cadeia. Samuca recordou os dias passados nos pores da polcia poltica, durante a razia do ano anterior, centenas de pessoas presas por ocasio da entrada em Praga das tropas alems. Ficara com mais de cinqenta detidos, apinhados numa cela onde mal caberiam vinte, sem banho, sem cama, revezando-se para dormir sobre o cimento molhado, a comida repugnante servida uma vez por dia, a fedentina permanente: o sanitrio era uma lata de querosene. Sem falar nos gritos, perfeitamente audveis, dos torturados nos interrogatrios, em salas prximas. Nem a incmoda lembrana o desanimou, fora reprter poltico de um grande dirio, possua relaes influentes, chegaria ao Coronel.

   - Lembre-se de que, como as coisas esto, no vai ser fcil tirar voc da cadeia... - concluiu o Diretor do DIP.

   Vale a pena ressaltar a duplicidade poltica desse indivduo. Servindo ao Governo em posto to vital, mantinha inconfessveis porm evidentes simpatias pela Inglaterra e pela Frana, protegia tipos to comprometidos como esse Samuel Lederman, Diretor de Perspectivas, mensrio de circulao irregular, o ltimo dos rgos de imprensa registrados no DIP apossuir vago resqucio de esquerda, por fim definitivamente proibido.
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

O CORONEL DESENCADEIA A GUERRA TOTAL E ESTABELECE CRITRIOS PARA AS ARTES PLSTICAS

   Duplicidade poltica, prova que o Estado Novo no era aquele bloco monoltico, posto a servio do nazi-fascismo, dos sonhos do Coronel Sampaio Pereira; restos de liberalismo putrefato corroam o aparelho estatal. No estava longe, porm, o dia em que apenas ardentes patriotas totalitrios, arianos sem mcula, compusessem o Governo. Dia belo e prximo da vitria final: rolariam cabeas, correria o sangue da purificao. Inspirado, de p junto ao quadro-negro onde est fixado o mapa da Europa, o Coronel declama:

  - Exterminaremos todos os inimigos, at o ltimo. Sem piedade! - Fixa o jornalista com o olhar de verruma: - A piedade  um sentimento dos fracos, degradante. - O fero Coronel movimenta os alfinetes de cabea colorida, levando-os at  fronteira da Frana com a Pennsula Ibrica. - Conclumos a primeira fase da guerra, com absoluto sucesso; a Europa inteira nos pertence. O Fhrer, com seu gnio, fincou as bandeiras da cruz gamada no alto dos Pireneus. Na Espanha, temos o glorioso Generalssimo Franco; em Portugal, o nosso sbio doutor Salazar, cabea que vale ouro.

  Balano efetuado na primeira fase da entrevista. O Diretor de Perspectivas mantinha-se animado. Antes de examinar as provas tipogrficas - matria toda ela inofensiva, garantira Samuel -, o Coronel quisera demonstrar a inutilidade de qualquer oposio ao nazi-fascismo e desencadeara a guerra total, a blitzkrieg. Mas apesar dos exrcitos, tanques, caas, bombardeiros, apesar dos mortos, dos prisioneiros, dos campos de trabalho e de extermnio, das vitoriosas bandeiras da sustica, o jornalista ainda no perdera a esperana de uma soluo favorvel - diante de tanta grandiosidade, que perigo pode representar uma pequena revista, reduzida  publicao de algumas reportagens, de prudentes artigos internacionais, sobre o New Deal norte-americano, por exemplo, de poemas e contos? O jornalista escuta, atento, no contesta as afirmaes do Coronel que,
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JORGE AMADO
ornado de entusiasmo, passa a prever os dias vindouros, a iminente rendio da Inglaterra, e, depois... Uma pausa para fazer ainda mais solene a informao absolutamente segura, quem sabe provinda do prprio Alto Comando Alemo?

  -Depois... Ser a vez da Rssia comunista. Para nossas divises blindadas - dizia nossas divises com a maior naturalidade, no era o Brasil o aliado natural do Terceiro Reich na Amrica do Sul? - um passeio pelas estepes, de uma ou duas semanas, no mximo... A Rssia desaparecer do mundo e o comunismo ser erradicado da face ia terra!

  Tendo conquistado a Unio Sovitica e libertado o mundo do comunismo, o Coronel voltou a sentar-se, marcial e satisfeito consigo mesmo. Lanou o olhar vitorioso para o outro lado da mesa, melhor dito da trincheira, a fim de se regalar com o espetculo do inimigo aniquilado, constatando com surpresa que o miservel judeu no estava aniquilado. Surpreendeu-lhe um sorriso de troa nos lbios indignos e na voz um laivo de gozao:

   - Uma semana, Coronel? Olhe que  muita terra a atravessar... Napoleo...
   - Cale-se!

    O olhar de verruma fez-se malvolo e desconfiado, o Coronel fechou a cara, Samuel arrependeu-se mas era tarde (ai, teu carter, Samy, ainda te causar desgostos, previa Da beijando-o nos olhos). Depois de indigesto minuto de silncio, o Coronel segurou um punhado de provas tipogrficas e, apenas comeara a folhe-las, a indignao o dominou:

   - O senhor  um cnico! Cada Unha destila veneno... demora-se nos ttulos das matrias, nas fotografias, l pequenos trechos: - Latifndio, restos feudais, cangao; pregao marxista, atreve-se a negar? Fotografias de favelas e negros... No tem no Rio nenhum bairro decente que merea ser fotografado? Os brancos acabaram-se todos?

   - Reportagem sobre samba... - Samuca tenta explicar.

   - Cale-se, j lhe disse. Arte moderna! Obscenidades, arte
degenerada! O Fhrer, corn seu gnio, proibiu essa nojeira. Coisas que
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tais desvirilizam uma nao, foi por isso que a Frana se prostituiu, transformou-se num pas de efeminados.

 Aqueles nus poderosos e violentos ofendem as noes estticas do brioso Coronel. Ele os repele com nojo autntico, sincera repulsa, so o oposto do belo. O Coronel admite o nu feminino guando realmente artstico, pintado com inspirao e sentimento. 

   Samuel aproveita a inesperada crtica de arte para recuperar-se do susto, pensa em restabelecer o dilogo. Mas no chega a falar, pois o Coronel perde de todo a cabea e esbraveja diante de uma foto de pgina inteira do Presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt:

   - S faltava isso!  o cmulo!
   - Mas, Coronel,  o Presidente...
   - Presidente... Judeu a soldo do comunismo internacional, isso sim! Delano  nome judeu, no sabe? Pois ns sabemos!

   Repugnado, solta a pgina onde sorri o abominvel estadista, empunha o ltimo mao de provas mas no tem tempo de indignar-se com o Canto de Amor para uma Cidade Ocupada, do poeta Antnio Bruno, porque a campainha do telefone comeou a tilintar. Linha privada, exclusiva, conhecida de rarssimas pessoas, usada apenas para assuntos graves e urgentes. O Coronel largou as provas, levantou o fone, ainda exaltado, os olhos fulvos, a voz rachada. Em seguida, porm, revestiu-se de sua melhor imagem, a voz no apenas empostada e calma mas gentil, deferente, quase aduladora. Deve ser, no mnimo, o Ministro da Guerra, pensou o jornalista.

ACADMICO LISANDRO LEITE, ILUSTRE JURISTA E GENEROSO AMIGO

   Enganava-se. Nem Ministro, nem meio Ministro, sequer um militar. Quem se afanava ao telefone, gordo e suado, a cabeleira leonina, era o Acadmico, Desembargador e Catedrtico Lisandro Leite portador de todos esses ttulos, tivera a maior dificuldade para obter o nmero da linha privativa do Coronel.
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   - Antnio Bruno morreu hoje de manh, Coronel. Mas eu estava no Tribunal, acabo de saber..,

   O Coronel ouve a fnebre (e auspiciosa) notcia, no consegue conter a excitao, impedir um sorriso. Mas logo se compe, recolhe sorriso e alegria, afivela a compuno e o comedimento exigidos pela infausta (fausta, faustssima) comunicao:
   - O poeta Antnio Bruno? Faleceu?
   - Temos a vaga, Coronel!
   - Grande perda para a literatura nacional. Bardo inspirado...
   - Sem dvida, sem dvida, um poeta de mo cheia. - Lisandro Leite interrompe o eloqente epitfio. Afinal, no se obstinara contra a grosseira recusa de cabos e sargentos que lhe negavam as ligaes pedidas, no movimentara meio mundo at conseguir o nmero secreto para ficar ouvindo lugares-comuns; ainda no chegara a hora do discurso de posse: - ... guarde esses belos conceitos para o discurso, Coronel.
   - Como disse? Discurso?
   - Temos a vaga, Coronel! - dava a notcia com a nfase de quem oferta um presente raro, de incalculvel valor. Sim, no fizera todo aquele esforo apenas para comunicar a morte de um poeta, colega da Academia. Devotado e generoso, vinha presentear seu ilustre confrade e amigo, o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, com a vaga aberta, com a imortalidade. Mas o Coronel necessita agir com presteza, no pode perder um momento, tem de entrar em ao imediatamente. Imediatamente!, repete.
   
   Membro da Academia havia mais de dez anos, Lisandro Leite, preclaro cultor das letras jurdicas, considerava-se especialista em eleio acadmica, familiar das sutilezas, das manobras, dos golpes da estratgia e da ttica capazes de conduzir  vitria os seus favoritos. Sagaz patrocinador de candidatos, de cada pleito retirava sempre alguma vantagem. As ms lnguas, que existem em toda a parte, inclusive nas academias, afirmavam dever o douto Professor de Direito Comercial boa parte de sua rpida carreira de magistrado a essas vagas to cobiadas, subindo na vida  custa dos mortos. Se tais comentrios  chegaram a seus ouvidos, no o incomodaram, prosseguia
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imperturbvel seu caminho. Blandicioso, com amigvel autoridade, traa a unha de conduta a ser adotada pelo aspirante:

   -  preciso que os Acadmicos tomem conhecimento incontinenti de sua candidatura, saibam que a vaga  do ilustre amigo. Impvido, destemido, agressivo  frente das tropas de represso ao vil e traioeiro inimigo interno, todavia na hora de acometer, iniciando a luta pela imortalidade, imprevista timidez assalta o Coronel. Gagueja, possudo de dvidas:

  -Ir logo  Academia? Daqui a pouco? O corpo est sendo levado para l? Hum... no sei... No  melhor esperar a hora do enterro? No lhe parece mais consonante... 
   Os olhos redondos e ingnuos do Coronel pousam no jornalista, a quem esquecera por completo, desagradvel testemunha. Cobre o bocal do fone com a mo, ordena: 
   - V-se embora!
Samuel Lederman, Samuca para os amigos, Samy para Da, sua mulher, ainda insiste- sem esperanas, mas o dever, ah!,  necessrio cumpri-lo at o fim:.
   - E a revista, Coronel? Liberada? (Campeo de causas perdidas, isso  o que tu s, Samy, a voz de quebranto de Da.)
   Fuzilam os olhos do Coronel, aqueles olhos de verruma:
   - O qu? Ainda se atreve... fora daqui, antes que me arrependa e mande met-lo no xadrez.

   Derrotado, o jornalista recolhe as provas, a entrevista no produzira os resultados esperados; a proibio de Perspectivas fora mantida e seu diretor escapava da cadeia por acaso - Samuca nunca mais permitir que em sua frente falem mal da Academia, benemrits instituio.

   Atravessando os sombrios corredores, as provas inteis metida no bolso do palet, o pequeno jornalista Samuel Lederman lastima; morte do poeta Antnio Bruno, com quem falara uma nica vez e cuj ode para a cidade de Paris ocupada pelos alemes, canto de luta e d esperana, continuaria indita em letra de frma. Como muitas outra pessoas, Samuca sabe de memria trechos inteiros do poema e os relembra. Emerge pouco a pouco da derrota, mais poderoso  o sonho
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JORGE AMADO
que nos  dado sonhar: mais dia menos dia, a deficitria, perseguida, condenada revista se transformar em jornal dirio, nervoso e vivo, grandes reportagens, colaboradores famosos, nacionais e estrangeiros, livre debate de idias, algo indito na imprensa do pas. Quando Paris for libertada e houver democracia no Brasil. (Tu s incorrigvel, Samy...)

PERSPECTIVAS OTIMISTAS E EXCLAMAO LATINA

   - Repita, por obsquio, Desembargador, no ouvi bem. Dizia que...

   Livre do maldito espio judeu, livre para expressar no rosto a emoo incontida, o Coronel escuta, alvoroado. Balana a cabea em concordncia com as afirmaes do experiente cabo eleitoral. No  hora para protocolos, ilustre amigo, a hora  de ataque. O fundamental  no perder tempo,  avanar, ocupar aposio, impedir que outro se mostre antes, comprometa votos. Os pretendentes so muitos... Certamente para valorizar seu empenho e seus conselhos, para impor seu indispensvel comando, tambm Lisandro Leite emprestou, desde o incio, caractersticas de batalha ao pleito de hbito renhido porm pacfico. Investir quanto antes, meu amigo, eis a boa ttica para colocar as bases de uma vitria espetacular. lea jacta est! 

   O Coronel no discute, repete lea jacta est!
   -Confio no caro amigo, compreendo suas razes. Farei como disser, entrego-me por completo em suas mos.
   Outra coisa no deseja o eficiente jurista seno conduzir o Coronel  vitria. Tarefa difcil, alis. Impossvel candidato de maior prestgio, contando com o apoio das figuras mais poderosas do regmen, com trnsito livre... To livre assim? Haver quem queira discutir, torcer o nariz, argumentando com as posies polticas do candidato, mas nenhum ir alm do resmungo, terminando todos por engolir a plula e comparecer com o voto. Eleio lquida e certa. Aps eleg-lo, vestir-lhe o fardo, pronunciar-lhe o elogio no discurso de recepo... Sim, porque seria a maior das sacanagens se o Coronel
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
escolhesse outro para receb-lo... A sala repleta de Generais, Ministros, quem sabe o prprio Chefe do Governo, Embaixadores, damas da alta sociedade, a elegncia dos vestidos, os decotes, as jias, as condecoraes, os crachs, aquele luxo, aquela beleza toda (sem falar nos fotgrafos) e depois...

  Ah!, depois colher a merecida recompensa: a primeira vaga no Supremo Tribunal Federal, pois, como se sabe, uma mo lava a outra. Toma l a Academia, Coronel, d c o Supremo.
   Desdobra-se ao telefone em idias e sugestes, o suor escorrendo pelo rosto. Rbula terrvel, segundo seus colegas de magistratura. Rasga perspectivas, amplia horizontes, a voz melflua, persuasiva. O Coronel embriaga-se de entusiasmo:
   -  claro que sim. Minha candidatura ter todo o apoio do Exrcito. Total. O Ministro? Far tudo que seja necessrio, tudo. Como disse? Sim,  isso mesmo, tem toda a razo: a candidatura me  imposta pelo Exrcito, atualmente sem representante na Academia. Um absurdo, realmente. O prezado amigo diz muito bem: uma imposio da classe.
   O Catedrtico prossegue, desencava na histria da Academia o argumento decisivo, irrespondvel. Que cabea! O Coronel sente-se praticamente eleito:
   - Exato, Desembargador, exatssimo. No tinha pensado nisso...
   - Pois assim , meu nobre amigo, essa cadeira pertence ao Exrcito, sempre pertenceu. O patrono, os primeiros ocupantes... Sua eleio significar a retomada de uma tradio rompida com a eleio do Bruno.
   Tradio, palavra grata ao Coronel. Sente-se eufrico. Lisandro Leite conclui com uma ltima e auspiciosa previso.
   - Candidato nico? Acha possvel, querido amigo?
   Ora, meu bravo Coronel, no seja ingnuo. Na atual conjuntura, nacional e internacional, quem nesse pas ter coragem de concorrer com o onipotente Chefe das Foras de Segurana? A prpria loucura tem limites - pensa Lisandro Leite enquanto enxuga o suor, sorri e promete:
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JORGE AMADO
- De minha parte, farei o possvel e o impossvel para que assim seja. Candidato nico e eleio unnime, meu nobre Coronel.

CONSIDERAES PERFEITAMENTE DISPENSVEIS

   Haver sentimento mais onipotente, a dominar o corao dos homens, do que a vaidade? Mestre Afrnio Portela dizia que no e o provou no decorrer do pleito.
Tomar assento na Ilustre Companhia, ser um dos Quarenta Imortais, envergar o fardo com debruns de ouro, a mo pousada no punho do espadim, o bicorne sob o brao, acomodar os ossos ou a banha na poltrona de veludo, ah!, para consegui-lo os cidados os mais respeitveis, as personalidades as mais poderosas, sujeitam-se a tudo: o violento torna-se gentil, o arrogante apresenta-se humilde, o avarento vira perdulrio, esbanja em flores e presentes. Contado, no se acredita;  preciso ver. Eis a tema e mote para muita filosofia barata e algumas divertidas anedotas. Infelizmente, falta-nos espao e tempo.

   Tome-se o exemplo do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira: tendo o poder das armas e da polcia, mandando e desmandando, senhor de cutelo e barao diante de quem at os Ministros tremem, no se sente plenamente realizado, falta-lhe a Academia. Ambio antiga, dos tempos dos primeiros (e renegados) versos, iluso a acompanh-lo vida afora.

   Certa ocasio, abrira-se com Lisandro Leite, solcito coestaduano.  preciso aguardar ocasio propcia, explicara o jurista, valorizando as dificuldades do empreendimento. De quando em vez trocavam idias sobre o assunto. Est amadurecendo, informava o Acadmico, referindo-se  candidatura. H uns seis meses atrs anunciara: As condies atualmente so timas, temos todos os trunfos. Falta-nos apenas a vaga. Deram um balano na idade e na sade dos Imortais, com saldo otimista: alguns deles no tinham imortalidade para muito tempo. O grande Prsio Menezes, por exemplo, atacado de cncer.

FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
Membro da Academia Brasileira, empedernida quimera. Sinal de que mesmo um chefe guerreiro, estico ariano em plena batalha pela conquista do mundo, pode acalentar um sonho com a mesma sofreguido de reles jornalista subversivo e judeu.

O ANIMADO VELRIO

   Perturbador rebulio feminino, oh!, incorrigvel Bruno, que fizeste da seriedade da morte, da severa conteno, do austero silncio, da obrigatria representao da dor?

   Bem que os acadmicos, ao descer dos automveis, se revestiam da compostura exigida, mas quem consegue permanecer compungido e grave tendo de beijar a mo de damas encantadoras, conversar frivolidades, ouvir histrias galantes, recordar versos ardentes em meio a uma parada de elegncia?

   Velrio? Havia o defunto,  verdade, no catafalco erguido no vestbulo da Academia. Por demais belo, o ar inconseqente, apesar da dignidade do fardo, defunto pouco  altura de seu fnebre papel, cmplice, se no responsvel, por tamanha falta de contrio e respeito. Sim, porque essa burla fora prevista e sugerida pelo prprio poeta, como se comprova ao ler o Testamento e Velrio de um tal Antnio Bruno, Trovador e Vagabundo Trs Vezes Morto por Excesso de Amor, versos antigos mas de persistente presena, nos quais o vate escarnece da morte e prope festa em lugar de luto no acompanhamento de seu corpo.

   Assim aconteceu. Lgrimas e risos, mais risos do que lgrimas, pedira no poema. Mulheres lindas e loucas quero ouvir o cristal de vossa gargalhada. Vestidos de festa, quero perceber a maciez do seio no decote. As que ali estavam conheciam o poema, estrofe por estrofe, algumas o sabiam de memria. Venham todas, a que me fez sofrer e aquela que apenas me sorriu na rua... Vieram todas e nos suspiros havia, como ele solicitara, o dissoluto, o arrulho dos ais de amor nas madrugadas em festa. 

   O saguo repleto. Acadmicos, escritores, algumas autoridades, gente de teatro e rdio, diplomatas, artistas plsticos, pessoas do povo, simples leitores. O Desembargador Lisandro Leite, ao chegar, posou
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para os fotgrafos, junto ao esquife, pronunciou algumas frases (lapidares) ao microfone de uma estao de rdio. Desapareceu em seguida, pela porta da Secretaria, arrastando o Presidente, aos cochiches.

   Na graa das mulheres feneceu a compuno fingida, a mscara postia da morte. Apenas os sentimentos reais permaneceram intactos, o amor no desfile das formosas, a estima dos colegas, alguns dos quais tinham sido amigos fraternos, a admirao dos leitores, muitos e, na maioria, jovens. At mesmo aquele odor de flores murchas e machucadas, fatal em todos os velrios, anncio da decomposio prxima, fora expulso pelos perfumes raros, excitantes.

RIDAS EXPLANAO SOBRE A POESIA 

  Definies variadas merecera da crtica a poesia de Antnio Bruno. Mas o ttulo que o acompanhou a partir do livro de estria, repetido pela imprensa e pelo pblico, ttulo caro a seu corao, foi o de poeta dos namorados. Todos os namorados lem seus versos; aos dezoito anos somos todos seus leitores mas as mulheres o so durante a vida inteira, assinalou um ensasta, em anlise extensa e simptica, quando do lanamento das Poesias Escolhidas. Certos crticos, pouco afeitos a obras e autores populares, acusaram sua poesia de fcil e anedtica, mas os leitores encontravam nela a revelao de um universo ao mesmo tempo real e mgico, onde o quotidiano, as insignificncias do dia-a-dia, fatos aparentemente sem importncia, o beco e a cor do cu, o gato na janela e a flor do cacto, adquiriam nova dimenso, um halo de mistrio.

   Sbita e emocionante descoberta: a rua e o orvalho, as nuvens e o crepsculo, a noite imensa, paisagens, objetos, sentimentos. A fome de uns lbios, o arfar de um colo, a impudica geografia de um corpo desvestindo-se, a nsia, a violncia, a doura do amor. Poesia com cheiro e gosto de mulher e, ao mesmo tempo, repleta de Brasil: celebrou as rvores e os pssaros, os rios e o mar, os bichos e os costumes brasileiros. Mas o amor foi o tema maior de seu canto, no
corao do poeta no coubera o dio.
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   Jornalista, funcionrio do Ministrio da Justia, jamais juntara dinheiro nem possura bens, gastando quanto ganhava e quase sempre mais. Ainda rapazola de dezenove anos incompletos, participara de uma excurso de frias  Europa, com colegas da Faculdade de Direito. Pareceu-lhe absurdo demorar-se apenas uma semana em Paris, ficou trs anos. Para obrig-lo a voltar, o pai cortou-lhe a mesada mas ele sobreviveu, eufrico e guloso de tudo que Paris lhe oferecia. Confidenciava aos amigos que exercera, entre outras, a honrada e gratificante profisso de gigol, danarino a soldo de velhas milionrias, adorveis velhinhas. Familiar dos cafs literrios, dos buquinistas do Sena, aprendeu as sutilezas do vinho e dos queijos, e quando regressou trouxe na bagagem os originais do livro de estria, O Danarino e a Flor, de sucesso fulminante.

   Voltou a Paris sempre que lhe foi possvel. J quarento, l pudera demorar-se por mais dois anos, graas a certo Ministro do Exterior, seu contemporneo, que lhe obtivera um encosto na Embaixada, com vagas obrigaes culturais. O antigo fascnio cresceu. Para ele, Paris era a mais alta conquista do homem, cidade incomparvel, ptria do humanismo, da beleza, da liberdade. De retorno, consagrou-lhe todo um volume: Paris Amor Paris, aberto com uma epgrafe de Jacques Prevert, a quem conhecera e de quem se fizera amigo: Tantpispour ceux que n'aiment ni ls chiens ni Ia boue.

   Um crtico, considerado erudito, classificou-o A&Prvert brasileiro, em apreciao leviana, pois faltava  poesia de Bruno o interesse pelo fato social e poltico to presente na obra do francs. Nunca teve a ver com a poltica, nem mesmo quando um governador de seu Estado natal, querendo beneficiar-se com a popularidade do poeta, ofereceu-lhe lugar na chapa de deputados federais. Recusou, mantendo-se distante de qualquer compromisso. A instalao, em 1937, da ditadura do Estado Novo o desgostou mas no assumiu qualquer atitude de protesto. Andava s voltas com o discurso de posse na Academia. Fora eleito meses antes, derrotando um parlamentar de oratria inflamada e um mdico de renome cientfico e ambies literrias, sucedendo a um velho General, sertanista apaixonado, autor de ridos porm abalizados estudos sobre os idiomas e os costumes dos indgenas brasileiros.
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   Os intelectuais de esquerda, em mais de uma ocasio, criticaram o poeta Antnio Bruno pela falta de engajamento de sua poesia num mundo dividido, injusto e conturbado onde outros poetas amargavam o exlio ou morriam fuzilados.

O POETA DESCE DA TORRE  DE CRISTAL  PARA SER EXECUTIVO EM PARIS

   Quando, porm, os nazistas desencadearam a guerra, o poeta Bruno saiu do casulo, sentindo finalmente ameaados seu universo, a civilizao, a liberdade, tudo quanto amava. Desci da torre de cristal, o cristal estava embaado, impedia-me de ver o mundo, disse, numa espcie de autocrtica, em discurso pronunciado na Academia. Passou a acompanhar os acontecimentos com crescente paixo, vivendo e sofrendo cada detalhe do conflito.

   Nem por um momento duvidou da vitria dos exrcitos aliados. Nem mesmo quando a Wehrmacht penetrou na Frana - os soldados franceses eram invencveis. A derrota o tomou de improviso, desprevenido. Foi terrvel, tudo desmoronou em seu redor, previses e entusiasmo foram substitudos pelo desalento total, viu-se cercado de runas, perdeu de repente e por completo a segurana e o gosto de viver. A queda de Paris provocou-lhe um enfarte.

   Ainda no hospital, escreveu lancinante poema. Pela primeira e nica vez, a doce saga de amor cedeu lugar ao canto de guerra, estrofes de fogo e sangue, de insulto e praga, antema contra Hitler e seus sequazes. Roto pela humilhao e sofrimento da cidade bem-amada, ptria da civilizao e do humanismo, esmagada sob as botas nazistas, o poeta Bruno, no entanto;' ergueu-se inesperadamente do leito de enfermo e, superando a desesperana e o desgosto de viver, previu e anunciou o dia prximo e iniludvel da libertao, quando Paris, a alegria e o amor ressurgiriam. 

   Assim, o Canto de Amor far uma Cidade Ocupada conclua com ardente apelo ao prosseguimento da luta at  vitria final. Estranho alento, entusiasmo inexplicvel partindo de quem deixara de acreditar na vida.
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR

   A verdade  que a parte final do poema fora completamente reescrita. Na verso primitiva, o poeta despedia-se, suicida; recusava-se a viver num mundo monstruoso. Mas quando viu lgrimas nos olhos daquela que arriscava a segurana e a honra para visit-lo, clandestina e aflita, iluminando as trevas, repelindo a dor e a morte, Antnio Bruno, que nada lhe podia negar, simulou compartir de 
sua militante e pertinaz certeza, riscou os versos atrozes de desespero e desencanto, comps novas estrofes, as da resistncia e da vitria. Eram de sua autoria aqueles versos largos, densos e hericos, mas a inspirao provinha da frgil e intrpida visitante que os impusera com seu encantador acento de alm-mar. Bruno confiou-lhe o original do poema e ela, s escondidas, datilografou as primeiras cpias. 

   Levado para publicao no suplemento literrio de um dos grandes dirios do Rio, a censura (ou a autocensura) o vetou por insultuoso a chefe de nao amiga. Apesar disso, em alguns poucos dias, o poema ganhou extensa circulao e vasta popularidade. Passava de mo em mo em cpias mimeografadas; impresso em volantes, atingiu rapidamente os mais longnquos pontos do pas.

   Nem sequer o sucesso Ao Canto de Amor para uma Cidade Ocupada conseguiu manter o nimo do poeta. A esperana e o alento contidos no poema, dos quais se nutriam milhares de brasileiros, no sustentaram seu abalado corao. Quando o Diretor de Perspectivas, revista cuja existncia Antnio Bruno desconhecera at ento, viera pedir autorizao para publicar o poema engajado e maldito, ele apenas encolheu os ombros:

   - De que valem versos contra os canhes e a bestialidade? Publique, se quiser, se permitirem. No h mais lugar para a poesia no mundo. Nem voltar a haver.

   Dez dias depois, em manh difana, o sol iluminando o perdido estdio parisiense, o poeta tombou, executado.
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JORGE AMADO
O SUSPIRO, A ROSA, O BEIJO, A DAMA DE NEGRO,
o CORONEL E A MORTE FINALMENTE
   - Se houvesse msica, poder-se-ia danar... - comentou, num meio sorriso, mestre Afrnio.
   Ouvinte silenciosa, a senhora de beleza fanada deixou escapar um suspiro  sbita recordao do Bal Masque. O eminente e truculento Evandro Nunes dos Santos concordou, a voz rouquenha de fumante inveterado:
   - No me admiraria se Bruno se levantasse e mandasse servir champagne a todo mundo. Assim o vi fazer em Paris, mais de uma vez...
   Dois velhos letrados, comovidos. Em derredor do esquife, onde repousavam o poeta e sua legenda de bomio sem par, de sedutor irresistvel, prosseguia aquela agitao de mulheres, tantas. Loiras, morenas, uma ruiva com sardas, elegantes quarentenas e moas em flor, adolescentes em uniforme de colegial, versos copiados nos cadernos de matemtica, a grande atriz e a costureirinha com a rosa na mo.

   Adiantou-se a tmida costureirinha e colocou a rosa sobre os brocados do fardo - rosa de cobre, rosa de mel, rosa menina. A grande atriz curvou-se, os olhos molhados; beijou a testa fria, contemplou em derradeiro adeus o perfil romntico, romntico perfil de beduno - o poeta proclamava-se descendente de xeques do deserto, corria-lhe realmente nas veias sangue mouro. O av materno, Fuad Maluf, quando abdicava do metro e da tesoura, compunha poemas em rabe. Lembranas de um tempo passado, de um outro adeus, fizeram arfar o colo da diva e ela se afastou, sufocada pelo fogo devorador da primeira paixo, quem sabe a nica verdadeira em sua agitada vida amorosa. Ficara marcada para sempre.

   Formara-se um grupo em torno dos dois amigos. Evandro Nunes dos Santos tomou do leno, limpou o pincen e os olhos ardidos. Contava fatos recentes, acontecidos havia uns quantos anos, pertenciam no entanto a uma poca extinta:
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   - Cobrava uns dlares na Embaixada, no era sequer funcionrio regular, mas todos o tratavam como se fosse ele o Embaixador. Passei trs meses em Paris, nessa ocasio, e samos juntos todos os dias. No creio saber de algum que amasse tanto uma cidade. Paris lhe pertencia. Amigo mais encantador...
Ainda comovida, a grande atriz juntara-se ao grupo:
   - Devo-lhe minha carreira. Pisei no palco levada por ele, era o ser mais generoso... - devia-lhe infinitamente mais, se pudesse contaria os detalhes e seria grato faz-lo. Mestre Afrnio confirmou:
   - O amigo perfeito... - o sorriso apagou-se nos lbios trmulos: - Quem o matou foi a guerra, Hitler. Ainda na quinta-feira, recebera notcias de um casal francs, de sua amizade. Estavam desesperados: o filho nico, de vinte anos, tomado como refm, acabara de ser fuzilado pelos alemes. Bruno me disse: -No suporto mais.

   Calou-se, refletindo como a vida se tornara amarga e como o horizonte se estreitara. Percorreu a assistncia com os olhos e ento a viu chegar, toda de negro, rosto semi-encoberto pelo vu de luto, jamais to bela - ela viera apesar de tudo, desprezando seus conselhos. Furtiva, aproximou-se do catafalco. Mestre Afrnio observou-a: rgida, apertando as mos cruzadas, lvidos os dedos longos e finos antes de se esquivar para um abrigo de cortinas.  uma deusa, mestre Afrnio, desceu do Olimpo, no a mereo, sou apenas um louco jogral...

   O Desembargador Lisandro Leite surgiu da Sala da Secretaria, suarento e nervoso, atravessou o saguo, foi at a porta de sada espiar a rua. O Presidente da Academia, Hermano do Carmo, juntou-se ao grupo e  louvao do falecido. Ento, em meio ao bulcio do velrio, escutou-se, distintamente/a modulada e clara voz da grande atriz dizendo em surdina versos de Bruno, versos talvez escritos para ela. Lisandro Leite parou para ouvi-los mas em meio a uma estrofe precipitou-se para a porta.

   Aqueles passos firmes, uniformes, ressoando alto, eram inconfundveis, nenhum civil saberia pisar assim. O Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, todo ele em parada fnebre, marchou para o caixo, juntou ruidosamente os calcanhares, colocou-se em posio de sentido
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diante do Acadmico morto, bateu-lhe continncia (e a repetiu para os fotgrafos).
   -Meu Deus... - gemeu Afrnio Portela. 
   De repente foi o silncio, o frio silncio. Calou-se a voz da atriz, rompeu-se a poesia. Imvel, em posio de sentido, o Coronel demorou-se um infinito minuto. Depois, deu meia-volta volver, cumprimentou o Presidente, grande perda para a literatura brasileira, repetiu para os acadmicos, saudou algumas pessoas gradas. A seu lado, triunfante e protetor, o ilustre Desembargador Lisandro Leite. 

   Atendendo a repetido sinal do jurista, e um pouco contrafeito, o Presidente convidou o Coronel a subir ao primeiro andar. Dirigiram-se para o elevador, Lisandro Leite arrebanhou de passagem dois senhores acadmicos. Os demais vacilaram, sem saber se ir ou no. Temos candidato, considerou um deles; outro completou: - E que candidato!
   - Meu Deus! - repetiu mestre Afrnio. Evandro Nunes dos Santos reps o pincen:
   - No  possvel! -r menos do que uma negativa, era aflita indagao. 
   A dama de negro saiu do recanto de cortinas e, abandonando toda e qualquer discrio, andou em direo aos dois amigos, estupefata e indignada: que significava a presena daquele tipo no velrio? Teria, por acaso, pretenses?
   
   J no se restabeleceu no vestbulo a trfega atmosfera quase de festa, exigida pelo poeta, na qual a dor e a saudade eram reais e vivas e no mscaras de circunstncia, postios sentimentos. Terminou o alvoroado bulcio, no mais se ouviram risos, voz lacre, incorrido suspiro, murmurado verso de amor. O louco jogral abandonara o esquife, onde permaneceu apenas o cadver de um Acadmico pronto para o cemitrio.
   Agora, palavras medidas, frases solenes, faces contritas, cheiro apodrecido de velas e flores, o frio silncio - por fim imposto o ritual da morte.
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JORGE AMADO
FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR

II
A BATALHA DO PETIT TRIANON
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JORGE AMADO

FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

BREVE NOTCIA DE JANTAR COM VINHO DE PURA UVA
   
   O Coronel deixara a escolha do cardpio a cargo do eminente cultor das letras jurdicas, garfo respeitvel, assduo freqentador de restaurantes - gostava de comer bem e bastante, sobretudo quando convidado. Mas fizera questo de indicar o vinho, um tinto do Rio Grande do Sul:
   -  pura uva, uma delcia.
   Baseando-se em razes ideolgicas e geogrficas, Lisandro Leite acalentara a esperana de enxugar umas garrafas de legtimo Reno, de nobre e vitoriosa procedncia germnica. Conformado, brindou corn o de pura uva:
   - Ao sucesso de sua candidatura.
   - Obrigado. E o vinho, que tal?
   - Um nctar! (Suco de uva "vagabundo, zurrapa Infame...)

   O Coronel,  paisana, parece diminuir de tamanho e de importncia. Lisandro Leite, porm, no se deixa enganar: mera aparncia, o traje no afeta o poder do anfitrio. Basta atentar na mesa prxima, estrategicamente situada, onde possantes campees guardam (literalmente) as costas do chefe. Tambm nas alamedas do cemitrio, ao fim da tarde, o jurista pudera conferir peso e extenso desse poder, observando a reao dos acadmicos  notcia da candidatura. Nem um nico ousara erguer a voz em oposio frontal  pretenso do Coronel, se bem vrios entre eles no conseguissem esconder o desgosto, engolindo a plula a duras penas, corja de liberalides. Era preciso tomar cuidado para evitar os votos em branco, capazes de comprometer a limpidez da vitria:
   -Candidato nico, seguramente. Quanto  unanimidade, lutarei para obt-la, catequizando os rebeldes, a turma da BBC...
   - Turma de qu?
   -Esses que vivem pendurados no rdio, ouvindo a BBC de Londres. No lhe escondo que a Academia est eivada deles. Mas o prestgio do caro amigo e minha experincia...
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JORGE AMADO

   Relata, entre garfadas, os resultados (positivos) dos primeiros contatos., Sampaio Pereira abandona o talher para melhor regalar-se com os elogios e os prognsticos, recolhidos pelo amigo na travessia do campo-santo.
   - E o Presidente? Pareceu-me algo reticente,  tarde.
   - Na condio de Presidente, Hermano  obrigado a manter-se discreto, no pode anunciar aos gritos suas preferncias. Conversei longamente com ele antes de sua chegada. Realmente, a Academia precisa de1 um representante do Exrcito, disse-me quando lhe comuniquei sua Inteno. O fato de t-lo convidado a subir ao primeiro andar, acompanhado de acadmicos, significou na prtica a apresentao pblica de sua candidatura, sob os auspcios da presidncia. Trabalhinho deste seu amigo aqui... E note que estavam no velrio pelo menos trs postulantes e nenhum deles mereceu tal considerao. Nem mesmo Raul Lameira...
   - O Reitor?
   - Fala-se em seu nome h bastante tempo. Candidatos fortes para a Academia  o que no falta. Mas deixe a limpeza da rea por minha conta. Eu me encarrego do Lameira, ele fica garantido para a prxima... O Prsio, coitado, est no fim, no dura muito...-baixou a voz: - Cncer de pulmo. - Dispunha das vagas por ocorrer, havia algo de macabro naquele boletim de sade dos acadmicos. Concluiu o relato, afirmativo: - O prprio Afrnio Portela concordou comigo em que sua candidatura  imbatvel. Mesmo ele, inimigo intransigente do regmen, pouco simptico ao nome do amigo.
   -Jamais poderei lhe agradecer, Desembargador. Mas saiba que no sou Ingrato, aqueles que privam de minha intimidade...
   Por falar em intimidade, no correr do gape opparo e delicioso (na competente classificao do jurista), decidiram, o candidato e seu patrono, abandonar o tratamento cerimonioso de senhor pelo fraterno voc, deixar de lado patentes e ttulos para dizerem um ao outro Agnaldo e Lisandro. Quanto  gratido, o Acadmico reafirma 0| absoluto desprendimento de seu apoio, resultante apenas da mais pura e sincera admirao pela obra do escritor e da mais completa e irrestrita solidariedade  atuao do patriota.
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR

   Mesmo porque vaga no Supremo somente em meados do ano seguinte, por ocasio da compulsria do Ministro Paiva, alis outro colega da Academia e bom amigo. 
Feitas as contas, exatamente quando ele, Lisandro, estar pronunciando o elogio do novo Imortal, na sesso solene de recepo.

   No velrio e no cemitrio sentira surdas, encobertas restries ao nome do Coronel; a eleio vai dar mais trabalho do que imaginara. Tarefa fundamental: impedir a inscrio de outro candidato. Para lhe ser to grato quanto o necessrio, o Coronel precisa entrar na Academia carregado em andor e no disputando votos:
   - Na prxima quinta-feira, ser a sesso de saudade, na qual faremos o elogio do finado, aps o que o Presidente proclamar a vaga aberta. Voc deve mandar a carta apresentando-se candidato logo no dia seguinte. Quero que sua candidatura, querido Agnaldo, seja uma verdadeira marcha triunfal.
   Brindaram mais uma vez com o tinto do Rio Grande:
   - Pura uva...
   - Um nctar!

    Na mesa vizinha alimentam-se - por conta da verba de combate ao comunismo - os hercleos gladiadores. Lisandro Leite desvia o olhar, nem mesmo para ele a musculosa viso  graciosa e amena. Mais adiante, usando o tato necessrio, precisar aconselhar ao Coronel mais discrio na maneira de agir dos elementos de sua segurana pessoal. Nas visitas de praxe aos acadmicos e em eventuais idas ao Petit Trianon, ser prefervel deixar os impetuosos rapazes do lado de fora, na rua. Naquela tarde, no velrio, tinham atropelado o Presidente,  entrada do elevador, e o Embaixador Francelino Almeida, o mais antigo membro da Ilustre Companhia, o nico que restava dos quarenta fundadores, frgil arcabouo, recebera tamanho empurro de um dos brutamontes que tivera de recolher-se ao leito. Logo ele, considerado por Lisandro voto certo do Coronel.
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

OS NETOS E O AV

   Apoiando-se na bengala, Evandro Nunes dos Santos atravessou por entre as rvores do jardim, um pequeno parque com rvores frutferas, veio sentar-se no banco sob a mangueira. Ali, nas alturas de Santa Teresa, as estrelas fulgiam num cu imenso e puro. Nem mesmo a tranqila beleza da noite apaziguara o corao do velho ensasta. Tampouco a presena solidria dos netos.
   - Hoje, pela primeira vez, lastimei ter vivido tanto. 

   Fala e age como um trpego ancio, constata Pedro, alarmado, escondendo o rosto na sombra. Isabel toma a mo do av e a beija. Senta-se na grama, a seus ps, encosta a cabea nos joelhos ossudos, tenta sorrir, de que valem as palavras? Da sombra, Pedro observa os ombros curvos, a cabea inclinada, os cabelos brancos; a frase atormentada di nos ouvidos do rapaz, acostumado  fortaleza de quem se negava a envelhecer. Os netos podem calcular o sofrimento a abat-lo; tambm eles amaram o poeta Antnio Bruno. No cemitrio, Isabel, sua afilhada de batismo, tivera de amparar-se no brao do irmo.

   Pedro recorda quando o av os trouxera, ele com sete anos, ela com cinco, para o beijo de despedida em lvaro e Brbara, os pais, vtimas de estpido desastre de automvel. Ao receber os corpos do filho nico e da nora querida, naquela madrugada, Anita, esposa de Evandro {esposa, irm, me e amante), morreu para a alegria, e se ainda durou alguns anos foi por imposio do marido: -Temos de viver para as crianas. Viveu at v-los adolescentes, Pedro com dezesseis, Isabel com quatorze anos. J no se sentindo imprescindvel, Anita deu por finda a pesada tarefa, entregou-se  doena cruel. Vou morrer, meu bem, disse ao companheiro. 

   Apesar de sab-la incurvel, condenada, Evandro pediu-lhe: No quero que vs antes de mim, no quero ser um velho sem dono. Nada mais triste do que um co sem dono, vagando pelas esquinas em busca de uma palavra, de um gesto de carinho. Que dizer ento de um velho sem dono? Anita recordou-lhe os netos que j no precisavam dela
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mas ainda tanto dependiam dele. Nunca ficars sozinho, tens as crianas e os amigos.

   Anita tinha razo, no foi um velho triste e intil, cansado rafeiro solitrio.  Alm dos netos e dos amigos, o trabalho. Com a letra mida (jamais escrevera a mquina) encheu pginas e pginas analisando a formao e a condio do homem brasileiro. Naqueles ltimos anos, publicara trs livros, coroamento de uma obra de excepcional significado. Rompeu com idias assentes, liquidou preconceitos, afirmou ousadias, revolucionou os estudos sociolgicos e histricos. Sem se filiar a nenhuma ideologia, havia um sopro libertrio, quase anarquista, em sua viso da vida. Desabusado, por vezes malcriado, com irresistvel poder de convico e de comando, os que no o admiravam e queriam, temiam-no. Nunca se sabe o que pode inventar e fazer, comentavam.

   No silncio do jardim, na noite de estrelas, aps o enterro do poeta, Pedro e Isabel buscam levantar o nimo do av. A voz de Pedro chega da sombra, inquieta:
   - Bruno no gostaria de lhe ver assim, av...
   -  verdade, meu bem. - Isabel dizia-lhe meu bem desde a morte de Anita, como se houvesse recebido o av em herana.
   - No  po ele estar morto, eu me preparara para sua morte desde o primeiro enfarte. O que me acabrunha  outra coisa...
   - Que coisa, av?
   - Vocs sabem como ele se apaixonara nesta guerra, seu horror ao nazismo. Tanto que, ao perder a esperana, morreu. Pois vocs sabem quem vai substitu-lo na Academia?
   - J apareceu candidato?
   - Sampaio Pereira, esse Coronel nazista...
   - Quem? O Coronel Agnaldo? O rei da Quinta-coluna? Essa  de amargar, av, no pode ser.
   -  ele quem vai ocupar a cadeira de Bruno. Eu havia de viver para assistir a essa infmia.
   Correu uma estrela na noite, elevou-se a voz de Isabel:
   -Ele pode estar querendo mas voc no vai consentir, no , meu bem? Voc no vai deixar que faam isso corn meu padrinho.
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JORGE AMADO
  Pedro sorriu, recuperou a segurana: 
   - claro que no vai deixar, o av d um jeito.
   No era um velho sem dono, rafeiro abandonado e solitrio  espera da morte. Elevou a cabea enquanto Isabel repetia:
   - preciso fazer alguma coisa, meu bem.
   Nada podemos fazer, o homem  um dos donos do Brasil, confidenciara-lhe o Presidente no cemitrio, quem se atreve a combat-lo, a opor-se? Evandro Nunes dos Santos sara do enterro desmoralizado, intil e infeliz. A voz forte de Pedro:
   - Voc nunca fugiu de uma briga, av.
   Nunca fugira de brigas, at provocara umas quantas. Nada se pode fazer por falta de quem se atreva? Engana-se, Senhor Presidente, haver quem se oponha  candidatura infame, quem lute contra essa injria  Academia e  memria de Bruno. Sem buscar sequer o apoio da bengala, ergue-se alto, magro e majestoso:
   - Vocs tm razo,  preciso fazer alguma coisa. Vtelefonar agora mesmo ao Afrnio.
   Isabel levanta-se para lhe oferecer o brao mas o av adiantara-se, Pedro o enxerga avanando por entre as sombras das rvores, como pudera imagin-lo trpego ancio? Recolhe a bengala abandonada.

MESTRE AFRNIO PENSA EM ABANDONAR A ACADEMIA

A sala rica, lustres de cristal, bibels de porcelana, aparelhos de faiana, vasos de opalina, quadros de mestres da Escola de BelasArtes, tudo de evidente bom gosto mas um tanto passado de poca. A empregada retirou os pratos do jantar servido  luz de velas. Silencioso, o olhar perdido atravs da janela (viam-se as luzes cruzadas dos automveis nas pistas da Praia do Flamengo), Afrnio Portela apenas tocara na comida. Preocupada, dona Rosarinho - Maria do Rosrio Cintra de Magalhes Portela - hesitava em propor-lhe um medicamento. Em cerca de quarenta anos de vida matrimonial, poucas vezes vira o marido to abatido e sombrio.
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

   Antnio Bruno fora mais do que um simples amigo. Quando chegara ao Rio para cursar a faculdade, adolescente mordido pela literatura, aparecera, uma noite, sem convite nem hora marcada, para mostrar ao coestaduano, escritor j afamado, 
alguns poemas e contos. Os versos eram bons, os contos ruins, opinara Afrnio, enquanto dona Rosarinho mandava colocar mais um talher na mesa. Desde ento e durante mais de trinta anos, aquele fora o lugar de Bruno, o casal sem filhos adotou o petulante aprendiz de poeta. Dona Rosarinho decidira no ir ao velrio, tampouco ao cemitrio. Preferia imagin-lo ali,  mesa, falando sobre Paris, proclamando o ltimo e definitivo amor.
   - No queres que te d...
   - Manda-me servir um conhaque,  do que preciso. 

    Lentamente, comeou a contar detalhes do velrio e do enterro. Na opinio geral, no existia em todo o Rio de Janeiro prosa mais sedutora. Seria um extraordinrio romancista se escrevesse com o mesmo sabor, a mesma graa com que conversa, rosnara um confrade de lngua afiada. Puro despeito, pois a novelstica de Afrnio Portela - se bem relegada nos ltimos anos a certo esquecimento diante do estardalhao do movimento modernista e do impacto dos romancistas da gerao de trinta - merecera os aplausos da crtica que reconheceu e saudou no criador de Adlia um penetrante e audaz analista da sociedade carioca da dcada de vinte. Numa poca pobre de ficcionistas sua obra avultara pela agudeza psicolgica, pela clareza da linguagem, a servio de uma viso amena dos costumes da chamada elite. Foi o primeiro no Brasil a utilizar a psicanlise na interpretao dos sentimentos de seus heris, ou melhor, de suas heronas - retratista de mulheres a se debaterem entre os instintos e os preconceitos.

   Apenas num livro, em seu primeiro romance, recriara cenrios e figuras das lavras de garimpes e romeiros, onde nascera. Drama de sentimentos primitivos e vitais, de amor selvagem e terra agreste, isolado num conjunto novelstico de temtica citadina, de ambientes elegantes e fureis, aquele pequeno volume foi ganhando importncia, pouco a pouco. Envolta em trapos, a inocente e impudica Maluquinha cresceu na estima dos leitores, enquanto as melindrosas e complicadas gr-finas dos outros nove romances publicados feneciam nas alcovas do adultrio.
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JORGE AMADO
   
   O ltimo, A Mulher no Espelho, aparecido em 1928, coincidiu com o lanamento, na Paraba, em pfia edio provinciana, de A Bagaceira, de um desconhecido Jos Amrico de Almeida. Teria esse fato concorrido para que Afrnio Portela abandonasse a fico, voltando-se para o ensaio e a histria literria? Ousada afirmao de um crtico pedante, o mais provvel  ter existido apenas coincidncia, pois os romancistas nordestinos, surgidos na esteira do paraibano, obtiveram caloroso aplauso e eficiente apoio do autor de Praia do Flamengo. Um volume sobre Castro Alves, estudos sobre Gregrio de Matos e Thomaz Antnio Gonzaga mantiveram em evidncia o nome de Afrnio Portela. De mestre Afrnio, como diziam em amistoso respeito confrades e leitores.

   Dona Rosarinho ouve a colorida descrio, a narrativa vai ganhando em fora e malcia. Ela sabe que, sob a capa do intelectual to erudito e refinado, subsiste a fibra do sertanejo difcil de abater-se. Uma pausa antes de anunciar:
   - Prepara-te, agora, para uma notcia srdida.
   Dona Rosarinho estranha o acento carregado de asco na voz habitualmente cordial do marido. Algo acontecera, capaz de tornar ainda mais cruel a ausncia de Bruno. Mestre Afrnio prossegue e a requintada senhora ouve os passos unssonos, o bater da continncia e a repetio para os fotgrafos. Por t-las vivido ao lado do marido, dona Rosarinho sabe das trincas acadmicas, acompanhava de perto cada eleio e em algumas at influra.
   - Candidato, tu pensas? Ter a ousadia-
   - Candidato eleito. Imbatvel, disse-me Lisandro Leite no cemitrio, e tem razo. J imaginaste Sampaio Pereira fazendo o elogio de Bruno, do autor do   Canto de Amor para uma Cidade Ocupada?
   - Que horror. Esse... - procurou palavra adequada, no achou:
   - ...  capaz de usar botas com o fardo. - Pensativa, descansou os olhos na face ofendida de mestre Afrnio: - E tu, que pensas fazer?
   - Voto em branco,  claro, seremos trs ou quatro, certamente. No irei  posse, penso que no voltarei  Academia aps tal eleio. E demais para mim...
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

   Dona Rosarinho no chegou a expressar sua opinio porque a empregada pediu 
licena para anunciar que a Senhora Maria Manuela estava  porta e perguntava se o doutor Portela podia receb-la.
   - Vens comigo?
   - No. Ela se sentir mais  vontade sem a minha presena. Esqueces que oficialmente eu no sei d nada?

INSLITA VISITANTE

   No amplo gabinete, as paredes recobertas por estantes com livros, dona Maria Manuela, plida e arfante, no quis sentar-se. Com os olhos queimados, fitou o velho amigo de Bruno, o confidente, aquele que estava a par de tudo. Pela manh ele a ouvira soluar ao telefone, desamparada, no tentara conter-lhe o pranto, se buscou palavras de consolo no as encontrou. Deixou que ela prpria se controlasse para, ento, lhe aconselhar prudncia, ainda mais necessria agora quando arriscar-se j no tinha sentido. Prometeu procur-la em breve, juntos recordariam o riso, a graa, a poesia.
   
   - Vim para suplicar... Diga-me que no vai permitir. Eu no consegui impedir que ele morresse... mas o senhor pode evitar que lhe desonrem a memria... - falava aos arrancos; na voz, vibrante de paixo, acentuava-se o sotaque lisboeta: - Sou uma estrangeira, eu sei, mas acabaram-se as fronteiras, a guerra  uma s. - Suspendeu a cabea altiva, deusa descida do Olimpo, jovem senhora no esplendor dos trinta anos, a splica transforma-se em imperativa exigncia: Um fascista no pode recolher a herana que  nossa. Vim para ouvir do senhor que isso no vai acontecer. Um carrasco do povo, um nazi, sucedendo a Antnio... - num esforo reteve o soluo: -...  como mat-lo outra vez.

   Meu Deus! Dizer que escrevera dez livros analisando os sentimentos das mulheres...
   -Como soube?
   - Desconfiei no velrio, quis at lhe falar. H pouco, ouvi a noticia no rdio. No posso fazer nada, mas o senhor pode.

JORGE AMADO

  Na mesa, ao fim do jantar, mestre Portela dissera a dona Rosarinho que deixaria de freqentar a Academia, l no pondo mais os ps, se aquele indivduo fosse eleito, conforme tudo fazia prever. Parecera-lhe exprimir assim o protesto mais vigoroso, deciso extrema. Agora, ali no gabinete, ouvindo Maria Manuela, d-se conta de haver assumido apenas uma posio cmoda, passiva, que no conduzia a nada. Um sentimento de culpa o invade. Como pudera faltar ao amigo, abandonando sua memria aos assassinos?
   - No sei se conseguirei, mas lhe prometo que farei o possvel...
   - E o impossvel... 
   - Pois bem: e o impossvel.

   A jovem senhora, a menina Manuela, andou para o velho literato, beijou-o na face, encaminhou-se para a porta, mestre Afrnio a acompanhou at o vestbulo. Mundo absurdo e surpreendente quem iria imaginar que a esposa do Conselheiro da Embaixada de Portugal, filha de um Ministro de Salazar, de famlia de banqueiros, rica e influente, fosse inimiga do regmen, simpatizante do socialismo, fadada  cadeia, ao campo de concentrao. Creio que ela  meio comunista, revelara Bruno ao incio da aventura. Comunista ou no,  absolutamente adorvel e maluca de jogar pedra. Deu-me um trabalho convenc-la a no largar o marido para vir morar comigo. J pensou no escndalo, seu Afrnio? Veja a encrenca em que me meti.

   De regresso  sala, mestre Afrnio Portela disse a dona Rosarinho, que se sentara diante do rdio para ouvir o noticirio da BBC:
   - Veio me pedir...
   - ... o mesmo que eu ia te pedir. Que no permitas a eleio desse carniceiro. No pretendo deixar de comparecer s festas da Academia, eu as aprecio muito. Agora, vai telefonar para Evandro que quer falar contigo exatamente sobre esse assunto.

   Sorriu para o marido o mesmo sorriso cmplice do tempo de namorada, quando os pais milionrios se opunham ao casamento da filha com um literato p-rapado, sem eira nem beira. .....

FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
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UM VELHO ANDANDO PELA RUA
Velho insensato, pensava consigo mesmo mestre Afrnio Portela indo pela rua 
a caminho da Academia para encontrar-se com outro detraqu, Evandro Nunes dos Santos. Quem ousaria levantar-se contra o DIP, o DOPS, as diversas polcias, os servios secretos, contra aquele que era o todo-poderoso Chefe da Segurana Nacional candidato dasforas vivas do pas, da ordem estabelecida, da ditadura do Estado Novo, dos senhores da guerra vitoriosos no mundo?

   Velho insensato mas ia pela rua com os ombros erguidos, um brilho nas pupilas cansadas, um sorriso de malcia. A vai um velho contente da vida, comentou um transeunte ao v-lo passar.

A PRUDNCIA E OS TRUNFOS

   Enquanto espera Afrnio Portela, com quem marcara encontro, Evandro Nunes dos Santos, no gabinete do Presidente, deblatera, em longa e acerba catilinria, contra a candidatura de Sampaio Pereira, expondo as razes polticas e morais que a fazem inaceitvel:

   - Uma injria  Academia, um insulto!
   - Voc pensa que fui eu quem inventou essa candidatura ou que tenho algum interesse nela, que a recebo com prazer? - Hermano do Carmo recorda a desagradvel experincia da vspera, quando os dois guarda-costas se haviam metido a fora no elevador, mas no menciona o fato para no botar lenha na fogueira: - O que posso fazer para evit-la?
   A pergunta fica no ar, Evandro Nunes dos Santos resmunga que se devia fazer alguma coisa, fosse o que fosse. O Presidente prossegue:
   O regimento exige que o candidato haja publicado um livro; o homem publicou vrios, incluindo um de versos, voc sabia? Eu insinuei ao Lisandro que alguns acadmicos haviam pensado no Feliciano, achando que o candidato ideal para substituir o Bruno seria
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JORGE AMADO
outro grande poeta. Ele me respondeu com o ttulo do tal livro e me garantiu que, poeta por poeta, seu candidato nada fica a dever ao Feliciano ou ao Bruno. Parece que so versos romnticos, da juventude. At esse trunfo ele tem. 
   - Trunfo mais vagabundo...
   - Mas os outros, em compensao... Voc precisa ver o Lisandro sacando-os, um a um, do bolso do colete: candidato do Exrcito, uma das figuras mais importantes do Governo, prestgio imenso, os tempos no esto para brincadeiras. Outro argumento de peso: essa cadeira  cativa do Exrcito, sempre foi, do primeiro at o penltimo ocupante, a tradio precisa ser restabelecida. E da para a frente... No vejo sada, meu velho. Se voc descobrir alguma, me diga. Eu no vejo nenhuma...
   - Ora essa... Voc mesmo disse: lanar o Feliciano...
   - E voc acredita que ele aceita ser candidato contra Sampaio Pereira? Duvido. Devo lhe dizer que essa histria da cadeira pertencer ao Exrcito no deixa de ser um argumento vlido. Em princpio, eu sou favorvel  candidatura de uma personalidade do Exrcito, voc sabe que a Academia sempre contou e deve continuar a contar com expoentes das vrias classes.
   - Em matria de expoente...
   - Depende do ponto de vista de cada um, no ? - o Presidente no pretende comprometer-se.
   Evandro Nunes dos Santos sorve o resto do cafezinho, deposita a xcara vazia, Afrnio Portela est demorando e no lhe parece fcil desatar o n. Em troca, no receia comprometer-se:
   - No h de ser com meu voto que esse pulha entrar na
Academia. 

CONSPIRAO NA HORA ELEGANTE DO CH

   Vindos de direes diferentes, Afrnio Portela e Lisandro Leite encontraram-se na porta do Petit Trianon. A satisfao reflete-se no rosto gordo do jurista: 
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR

   - A notcia da candidatura do Agnaldo j transpirou na imprensa falada e escrita.

   A voz em jbilo ao enunciar o prenome do onipotente Coronel, prova de invejvel intimidade. No revela a fonte informativa mas o romancista a adivinha sem esforo; igual a ele, Lisandro no perde tempo em servio.

   Dirigem-se juntos ao gabinete do Presidente, o desembargador derreia-se numa poltrona, mestre Afrnio recolhe a ossuda humanidade de Evandro Nunes dos Santos, a tempo de evitar que o contundente ensasta diga umas verdades quele balofo puxa-saco.
   - Vamos tomar ch na Colombo, l estaremos mais  vontade para conspirar, longe do Lisandro e perto de mulheres bonitas para regalo de seus olhos, velho assanhado.
   Assduo freqentador da Colombo, em companhia de Antnio Bruno, Afrnio atribui a Evandro seus hbitos e apetites. Lrico namoro do poeta com lindi costureirinha postada  janela do atelier situado em segundo andar do prdio fronteiro inspirara O Ch das Cinco, conto risonho e tocante, nico retorno do romancista ao terreno da fico, mais de dez anos aps o lanamento de A Mulher no Espelho.

   Na mesa da confeitaria, Evandro, ainda de mau humor, comea por deblaterar contra o Presidente que no fizera segredo de sua posio favorvel  candidatura do Coronel.
   - Favorvel? Apesar do empurro que levou ontem?
   - Empurro? Que histria  essa?
   - Daqui a pouco eu conto. Antes quero saber exatamente o que Hermano disse.
   - Que era favorvel a um candidato do Exrcito. Para restabelecer a tradio.
   - Referiu-se a um candidato do Exrcito ou citou nominalmente o Coronel Sampaio Pereira? O Agnaldo, como diz o Lisandro, babando-se.
   - Falou em geral.
   - A diferena  grande, compadre. - Afrnio e Rosarinho tinham sido padrinhos de batismo de lvaro. - Vou lhe fazer uma
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JORGE AMADO
revelao: eu tambm sou favorvel  candidatura de uma personalidade do Exrcito... - sorri maliciosamente.

   De quando em vez, o amigo e compadre consegue enervar o velho Evandro, sobretudo por ocasio de vaga na Academia. Apoiando quase sempre os mesmos candidatos, comportam-se
de maneira diametralmente oposta durante a campanha. Evandro proclama s escancaras as qualidades de seu preferido, argumentando, discutindo, enquanto Afrnio move-se discreto, age de manso, cabala nos bastidores - consideram-no o mais temvel cabo eleitoral da Ilustre Companhia. Ainda agora, diante da ameaa medonha da candidatura de Agnaldo Goebbels Pereira (o prprio Coronel, em comentado artigo, afirmara aceitar com honra e orgulho a alcunha de Goebbels brasileiro com que os inimigos da Ptria pensavam ridiculariz-lo e ofend-lo), Afrnio no se mostra indignado. Ao contrrio, parece divertir-se, esfrega as mos de to contente. Evandro reclama, impaciente:
   - Explica-me de uma vez o que tens na cabea pois eu no tenho nada, alm de raiva.

   Mestre Afrnio obedece, presta contas, com riqueza de detalhes, de sua intensa atividade. De quando em quando interrompe o relato a fim de saudar conhecidos ou de chamar a ateno do compadre para uma mulher, digna de ver-se, desfilando na rua. No perdera tempo (nem ele nem Lisandro). Na vspera, logo aps a conversa com Evandro, telefonara para uns quantos acadmicos, trocando impresses. Madrugador, sara cedo de casa, visitando pela manh nada menos que quatro colegas, almoara com um quinto, Rodrigo Incio Filho, e o atraso no encontro com Evandro devia-se  ida ao apartamento do pobre Francelino, vtima, ele tambm, de vigoroso trompao.
Nos telefonemas e visitas, recolhera algumas evidncias, tirara concluses:
   - Existe sensvel resistncia ao nome do Sampaio Pereira.
   - Repulsa geral... - tambm Evandro mantivera contatos.
   - No vamos exagerar, compadre, sejamos realistas. Existem restries, algumas profundas, uma atmosfera incmoda, o sujeito malvisto, tem pssima fama. Para ele at Cristo  suspeito. O Rodrigo me contou que a censura proibiu, na Semana Santa, a publicao o
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FARPA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
Revista dos Sbados do Sermo da Montanha. O Diretor da revista, o Gil Costelo, dirigiu-se ao DIP, convencido de que o corte se devia  ilustrao da matria, um desenho modernista do Portinari. Ficou bestificado ao saber que a proibio se referia diretamente ao texto bblico. Um funcionrio, para livrar a cara, revelou o origem da ordem: o gabinete do Sampaio Pereira. O Rodrigo ouviu a histria da boca do prprio Gil.
   - Quem pode votar num tipo dessa espcie?
   -No se iluda. Apesar disso tudo, ser eleito se no agirmos com a cabea. Votaro apertando o nariz, com repugnncia, como me disse o Alcntara, mas votaro. Os trunfos do Lisandro no so blefes nem ele  tolo. Apenas eu soube do acidente com o Francelino, corri para o apartamento do velhinho. A primeira coisa que vi, ao entrar, foi uma enorme cesta de frutas: mas, peras, uvas, e um carto adulador, assinado com o nome do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, s que a letra era
do nosso Lisandro... - sorri novamente: - Ganhar essa parada vai exigir, seu Evandro, uma habilidade demonaca. Demonaca! - repete o adjetivo, agora srio: - Precisamos
encontrar um candidato...
   - Temos o Feliciano, no pode haver melhor. Poeta aplaudido por todos, reconhecido por velhos e moos e uma flor de pessoa.
   
   No basta, compadre. Precisamos de um candidato em que os acadmicos possam votar sem medo. Sem medo de represlias. Um candidato que oferea garantias de segurana contra qualquer tentativa de revanche do Sampaio Pereira, indivduo poderoso e de maus bofes. O que elimina de incio qualquer civil, seja quem for. Temos de sair para a candidatura de um militar, seu Evandro. Um militar de patente superior  do Pereira, ou seja, um General.

   Arraigado civilista, autor de um livro de repercusso continental sobre os males do militarismo na histria dos pases da Amrica Ufana, o velho Evandro reage, rebelde:
   -No me venhas com essa histria de cadeira cativa...
   - No  se trata disso... - J no se diverte .- Trata-se de evitar que um tipo comprometido  com o  nazismo e tudo que o nazismo  significa , com a  tortura  de presos polticos, com a censura que tem
guido escritores e jornalistas, o oposto do Bruno que morreu por 
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JORGE AMADO
no suportar esses horrores, venha a suced-lo, sente-se entre ns, no plenrio da Academia, seja meu colega, seu colega.

   Houve um instante de silncio enquanto Evandro digere as palavras do romancista. Balana a cabea:
   - ... Tens razo.
   - Tenho, sim. Para um candidato civil no garanto mais de quatro ou cinco votos, os nossos, o do Rodrigo, os de... - cita dois nomes: - E olhe l! Enquanto que, com um General, se trabalharmos bem, poderemos ganhar a parada. Precisamos com urgncia de um General, autor de pelo menos um livro, adversrio do nazismo e do Estado Novo, que se disponha a enfrentar o Coronel Sampaio Pereira. De acordo?
   - De acordo. O difcil  encontrar um com todos esses requisitos...
   - Encontraremos, sim. Voc, compadre,  um exagerado. Para voc, vestiu farda, acabou-se. Entre os milicos h muita gente boa e sria, democrata: a maioria. Agora, oua a histria dos empurres...
   - mesmo antes de comear a contar, pe-se a rir. Mestre Afrnio Portela divertia-se  grande, cobrava da vida tudo o que de melhor ela podia lhe oferecer.

O GENERAL  ESPERA DE UM TELEFONEMA

  Impaciente, o General Waldomiro Moreira abandona o jornal, consulta o relgio, levanta-se da espreguiadeira, cruza o pequeno jardim, avana para a porta da sala, constata a indisciplina. Conforme imaginara, Ceclia ocupa o telefone, namorando. Maldito cirurgio-dentista! Como se no bastasse o desgosto.
   - Ai! No diga... - a moa desfeita em riso e dengue.     
   - Ceclia!
   Fenecem riso e dengue,  voz de comando do General. Tapando com a mo o bocal do fone, a insubmissa suplica:
   - S um minuto, Pai.
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   - Desligue. Imediatamente! 
   - Neste instantinho, Pai.

  O prestimoso Sabena ficara de telefonar assim houvesse conversado com o 
doutor Flix Linhares e obtido o indispensvel acordo. Ora, o encontro fora marcado para antes do almoo, na Santa Casa, onde o prolifero autor de romances sobre temas do Velho Testamento cumpre deveres mdicos e atende assuntos relativos  Academia Fluminense de Letras, cuja presidncia ocupa, reeleito pela quinta vez e por unanimidade. Ao caf, o General proibira o uso do aparelho a partir das dez horas da manh. A esposa e a filha demoram horas ao telefone, dona Conceio a bisbilhotar, a se queixar do custo da vida, Ceclia em juras de amor.

   Admirador da atividade literria do General, em especial da campanha em prol da pureza da lngua ptria, Claudionor Sabena, o da Antologia da Literatura Luso-Brasileira, da Coletnea de Escritores Fluminenses e dos livros didticos para o estudo da gramtica (de primeiro, segundo e terceiro anos), realizara profcuo trabalho de aliciamento em meio aos colegas acadmicos, com evidente sucesso. O ambiente revelou-se receptivo e simptico ao nome do General, inclusive porque a fama do outro postulante, Francisco Ladeira, antes de se dever ao discutvel valor dos sonetos parnasianos, devia-se  lngua viperina. Malhando impiedosamente os confrades nas esquinas da subliteratura, ainda assim pretende eleger-se, anda recrutando votos, com a cara mais limpa do mundo. Contudo a palavra final depende do Presidente.

   O prestgio da medicina do doutor Flix Linhares, dono de rica e influente clientela, garante subvenes, favores e verbas que possibilitam ao grmio sob seu comando uma existncia real, mais alm das atas das sesses, ao lhe assegurar sede em prprio estadual, publicao (com atraso porm gratuita) da revista, de opsculos e at de livros de acadmicos pela grfica do governo, como, por exemplo, a Coletnea de Claudionor Sabena. Sem falar nos dois servidores pblicos postos  disposio: um contnuo e uma secretria, vistosa, noiva e muito dada. Pequenas mordomias, tornando desejveis e disputadas as vagas na Academia Fluminense de Letras, imortalidade limitada, circunscrita s fronteiras do Estado do Rio, nem por isso menos cobiada.
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JORGE AMADO

  O nervosismo e a irritao do General resultam da situao ambgua que se criara, da incerteza que se prolonga. Alm de peonhento e de mau poeta, Francisco Ladeira revelava-se um sabidrio. Falava horrores de meio mundo porm jamais abrira a boca para glosar os personagens bblicos (e to merecedores!) do doutor Linhares, atitude que decerto sensibiliza o Presidente. Na dependncia de cabalas e conluios, o General se enerva.

  Tendo liberado o telefone, retorna  espreguiadeira, na sombra do jardim. Nos comeos de 1937, estivera a ponto de candidatar-se; o mesmo devotado Sabena iniciara contatos mas, na ocasio, superiores interesses poltico-militares se impuseram, ocupando por inteiro o tempo e os projetos do General. Entregara-se de corpo e de alma  campanha eleitoral de Armando Sales de Oliveira  Presidncia da Repblica. Com tamanho empenho a ponto de ter seu nome repetidamente citado na imprensa como provvel futuro Ministro da Guerra, no caso de vitria do candidato oposicionista. Dona Conceio, de entusiasmo aguerrido e sonho fcil, gozou durante meses o prestgio decorrente dessa dourada perspectiva. Ah!, bem poucos meses, pois em novembro um golpe de estado implantou a ditadura do Estado Novo, dissolveu o Parlamento e os partidos polticos, liquidou candidaturas e eleies, e o General Waldomiro Moreira de futuro Ministro passou para a reserva remunerada, vestiu o clssico pijama e retornou, em tempo integral, s pacficas e laboriosas atividades no campo das letras.

  Voltou a assinar coluna semanal Em Defesa da Lngua Portuguesa, no Correio do Rio, suspensa durante a campanha armandista. Conclura a redao de mais um volume, o terceiro, das Histrias da Histria do Brasil, contos e relatos de feitos militares, cujo recente lanamento, coincidindo com vaga na Academia Fluminense, levara o amigo Sabena a novamente se movimentar, com francas possibilidades de xito. Se dependesse apenas dos acadmicos... O encontro marcado para aquela manh, entre o cabo eleitoral e o Presidente Linhares, selaria o destino da ambiciosa candidatura: a vitria ou a desistncia.
O sino da igreja anuncia a hora do meio-dia, o fim da manh. Por que Sabena ainda no telefonara? Adiamento da entrevista ou, quem sabe, o precavido Linhares decidira-se a favor de Francisco Ladeira
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para manter-se a salvo de epigramas e dichotes? O General teme por seu corao, 
o cardiologista recomendara-lhe evitar emoes fortes.
    Parece-lhe ouvir o som da campainha do telefone e se contm para no sair correndo. Dona Conceio anuncia da porta da sala:
   - Telefone para voc, Moreira. - Sempre tratara o marido pelo sobrenome, com respeito e devoo: - Disse que  o Acadmico...
   -  o Sabena, eu sei... -j est de p.
   - No , no...
   - No  o Sabena? Ento, quem ?
   - Disse que  o doutor Rodrigo Incio Filho, da Academia Brasileira. Quer que voc marque hora para receber uma comisso de acadmicos...
   O General Waldomiro Moreira hesita, intranqilo. Deve ser um trote, obra do prfido Ladeira, dado a pilhrias de mau gosto.
   - O homem est esperando, Moreira.
   Um trote, com certeza. Cara fechada, o General marcha para o telefone. Ah!, se for um trote, esse crpula do Ladeira que se cuide pois pagar caro. No se zomba impunemente de um General do Exrcito, mesmo estando ele na reserva, marginalizado.

 ESCOLHA COM CONHAQUE NAPOLON

   Quem lembrou o nome do General Waldomiro Moreira foi Rodrigo Incio Filho, posto a par do plano e a ele tendo aderido. E o fez quando mestre Afrnio preparava-se para dar a mo  palmatria e razo ao compadre Evandro: misso difcil, essa de encontrar General com livro publicado que seja declaradamente antinazista, no mantenha compromissos com o Estado Novo e se disponha a enfrentar Sampaio Pereira. Antinazistas, muitos, a maioria; contra a ditadura, vrios, mas nas entrelinhas, no de pblico: com livro publicado, apenas uns poucos e, entre esses, quantos aceitaro candidatar-se, enfrentando a ira e o poder do Coronel? No gabinete do romancista, bebericando conhaque (grande fine champagne Napolon, francs e guerreiro), os dois compadres eliminam candidatos:
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   - Por favor, Afrnio: um livro de matemtica... no d.
   - Esse jamais aceitar concorrer com o Sampaio Pereira...
   - Seria um bom nome se em vez de major fosse General. Convidado a comparecer, Rodrigo Incio Filho, a criatura menos belicosa do mundo, apresenta-se risonho, exibindo a roseta da Legio de Honra na botoeira, a carter para participar da Resistncia. Beija a mo fidalga de dona Rosarinho:
   - Recruta s ordens de seu marido, minha Generala. Tudo isso  absurdo mas agradaria a Bruno.
   - Absurdo, por qu? Absurda  a guerra - contesta Evandro. Dona Rosarinho toma da garrafa, serve ao Acadmico recm chegado e o desafia:
  - Meta a mo no bolso do colete e tire dele um General a contento, Rodrigo. Conhece as exigncias...
   - Obedeo s suas ordens, Rosarinho. Proponho o General Waldomiro Moreira.
   - Waldomiro Moreira... Conheo esse nome... - Mestre Afrnio puxa pela memria: - De onde, meu Deus?

   Rodrigo recebera havia alguns dias um novo livro do General Moreira, autor de boa meia dzia de alentados volumes. O General no era nenhum desconhecido, gozava de certa projeo poltica e militar, sem falar na literria, seu nome andara muito nos jornais durante a campanha de Armando Sales, quando Rodrigo lhe fora apresentado. Haviam estado juntos em duas ou trs ocasies. Num banquete ao candidato, sentaram-se lado a lado e conversaram literatura e poltica, o General no estimava os modernos, criticando-lhes o desconhecimento e o desrespeito s regras do vernculo, mas em troca era um democrata temperado nos campos da luta, motivo por que o Estado Novo o transferira para a reserva. Antinazista, praliados, bastava ler os comentrios de guerra que andara escrevendo no Correio do Rio; desancava Hitler, um louco, um degenerado.
   - To parcial, a ponto de recusar-se a crer nas vitrias nazistas, a negar a evidncia.
   - Resta saber se aceita candidatar-se. 

FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

   Encarregado de buscar informaes mais completas, mestre Afrnio, vinte e 
quatro horas depois, regressa triunfante:
   - No tem dvida:  o nosso homem!

   No mesmo gabinete, degustando o mesmo blico Napolon, expe fatos e qualidades referentes ao General: Revoluo Constitucionalista, campanha do Armando Sales, retirado da ativa pela ditadura. Cinco livros publicados: uma trilogia de contos histricos, um volume de crnicas abordando problemas lingsticos, alm de brochura (esgotada) sobre aspectos da campanha militar de 1932, na frente mineira. Considerado homem de palavra e de coragem, um tanto opinitico e cabeudo. Duro.
   - Para a circunstncia, uma qualidade.
 - Acredita que ele vai topar a briga? - informa-se Evandro.
   - Estou convencido que sim... - Mestre Afrnio fita os companheiros de conjura com aquele olhar de divertida malcia: Duvido que adivinhem qual a sua ambio atual... o que est pretendendo... - um momento de suspense, um gole de conhaque: Nada mais, nada menos do que se candidatar  Academia Fluminense de Letras.
   - Mentira! Ests brincando.
   - Pura verdade. J imaginou quando lhe propusermos a Brasileira? Vai perder a cabea. No mais, o Sampaio Pereira nada pode contra ele, o que lhe podiam fazer de ruim, j fizeram.  o nosso homem. Rodrigo acertou em cheio.
   - E os livros? - Evandro abaixa a voz ao enunciar a pergunta:
   - Os livros, que tal?
   Numa prova de devoo  causa, Rodrigo percorrera o volume recm-editado:
  - E na base do me-ufanismo mas d para ler. Escreve corretamente, a gramtica  um de seus dogmas. O estilo terso, sabem?
   - Terso, hein! Castio?
   Exato. Estaria melhor na Fluminense mas, alm dele, no vejo outro.
   - Nem eu. - Confirmou mestre Afrnio: - Vou dedicar o resto do dia aos livros dele, consegui quatro, o Carlos Ribeiro ficou de
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obter o que est esgotado. Foi o Cadinhos quem me forneceu a maioria das informaes sobre o General.

   Refere-se ao clebre livreiro carioca, o velho mercador de livros, como o prprio se intitulara. Freqentavam sua livraria, na rua So Jos, gregos e troianos, acadmicos e modernistas, literatos de reputao e valor desiguais, provindos de todos os horizontes, escolas, tendncias, grupos e igrejinhas.
Melhor informado do que Carlinhos Ribeiro, impossvel.
   - Alis - mestre Afrnio amplia o sorriso bem-humorado -, comprei cada volume em duplicata, para mim e para voc, compadre. Precisamos conhecer a fundo a obra de nosso candidato para poder elogi-la.
   O velho Evandro no se d por achado:
   - Elogiar, elogiarei, se necessrio. Na guerra vale tudo, no  hora de se estar com escrpulos. Agora, ler... no,  pedir demais. Meufanismo, estilo terso... Conheo o gnero. Quanto menos tenha lido, mais poderei elogiar.

AS BELAS-LETRAS, UM BLSAMO

Desfeita a iluso ministerial, posto na reserva para esperar a compulsria, o General Waldomiro Moreira decidiu voltar-se exclusivamente para o trabalho literrio e a glria dele decorrente, modesta porm reconfortante. Teve contudo uma reincidncia beligerante e deu-se mal.

   A polmica coluna dedicada  defesa dos cnones lingsticos proporcionava-lhe seleta correspondncia e cordiais relaes com outros exaltados cultores do idioma, alarmados com o descaso pelos preceitos mais elementares da gramtica, descaso evidente na literatura moderna, escrita em nag, em cabinda, em quimbundo. Encontrava-se entregue  reviso do terceiro tomo das Histrias da Histria do Brasil quando a guerra estourou na Europa, dando lugar  reincidncia.
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   O General acumulava. Autoridade em questes de linguagem (competente fillogo, na opinio consagradora de Rivadvia Pontes, autor de Verbetes Gramaticais) e autoridade em cincias blicas, aluno laureado pelos professores da Misso Militar Francesa, invencvel nas manobras militares. Assim sendo, no mesmo Correio do Rio onde, aos domingos, ensinava como bem escrever, passou a ditar quotidianamente os rumos da Segunda Grande Guerra Mundial, em breve e afirmativo comentrio, A Guerra, Dia a Dia - Anlise e Previses, assinado com suas iniciais, Gen. W. M.

   No alcanou o estrategista o mesmo xito do gramtico. Entrincheirado na intransponvel Linha Maginot, as panzerdivisionen de Hitler reduziram a p seus slidos conhecimentos. Num total desrespeito s regras estabelecidas da cincia blica, desmentiam todas as tardes as anlises e previses matinais do comentarista. O Gen. W. M. comeara a perder terreno com Gamelin, sucumbiu com Weygand, de derrota em derrota - uma hecatombe. Decepcionado, aproveitou-se dos repetidos cortes da censura aos eptetos com que se vingava do avano do Fhrer e deu por findo o compromisso para alvio do diretor do jornal.

   Recolheu-se de novo s belas-letras que o compensaram da decepo gratificando-o com o bom acolhimento concedido ao volume das Histrias da Histria do Brasil, alvo de crticas favorveis. O fiel Sabena escrevera longo artigo laudatrio e o egrgio Altino Alcntara, da Academia Brasileira, agradecera com uma carta ao prezado confrade o envio de seu novo livro, em cujas pginas, a par da linguagem escorreita, palpita ldimo patriotismo, na resenha de faanhas memorveis. Frase transcrita na seo Livros e Autores, do futuroso Mauro Meira, no Jornal da Manh.

   Mais difcil de superar, afigurava-se o desgosto domstico devido  leviandade de Ceclia que abandonara o marido em Curitiba, um aplicado e correto Capito, para vir se badalar no Rio, praa maior. Homem de palavra e honra, o General sentiu-se indignado (mas no surpreso).

   A vaga na Academia Fluminense e a possibilidade de conquist-la foram um blsamo, cicatrizando feridas. Os ltimos ecos dos deboches em torno dos comentrios de guerra recolhidos aqui e ali (... de se morrer de rir... - e riam s gargalhadas no gabinete do
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Coronel Sampaio Pereira lendo em voz alta A Guerra, Dia a Dia), espinhos incmodos, desvaneceram-se. Quanto aos amores de Ceclia - amores?, o General prefere no usar a palavra justa -, ele os deixou a cargo da me da transviada, dona Conceio do Prado Moreira, robusta senhora com quem se casara, quando, vivo sem filhos aos trinta anos, servindo em Mato Grosso, no pudera suportar a solido.

   Tambm dona Conceio provinha de tradicional famlia de militares. O mandonismo do marido no chegou a afet-la, estava acostumada. Antes de sujeitar-se  sua autoridade, sofrer a do irmo em cujo lar vivia at o abenoado encontro com Moreira. O casamento, alm de retir-la do barrico, a libertara dos maus bofes da peste da Cunhada. Quanto a Ceclia, sara ao pai, obstinada, cabea-dura, insensvel a argumentos e ameaas. Mas, sendo ntegro o General e comedida dona Conceio, de quem a filha herdara a nsia incontida, a desbragada sensualidade, a incontinncia? S Deus sabe.

   Houvesse o General recebido, conforme combinado, telefonema de Sabena com a boa nova do acordo do Presidente, poderia almoar tranqilo, estendendo-se depois na espreguiadeira para a sesta, o corao leve e alegre. Diria ao amigo que viesse no fim da tarde, juntos combinariam detalhes da eleio e da posse. De repente, tudo mudou. Em vez do estadual Claudionor Sabena, autor de antologia e de livros didticos, membro da Academia Fluminense, telefonara o eminente Rodrigo Incio Filho, autor das Memrias Alheias, obra-prima, membro da Academia Brasileira.

   O corao do General acusa o golpe, aquela pontada. Dona Conceio traz a plula e o copo com gua:

   - Por que voc no se deita um pouquinho, Moreira, enquanto o almoo no sai?
Servido impreterivelmente s doze horas e trinta minutos, at o almoo se atrasou naquele dia.
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HIPTESES,POUCAS E ABSURDAS

Uma comisso de membros da Academia Brasileira de Letras! Ao telefone, doutor Rodrigo fora formal: solicitava ao caro General Moreira marcar dia e hora, em data prxima, para receber uma comisso de acadmicos. Isso depois de relembrar o encontro no memorvel banquete, temas de conversa, desfazendo qualquer suspeita de trote, inocentando o malvolo Ladeira. Mas nada adiantara sobre o objetivo da visita e ao General parecera incorreto perguntar. Respondeu estar s ordens, a qualquer dia e hora, e referiu-se  subida honra.

   -Uma comisso da Academia Brasileira! J pensou, Conceio? Que diabo os traz aqui?
   Tendo lhe dado o comprimido, dona Conceio tenta acalm-lo:
   - Por que no   se deita, enquanto tiro o almoo? 

   Deitar-se! Como se fosse possvel. Recusa cama, poltrona, espreguiadeira. O telefonema deve ser produto de um equvoco qualquer. Mas, qual? E, se no for um equvoco? Quem sabe, cogitam de seu nome para o Prmio Machado de Assis, lurea mxima concedida anualmente pela Academia, coroando o conjunto de obras de um escritor. J tem acontecido, em caso de impasse entre dois autores, ambos fortes, decidirem-se por um terceiro, imprevisto. Bem informado sobre os bastidores das letras, o General conhece regulamentos e hbitos da Ilustre Companhia. Sabe que, no caso do Machado de Assis, o escolhido  objeto de discreta consulta anterior, feita atravs de um Acadmico de suas relaes, com a natural reserva. Jamais ouvira falar de uma comisso dirigindo-se  casa de confrade para lhe perguntar se aceita o apetecvel prmio - alta honra acompanhada de polpuda dotao em dinheiro. No sendo o Machado de Assis, que poderia ser? Problema capaz de enlouquecer o mais calmo dos homens. O General tem pela frente mais de vinte e quatro horas de aflio e desassossego, pois o doutor Rodrigo propusera o dia seguinte, s seis da tarde. Vinte e nove horas, para ser estrito na contagem do tempo de agonia.
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O General marcha de um lado para outro da sala, em passo cadenciado - grande, corpulento, rosto avermelhado, cabelo  buscarr. Nem mesmo o pijama esconde a condio militar, visvel em cada trao, em cada gesto, na autoridade que  parte integrante de sua pessoa. Que diabo traria  sua casa uma comisso de membros da Academia Brasileira de Letras?

   Sabe da morte do poeta Antnio Bruno e da vaga por ela aberta mas no se permite imaginar qualquer espcie de conexo entre a anunciada visita e o fnebre acontecimento com sua conseqente e festiva possibilidade. Nunca lhe passou pela cabea to impossvel fantasia. Mas, quisesse ou no, a hiptese se impunha, perturbadora. Ceclia, ao ter notcia do telefonema e da entrevista, irrompe na sala:
   - Vo botar o senhor, Pai, no lugar desse que morreu agora. Ai, o corao do General.
   - No digas tolices.
   - Ento vo chegar com uma lista, pedindo dinheiro para o busto de um deles. Vivem inaugurando bustos.
   - Busto! No sabes o que falas.
   Dona Conceio chama para o almoo, com meia hora de atraso, que dia, Senhor! O General Moreira olha com desgosto a comida de regmen, perdeu o apetite.

   Larga o garfo para atender ao telefone o tardio Sabena que se desculpa pelo atraso e informa sobre o adiamento do encontro com o doutor Linhares. Preso  cabeceira de um enfermo, o Presidente no comparecera  Santa Casa. Mas ficasse tranqilo o caro amigo, da a vinte e quatro horas sua candidatura estaria oficializada com o apoio necessrio. O General esfora-se para esconder o nervosismo, agradece com falsa efuso.

   Na mesa, dona Conceio discute com Ceclia sobre o que servir aos importantes senhores, membros da Academia Brasileira, Imortais de verdade, com direito a fardo e a jeton. No inesquecvel primeiro semestre de 1937, o ilustre General Waldomiro Moreira e sua Excelentssima Esposa receberam convite para a sesso solene de posse do doutor Alcntara, aquele poltico de So Paulo, e compareceram:
  - Um deslumbramento, menina. Parecia uma corte real.
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A Academia Brasileira, essa sim. Pagava a pena perder tempo, gastar os nervos, fazer fora na disputa de uma vaga, mas essa pelo jeito no chega para o bico de Moreira, reduzido a pedinchar apoio para uma academiazinha de meia-tigela, sediada em Niteri, sem fardo, sem jeton, sem retrato nos jornais. Tais pensamentos ocorrem a dona Conceio mas os guarda para si, Moreira hoje est nos azeites e Ceclia  uma cabea-de-vento. Vai ver  ela quem est com a razo: facada, peditrio de dinheiro para erguer um busto ao tal poeta que morreu, um arrasta-saias, segundo lhe disseram. No cemitrio, escandaloso bando de mulheres chorando atrs do caixo. Ainda bem que Ceclia no o conheceu.
   - O que  que vou servir? Cerveja, guaran? Posso encomendar umas empadinhas, umas coxinhas de galinha?
   -  melhor no servir nada. Cerveja, onde se viu?-corta brusco o General.
   - Pelo menos um licorzinho de frutas. Ou ch? No  ch que eles tomam l na Academia?
   - Por que no serve somente um cafezinho, Me?
   O General esteve de acordo com a filha. Com o cafezinho e, a medo e esperanado, com a primeira concluso a que ela chegara:
   - Vo botar o senhor no lugar desse que morreu agora. Vinte e nove horas de espera, com a noite insone pelo meio; se o corao agentar fica provado que o clnico e o cardiologista no passam de meros charlates.

BALE DO CANDIDATO

No dia seguinte, s onze da manh, o General Waldomiro Moreira oficializou sua candidatura  Academia Fluminense de Letras. A carta contendo o pedido de inscrio foi entregue ao dedicado Claudionor Sabena que, aps ter obtido a aprovao do Presidente Linhares, s nove horas, na Santa Casa, partira de bonde para a residncia do General, no Graja, levando a boa nova. Para tanto, enforcara o jornal naquela manh.
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Oito horas depois, s sete da tarde, viu-se candidato  Academia (Brasileira, atendendo a convite de nclita comisso de acadmicos confiou a carta de inscrio ao romancista Afrnio Portela. Nunca imaginara o General t-lo como leitor, quanto mais constatar o ntimo conhecimento de sua obra revelado pelo famoso autor de A Mulher no Espelho, em exaustiva anlise da galeria de figuras exemplares retratadas nos trs tomos das Histrias da Histria do Brasil e dos problemas abordados em profundidade no volume dos Prolegmenos Idiomticos.

   Leitor veterano, tendo acompanhado passo a passo, livro a livro, vossa brilhante trajetria intelectual, conforme afirmou, mestre Afrnio dava a impresso de recm haver terminado a leitura, tal a segurana demonstrada ao citar de memria longos trechos, repetindo, ao p da letra, imagens e dilogos.
   - Que memria extraordinria, Mestre! - Extasiou-se o emocionado Moreira.
   -Tenho lido e relido; no uma, vrias vezes. - Sorriu sem pejo Afrnio Portela.
  
   Evandro Nunes dos Santos desviou os olhos do compadre: guerra  guerra, vale tudo. Passou a ratificar com vigorosos adjetivos os laudatrios conceitos do comparsa: -Admirvel!, - Magistral!, Magnfico! Adjetivos provindos do velho e temido ensasta cresciam em valor, no tinham preo. Tambm os outros trs acadmicos concorreram com sua quota de louvores. Confuso, o General j no encontrava palavras para agradecer. Dava-se conta de como subestimara a prpria obra.

   Em certo momento convocara esposa e filha para que testemunhassem a ilimitada honra com que o cumulava aquela ilustre comisso, representando poderoso grupo de acadmicos. Puderam assim ouvir os elogios aos livros do esposo e pai. Dona Conceio sentiu-se impressionada e Ceclia vibrou.

   Quarenta minutos aps a partida dos dois grandes automveis levando de volta os Imortais, o General, tendo alcanado Sabena pelo telefone, devolveu-lhe a vaga fluminense, requisitando de volta a carta de inscrio e prometendo novidades excitantes. Venha depois do jantar e contarei tudo. O amigo -vai ter uma grande surpresa.
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   - Quer dizer que no  mais candidato  Academia? - Sabena no conseguia entender: aps a trabalheira para conseguir o apoio do Presidente, quando 
tudo estava resolvido...
   - Sou candidato  Academia, sim. O que no sou  candidato  Fluminense...
   - No estou percebendo...
   - Vai entender quando eu lhe explicar. Diga ao Linhares que agradeo o convite mas que ele pode dispor da vaga.

  Convite? - surpreende-se Sabena. Mas, se no houvera convite algum, s ele sabia o esforo gasto para convencer o doutor Linhares. No fosse o respeito que lhe merece o General - patente  patente -, Claudionor Sabena deixaria escapar um palavro ao telefone. No o fez, desligou melanclico: a trabalhosa candidatura abrira-lhe as portas da casa cordial do Graja onde, mariposa de sonho, volita Ceclia, ateando desejos. Vez por outra, Claudionor Sabena comete versos.

BALANO INICIAL DOS EFETIVOS

Havia uma semana, por ocasio do velrio de Bruno, eles eram dois: Afrnio Portela e Evandro Nunes dos Santos. Logo foram trs, com o recrutamento de Rodrigo Incio Filho;  casa do General compareceram cinco, os acima citados e mais Henrique Andrade, bigrafo de Ruy, de Rio Branco e de Nabuco, e R. Figueiredo Jnior, dramaturgo cujas peas, antes disputadas pelas empresas de teatro, haviam desaparecido dos cartazes  proclamao do Estado Novo. Abordavam temas de cunho social e seus heris, gregos ou cearenses, uns e outros apregoavam a liberdade e defendiam os direitos humanos.

   As sondagens realizadas entre os colegas, nos dias que precederam e sucederam a sesso de saudade, levaram Afrnio Portela a contar de incio uns oito votos seguros para o General. Evandro garantia doze, mas sendo o velho ensasta de entusiasmo fcil, seus clculos no mereciam confiana.
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Quanto ao Coronel, feitas e refeitas as contas, Portela concluiu que ele partia com quinze votos mais ou menos garantidos. Podendo, se agisse com rapidez e firmeza, aumentar sensivelmente esse nmero, assegurando a vitria. Mas podia tambm crescer pouco e at perder alguns dos sufrgios tidos como certos, se a iniciativa da rapidez, da firmeza e sobretudo da astcia pertencesse aos adeptos do General Waldomiro Moreira.

   Somando os oito votos iniciais do General com os quinze do Coronel, obtinha-se um total de vinte e trs compromissos. Assim, dos trinta e nove eleitores, sobravam dezesseis a serem ganhos durante a campanha eleitoral. Campanha eleitoral que viria a ser conhecida sob o nome de Batalha do Petit Trianon, quando os fatos se tornaram legenda.

   - Ao fulminante e chicana  vontade! - essa foi a ordem do dia ditada por mestre Afrnio aps o primeiro clculo dos efetivos. Na visita ao General, um detalhe surpreendera o romancista: a disposio com que o candidato aceitara enfrentar o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, como se no desejasse outra coisa. Tinham com certeza contas a ajustar. De natural curioso, mestre Portela pretende tirar a limpo as razes daquele combativo furor. Por ocasio do jantar, quando os vinhos quebrassem o protocolo.

   Com o fim de traarem os planos de batalha e para atender s ordens expressas de dona Rosarinho - quero ver a fachada desse vosso General e a da mulher dele -, o casal Waldomiro Moreira fora convidado a jantar em casa dos Portela, em companhia de Evandro e de Rodrigo Incio. O convite no inclura Ceclia mas ela se incluiu de moto prprio. No ia perder aquela oportunidade de conhecer a civilizada manso da Praia do Flamengo, to citada por Jacinto de Thormes, Gilberto Trompowski e os outros ainda pouco numerosos mas j influentes cronistas sociais.

   Sem falar que esse doutor Rodrigo, o ar de fidalgo espanhol, as tmporas grisalhas, as mos cuidadas e o blazer ingls, povoa, perturba e deleita h dias os sonhos de Ceclia e a faz suspirar. Ah!, os sonhos de Ceclia, se aqui fossem narrados, transformariam esta pequena fbula acadmica em sensacional best-seller. 
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INFORMAES INDISPENSVEIS PARA A BOA COMPREENSO DA HISTRIA E TEIS A ALGUM
EVENTUAL PRETENDENTE  ACADEMIA

Agora, inscritos os dois candidatos, impem-se alguns esclarecimentos sem os quais ser difcil acompanhar a sucesso dos fatos e entender a anedota em todos os detalhes. Estranho s boas regras da narrativa, este parntesis regimental encontra desculpa na razo exposta e pode, quem sabe, vir a ser de utilidade a possvel postulante  Academia, pondo-o a par de normas e hbitos de indispensvel conhecimento.

   Morto e sepultado o Imortal, a cadeira que ele ocupou  declarada vaga na primeira sesso aps seu falecimento - a j referida sesso de saudade. Quatro meses depois se dar a eleio do sucessor.

  Durante os dois primeiros meses dos quatro que separam a sesso fnebre da festiva, as inscries permanecem abertas a quem queira se candidatar: bastava ser brasileiro de sexo masculino (somente trinta e seis anos depois seria permitida a candidatura de mulheres) e ter publicado ao menos um livro. Esgotado esse prazo de dois meses exatos, as inscries se encerram. Nos dois meses restantes, cumpre aos concorrentes cabalar os votos dos acadmicos e a esses cumpre escolher a quem honraro com seus sufrgios.

   Para ser eleito, o candidato necessita alcanar maioria absoluta dos votos (metade mais um) dos acadmicos vivos, num dos quatro escrutnios permitidos na sesso. O voto  secreto; os Imortais presentes depositam as cdulas numa urna onde so incineradas aps a contagem. Os ausentes participam do pleito, enviando seus votos em envelopes fechados, acompanhados de carta justificativa do no comparecimento.

   O Acadmico pode se abster de votar e pode votar em branco. No primeiro caso, no reconhecendo qualidades intelectuais no(s) candidato(s), no deseja contudo hostiliz-lo(s) pessoalmente. J o voto em branco significa discordncia bem mais radical: demonstra repulsa do Acadmico em relao (s) pessoa(s) do(s) candidato(s) a
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quem no considera digno(s) de com ele conviver na Ilustre Companhia. A absteno no compromete a unanimidade, se um candidato obtiver todos os demais votos. O voto em branco a impede.

   Concluda a eleio, os acadmicos comparecem em massa  residncia do novo companheiro, onde encontram farta mesa de comes e bebes, preparada pela famlia do candidato para festejar a esperada vitria. Hbito dos mais louvveis, o servio se estende ao sempre considervel nmero de pessoas - intelectuais, polticos, autoridades, coestaduanos, amigos e admiradores - que acorrem a felicitar o recente Imortal. Brindam-se com champanha, escorre o usque, a recepo prolonga-se pela noite gloriosa.

   Dois ou trs acadmicos, antes de levar seus abraos ao eleito, dirigem-se em triste obrigao (s) casa(s) do(s) derrotado(s) para as explicaes, a solidariedade na hora amarga e a abertura das perspectivas de praxe: da prxima vez... Na opinio de Rodrigo Incio Filho, rbitro em decoro e protocolo, a compostura ordena que, nesses fatais encargos de consolo, os componentes da delegao, em respeito  acabrunhada famlia, no aceitem os doces, os salgados e as bebidas se por acaso encontrarem ainda posta a mesa comemorativa da vitria certa que no houve.

AS ETAPAS DA BATALHA

A batalha do Petit Trianon durou pouco mais de dois meses. O trmino, um tanto inesperado, aconteceu dez dias aps o encerramento do prazo para inscrio de candidatos  vaga aberta na Academia Brasileira com a morte do poeta Antnio Bruno. Apenas dois concorrentes tinham se apresentando - o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira e o General Waldomiro Moreira (por ordem de inscrio). Nenhum civil ousou faz-lo; generalizava-se a opinio segundo a qual a cadeira pertencia de direito e tradio aos militares. Fora ocupada indevidamente pelo poeta Bruno, paisano e bomio, em razo de inexplicvel descuido castrense.

   Os sucessos posteriores, ocorridos do fim da Batalha at a data da eleio, j nada tiveram a ver com a pugna proposta e comandada por 
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mestre Afrnio Portela. No mais guerra e sim, guerrilha, na qual o romancista foi apenas lugar-tenente, tendo assumido o comando supremo das foras de resistncia o velho Evandro Nunes dos Santos, disposto a provar no existirem 
na Academia cadeiras cativas, reservadas a esta ou quela corporao, qualquer que fosse seu carter,

   No decorrer dos dois meses e dez dias da acirrada contenda pela conquista do Petit Trianon, o panorama blico dividiu-se em trs etapas distintas. Durante os primeiros vinte dias, a iniciativa coube s foras reunidas em torno do General Waldomiro. O impacto causado por sua inscrio - grata ou importuna surpresa para a maioria dos Imortais, convencidos de que o Coronel Sampaio Pereira seria candidato nico, sem adversrios - e a ao fulminante desencadeada a seguir, obedecendo  ordem de combate de mestre Afrnio, levaram o General a ocupar algumas posies valiosas, obtendo novas adeses, inclusive de desertores do campo inimigo. O inimigo, seguro da vitria, descurara-se da campanha; to cnscio de uma marcha pacfica at o triunfo final, a ponto do Coronel ter adiado o incio das visitas protocolares aos Senhores Acadmicos para sua volta da viagem de inspeo ao sul do pas, a Santa Catarina onde haviam ocorrido fatos intolerveis e ao intranqilo Rio Grande do Sul. Aproveitou-se Afrnio Portela para o impetuoso ataque.

  Ao avano inicial da candidatura Moreira, sucedeu vigorosa, violenta reao das foras fiis ao Coronel Agnaldo Sampaio Pereira. Refeito do abalo - a prometida candidatura nica levara a breca -, Lisandro Leite convocou macio apoio de aliados externos, dos mais influentes, capazes de mudar o curso da refrega, forando o General a vergonhosa derrota, reduzindo sua votao a inexpressiva meia dzia de sufrgios, tal a presso exercida sobre os vacilantes eleitores.

   Como responder a esse embate de intervenes estranhas, de coao e suborno, armas do enfurecido Lisandro, caractersticas da segunda etapa? No vacilou mestre Portela. Desencadeou o embuste e a chicana {chicana  "vontade!), usando e abusando da farsa e do absurdo.

   No ltimo perodo, nos vinte dias derradeiros da mirabolante Batalha, constatava-se um equilbrio de foras, pelo menos aparente, em meio  confuso reinante. Os mapas militares de um e outro exrcito - os impressos com a relao dos acadmicos, nomes,
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endereos e telefones, rabiscados com sinais cabalsticos - repetiam idnticas conquistas; pelo menos uns dez nomes figuravam nas listas dos dois adversrios: votos certos para o Coronel, segundo Lisandro, para o General, ao ver de Portela. Nessa altura da peleja, em aes de ataque e defesa os dois campos utilizavam sutilezas e ardis, o boato e a insinuao, estratagemas que iam da intimidao  lisonja.

   Quando mais rude e tenso estava o combate, aconteceu o repentino e definitivo trmino da Batalha do Petit Trianon. Mais do que um clamor de triunfo, houve um suspiro de alvio no campo dos vitoriosos.

OS ACONTECIMENTOS DE SANTA CATARINA

Intenso e permanente apoio externo favoreceu a candidatura do Coronel. Pelo menos uma vez, dele se beneficiou tambm o General - a tranqilidade com que pde manobrar nos primeiros dias decorreu dos acontecimentos de Santa Catarina. Apoio casual porm efetivo, pois o Coronel Sampaio Pereira teve de abandonar os assuntos acadmicos para atender a outras frentes sob sua direta responsabilidade, sendo ele, como se sabe, um dos baluartes da ditadura e um dos principais fiadores da aliana (em plena vigncia apesar de informal) entre o Terceiro Reich e o Estado Novo. Sem o saber, o Capito Joaquim Gravata, nordestino destacado para servir em Santa Catarina, participou da Batalha do Petit Trianon, em sua primeira etapa, garantindo a liberdade de movimentos do General e dos patrocinadores de sua candidatura.

  Desde o advento do Estado Novo encontravam-se proibidas em todo o pas manifestaes polticas de qualquer tipo, e colocados fora da lei os partidos, fosse qual fosse sua condio e ideologia. Sobrepondo-se aos demais regmens totalitrios, o Estado Novo dispensava inclusive o clssico partido nico. Oficial educado no amor  Ptria, o Capito Joaquim Gravata era extremamente sensvel a tudo quanto diz respeito  integridade do territrio e  dignidade nacional. Servira na selva amaznica, sentinela vigilante pronta a repelir qualquer tentativa de violao de nossas fronteiras por vizinhos mal-intencionados.
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Patriota provado no extremo norte, em Santa Catarina revelou-se ferrenho cumpridor da lei.

   No inqurito aberto a propsito dos acontecimentos, tentaram confundir esse 
seu respeito  letra da lei com idiossincrasias polticas mas o processo terminou arquivado por falta de provas quando, aps Pearl Harbour e Stalingrad, a Segunda Grande Guerra Mundial tomou novos rumos, abolindo alianas infames e levando o Capito Joaquim Gravata aos campos de luta na Itlia onde conquistou medalhas e dragonas.

   Vindo diretamente do meio dos caboclos ribeirinhos para comandar a Companhia sediada em Blumenau, cidade de colonizao alem, o Capito Gravata pensou ter desembarcado em terras estrangeiras. Menos pela brancura da gente ariana, os cabelos loiros, os olhos azuis, a inconfortvel predominncia do idioma alemo sobre o portugus, mas sobretudo constatar completo desprezo e freqente desobedincia s leis ditadas pelo Governo - mau ou bom, tratava-se do Governo do Brasil, pas independente, situado na Amrica do Sul. 

  At bem pouco anos brasileira e pacfica, durante a guerra Blumenau parecia belicosa colnia germnica. Sergipano, favorvel  miscigenao, exigente no respeito  soberania nacional, o Capito aborreceu-se com o que ali viu e constatou. Realizavam-se constantes manifestaes polticas, pblicas e ruidosas, em clubes, escolas, templos, ruas e praas. Passeatas percorriam a cidade, comemorando vitrias dos exrcitos nazistas, conduzindo bandeiras e emblemas, a sustica e retratos do Fhrer. Desfiles paramilitares, os jovens fardados com uniformes dos SS e dos S, camisas pardas e camisas negras, marchando a passo de ganso, os braos levantados em saudao aos Chefes, os gritos de Heil Hitler! Nos palanques dos jardins e parques, pronunciavam discursos exaltados e agressivos - em dialeto bvaro soavam ainda mais insolentes.

  Ora, as manifestaes polticas, em recinto fechado ou em praa pblica, estavam todas elas proibidas. Tambm o funcionamento dos partidos, sem exceo. Todavia o Partido Nacional-Socialista Alemo, cujos rgos supremos sediavam em Berlim, agia abertamente naquela cidade que, na opinio do Capito Joaquim Gravata e da tropa sob seu comando, devia permanecer brasileira. Disposto a fazer
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respeitar a lei, o oficial procurou o Prefeito para uma ao conjunta. O antigo Prefeito fora substitudo no comeo da guerra e o novo acumulava cargo de chefe da seco local do Partido. Sorriu da ingenuidade do molesto e mestio Capito - os decretos sobre concentraes polticas no se referiam s manifestaes de jbilo com que a comunidade germnica comemorava as vitrias da Wehrmacht e, quanto ao Partido, escapava, por alemo e nazi, das injunes da lei brasileira. Sorriu de novo, dando o assunto por encerrado. O Capito no gostou das explicaes nem do sorriso e agiu.

  Apreendeu bandeiras, cruzes susticas, emblemas diversos, ampla literatura em lngua alem, cartazes com palavras de ordem, inmeros retratos do Fhrer e boa quantidade de armas. Fechou a sede do Partido, guardou a chave. O Prefeito revidou com uma passeata, o Capito a dissolveu, trancafiando no xadrez alguns dos manifestantes mais exaltados.

   O eco desses acontecimentos na imprensa do pas foi quase nenhum. Breves notas em um ou dois jornais mas logo a censura proibiu qualquer referncia ao ocorrido e s suas conseqncias: a precipitada viagem do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, a remoo imediata do Capito Gravata, o inqurito militar instaurado contra ele, a reintegrao da sustica ao som das fanfarras, os braos para o alto, os discursos e os rugidos de Heil Hitler!

   Enquanto o Coronel restabelecia a ordem e restaurava a autoridade em Santa Catarina, prosseguindo em inspeo ao Rio Grande do Sul para prevenir episdios semelhantes, fortalecendo com sua presena a aliana teuto-brasileira, o General apressou as visitas aos Senhores Acadmicos. Declamava estudado discurso: escritor e militar, Oficial-General, historiador e fillogo, ao concorrer a uma cadeira tradicionalmente ocupada por figuras do Exrcito, vinha solicitar o apoio do ilustre Imortal, consubstanciado no voto.

   Para alguns acadmicos tratava-se de gratificante candidatura: se ela no existisse, no teriam outro jeito seno votar no execrvel nazista. Para outros, incmoda: se ela no existisse, o Coronel seria candidato nico e, no havendo opo, eles poderiam votar tranqilamente no prestigioso lder, sem receio de crticas e censuras, de insinuaes malignas.
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No desejo de evitar que se diga haver o Capito Joaquim Gravata entrado na disputa dessa curiosa eleio acadmica sem ter com ela a mais mnima ligao, vale a pena revelar que o nome do poeta Antnio Bruno no lhe era desconhecido. Lera emocionado, em amarfanhada cpia a mo, o Canto de Amor para uma Cidade Ocupada e nele encontrara alento e apelo  luta. Ao chegar a Blumenau, cidade tambm ocupada, decidiu libert-la.

VINHO DO PORTO E BISCOITOS INGLESES

Dado o sigilo a cercar o deslocamento do Coronel Sampaio Pereira, que deixara o Rio de Janeiro com destino ignorado, em misso de segurana nacional, o Desembargador Lisandro Leite no pde sequer preparar-lhe o esprito. Em vo buscou saber onde encontrlo, como se comunicar com ele. Antes da brusca partida, o Coronel lhe telefonara:
   - Devo ausentar-me por uns dias, assunto urgente. A visita ao Embaixador ter de ser adiada para minha volta.
   - V descansado, explicarei pessoalmente ao Francelino. Quando o caro Agnaldo regressar, organizaremos um calendrio para as visitas. Candidato nico goza dessas vantagens: no precisa correr... - no se dando por satisfeito, acrescentou: - Aqui ficarei eu, de sentinela... - palavras impensadas.

   Tendo entregue na Secretaria a carta de inscrio do Coronel em seguida  sesso de saudade, confiara no temor geral reinante no pas: ningum ousaria apresentar-se, afrontando o Governo, desafiando os donos do poder. Nos primeiros dias, ao sair do Tribunal, dava um salto no Petit Trianon, trocava gentilezas com o Presidente, constatando no haver novidade a assinalar. Depois, tranqilizado, considerou dispensvel tamanha vigilncia, espaou as idas  Academia, reservando o tempo para conversas telefnicas com os colegas de imortalidade, prometendo-lhes uma era de benesses oficiais para a Ilustre Companhia em conseqncia da eleio do Coronel Sampaio Pereira.
Cumprindo o combinado, ao fim daquela tarde, aps a partida do carssimo Agnaldo, o Desembargador rumou para o apartamento em 
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que residia o Embaixador Francelino Almeida, servido por uma velha criada que se ocupava de todo o servio e a quem ele dava o ttulo de Governanta. Ia levar as explicaes do Coronel e marcar nova data para a visita de cortesia, quando o candidato pessoalmente comunica ao Acadmico sua pretenso e solicita apoio. Decano da Academia, nico dos fundadores ainda vivo, Francelino habitualmente era o primeiro a ser homenageado com a visita dos pretendentes, em prova de respeito e estima.

  Na sala onde a Governanta o deixara esperando, Lisandro bateu os olhos em magnfica cesta contendo frutas estrangeiras, latas de biscoitos ingleses, chocolates suos, portos e quinados portugueses. Ao lado, na mesa, a etiqueta da mercearia Ramos Sc Ramos, a mais conceituada e cara da cidade, e um carto, retirado do envelope: Ao ilustre Embaixador Francelino Almeida, expoente das letras e da diplomacia, homenagem de profunda admirao do General Waldomiro Moreira. O jurista conhecia de nome o General e de vista aquela letra, inimitveis rabiscos traados pelo maquiavlico Afrnio Portela. Sentiu um choque. Qual o significado de cesta to opulenta, presente rgio? Tambm ele enviara uma, menos vistosa, de etiqueta mais barata, ao mesmo Francelino, assinando no carto o nome do Coronel. Diablico Portela, alm de tudo plagirio!

   Francelino Almeida, lisonjeador, prestativo, agradvel comensal, alcanara altos postos na carreira diplomtica: Embaixador na Blgica, na Sucia, no Japo, Secretrio Geral do Itamaraty e para tanto a Academia lhe fora de grande utilidade. Jovem de vinte e oito anos, de reduzida bagagem literria - magro livro de contos e laudatrio opsculo sobre a obra de Machado de Assis -, seu nome figura entre os dos quarenta fundadores da Ilustre Companhia. O que, na poca, no causou surpresa ou mal-estar, pois a bisonha Academia era pobre, desconhecida, no tinha sede prpria e no pagava jeton. Trinta anos depois, Francelino ampliou sua escassa bibliografia com um volume de impresses sobre o Japo: O Pas do Sol Nascente (paisagens e costumes). Solteiro, deixara fama de tenaz admirador do belo sexo nos pases onde serviu.

   Sir Anthony Locke, Embaixador de Sua Majestade Britnica junto ao Mikado, no escandaloso livro de memrias que publicou aps retirar-se do servio ativo, cita repetidas vezes Mister Almeida,
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incomparvel companheiro na descoberta da vida noturna e dos ritos erticos do Oriente. Durante todo um lustro abrilhantaram o corpo diplomtico credenciado no Japo, adquirindo notvel popularidade em locais equvocos e alegres - at  transferncia deMister-Almeida, the Geishas'King, to lastimada pelo lorde ingls. No livro de Francelino Almeida sobre os costumes nipnicos no existem referncias nem a Sir Anthony Locke nem  vida noturna, apesar de que a idade no o tornara insensvel aos encantos femininos. Muito pelo contrrio.

   Informado da presena do colega, veio encontr-lo na sala, onde o precedera a Governanta trazendo bandeja com dois clices, uma garrafa de porto e pequena travessa com biscoitos. O Decano ouviu e acatou as escusas dadas em nome do Coronel.

   - Quando ele quiser, marcaremos outra data. No pode ser amanh, j reservei a tarde para a visita do General Moreira. Vou lhe dizer uma coisa, seu Lisandro: o melhor da Academia so as eleies. Os candidatos mostram-se to gentis, to... aduladores. Se no fossem as eleies, quem haveria de ligar para um velho como eu, Embaixador aposentado, cobrando do Itamaraty uma misria por ms, em moeda fraca? Ningum, meu caro. Mas basta haver vaga e "veja: em menos de dez dias recebi duas cestas de frutas, vinhos e  guloseimas, tudo importado, tudo da melhor qualidade. - Embebeu o biscoito ingls no vinho do Porto, amolecendo-o.
   - Quer dizer que o General Waldomiro Moreira tambm  candidato?
   - No sabia? Acaba de se inscrever. Candidato forte, meu amigo.

   Nada disse sobre a formosa secretria do General que viera, em seguida  cesta, combinar dia e hora para a visita protocolar do novo pretendente  vaga do Bruno. Simptica e descontrada, demorara-se em alegre palestra e no correr da conversa deixara perceber seu desinteresse pelos jovens, estabanados e descorteses. Corts, como bem poucos, o diplomata Francelino Almeida. Lisandro despediu-se, ficando de telefonar assim regressasse o Coronel, partiu a todo vapor para a Academia. Candidatura nica, era umavez.
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A SEDUTORA

   - O que eu no faria por ele?
Rosa de cobre, rosa de mel, rosa menina, relembrou mestre Portela, sorrindo com ternura na mesa discreta da leiteria. A moa enrubesceu, cabelos longos e lisos de ndia, carnudos lbios de negra, olhos verdes de branca:
   - Continuou a me enviar rosas, mesmo depois de tudo terminado. No haver outro igual a ele.
   Afrnio Portela lhe explicou a situao, a necessidade de preservar a memria de Bruno, a importncia do voto do Decano, fundador da Academia, nico sobrevivente dos quarenta primeiros. Durante toda a vida, Francelino Almeida procurara agradar apenas aos poderosos e s mulheres. Poderoso, poderosssimo, o Coronel Sampaio Pereira.
   - Seduzir um ancio? - espantou-se Rosa. -E com essa idade ele ainda tem olhos para mulher? 
   - Olhos, com certeza. Sou testemunha.

   Na porta da Academia, uns quantos meses atrs, ele e Bruno haviam acompanhado o olhar cobioso do trmulo Francelino acendendo-se na perna morena de uma jovem. O poeta defendera o Decano do comentrio irnico de Portela, confessando que, ele, Bruno, quando nada mais lhe restasse devido  senectude, velho caqutico, pretendia ficar sentado ao sol num banco de jardim, olhando as mulheres, contente da vida. Em silncio, mestre Afrnio e Rosa, ambos mergulhados em suas lembranas, ele a recordar o amigo, ela a recordar o amante.

   Rosa terminou de beber o copo de leite. Sendo quase menina, aos dezoito anos, seduzira um homem maduro, trinta anos mais velho do que ela, por quem se apaixonara, vendo-o da janela do atelier enquanto costurava para senhoras ricas, da sociedade.
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A COSTUREIRINHA 

Rosa lera O Ch das Cinco, o emotivo e divertido conto escrito por Afrnio Portela, inspirado no seu romance coM Bruno. A histria parecera-lhe bonita, romntica e inteiramente falsa. Baseada em fatos  verdicos - o pedido de casamento, por exemplo -, relatava no  entanto o oposto do que sucedera. Na narrativa do romancista, o conflito ocorria entre dissoluto don Juan e ingnua e desvairada donzela, joguete nas mos do sedutor. O contrrio, o oposto, o vice-versa da realidade. Mas quem acreditaria na verdade nua e crua mesmo se Rosa a revelasse? Apesar de sua fama de conhecedor da alma feminina, nem sequer Afrnio Portela poderia admitir que uma simples costureirinha adolescente agisse como ela agira. A prpria Rosa no sabe por que o fez e no busca explicar. Loucura no foi, muito menos luxria. Apenas amor, sol do meio-dia e plenilnio.       ^

   Um espanto, um alumbramento, temporal desabando repentino e voraz, encharcando a terra, rasgando o cu com a luz dos raios. Audcia sem limites, despudor de vagabunda, quem a imaginaria capaz de tanto, temerria e intemerata?

  Na rua suburbana, Rosa atravessava sria e indiferente entre os galanteies, as propostas, a splica e a petulncia dos rapazes. Zeco, center-half do Madureira Atltico Clube, com convite para treinar no Botafogo, desistiu de perder tempo, plantado em frente ao beco. Soberba, metida a besta, opinava a vizinhana ao v-la grave, absorta, o pensamento longe, posto no senhor sentado  mesa da Colombo. Mais lindo do que qualquer gal de cinema, sem comparao. Ainda no o sabia poeta nem famoso. Primeiro amou apenas o homem, depois teve a revelao da poesia, Deus era bom demais.

   De tanto eu olhar para ele, terminar por levantar a vista e me descobrir aqui junto  janela, agulha vai, agulha vem. Acontecera: o poeta ergueu os olhos at as sacadas do segundo andar e reparou na moa que o fitava sorridente. Demorou-se um instante, observando, tentando adivinh-la na distncia. Na mo, o clice de cassis, lentamente o depositou na mesa. 
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   Depois voltou-se para atender  conversa do amigo. A mulher, no balco, devia ser jovem e bem-parecida.

  No vinha todos os dias e no tinha dia certo para vir. Ao p da janela, Rosa  espera, incontida, desatenta ao trabalho, espetando a agulha no dedo. 
Uma tarde, o displicente, ao levantar-se para partir, dirigiu uma ltima mirada ao atelier, quem sabe, casual. Rosa acenou adeus e ele, sorrindo, respondeu. No dia seguinte, Rosa atirou-lhe um beijo com a ponta dos dedos, em crescente atrevimento. Discreta, quase no usava pintura e enfeites; acabara de completar dezoito anos e jamais tivera namorado a srio. O fogo a consumi-la fora ele quem o ateara, virando-a pelo avesso. De longe, igual a um raio que tomba sobre a mata e a incendeia.

   De uma feita, levou toda a semana sem aparecer. Logo quando ela, tendo cobrado uns extraordinrios por costuras levadas para terminar em casa, comprara o livro. Madame Picq, a modista, ao descobrir o objeto dos olhares da ajudante, revelara a identidade de Bruno:- Un pote clebre, ma petite, toutes les femmes veulents e coucher avec lui. Rosa viu o volume na vitrina da livraria prxima, reedio de O Danarino e a Flor, soube do preo, trabalhou dobVado. Na escola pblica no se destacara dos colegas. Agora, sem fazer esforo, guarda na memria poemas inteiros, repete estrofes e traduz a frase de Madame Picq, todas as mulheres querem dormir com ele. Ai!, Rosa no pensa noutra coisa e ao ler os versos descobriu que o lindo cavalheiro  inconseqente trovador, irremedivel bomio, divino amante. Para merec-lo, rompeu os elos que a prendiam nos limites da rotina e a conformada garota suburbana transformou-se em vampe agressiva e oferecida.

 Quando Bruno reapareceu e elevou o olhar para o balco distante, Rosa fez-lhe um sinal e despencou pelas escadas, empunhando o livro. A corrida a colocou arfante, face a face com o poeta mais que surpreso, boquiaberto: no a imaginara to formosa. Sentia-se gratificado cada vez que falava com leitor provindo das camadas populares. Orgulhoso com o fato de sua poesia ser conhecida e amada no somente por uma elite esnobe mas tambm pela gente simples, como aquela encantadora costureira. Angelical.

    Estava sozinho  mesa, o amigo ainda no chegara. Convidou-a a sentar-se, a tomar alguma coisa, ch ou licor, ele bebericava o
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indefectvel cassis, hbito adquirido nos bistrs de Saint-Germain-des-Prs. A moa recusou, os olhos postos nele. Me chamo Rosa Meireles da Encarnao mas bote somente Rosa. Bruno tomou da caneta, comeou a escrever com aquela letra quase desenhada.
   - Para Rosa... - suspendeu a escrita, perguntou-lhe a brincar:
   - Com qu?
   - Com um beijo.
   Bruno sorriu, divertido. Rosa acompanhava a mo bem tratada sobre a pgina branca, traando aquelas linhas perfeitas. Tudo nele era perfeito. A voz quente, cariciosa:
   - Por que no quer se sentar? 
   - Aqui no... - viu-se dizendo.
   - Onde ento? - perguntou entre espantado e trocista.
   - Onde quiser.
   - E quando pode ser? - ainda a caoar porm intrigado.
   - Hoje mesmo, se quiser. Saio s seis do atelier.

   Mocinha, o vestido feito em casa, simples mas gracioso, modelo que ela mesma inventara. Podia ser sua filha e era provadamente pobre. O poeta a encontrava a seu gosto, no se achando, porm, no direito de tirar partido da situao, abusando dos sentimentos da menina a quem seus versos haviam comovido. Se tivesse mais idade ou se fosse uma daquelas debutantes da alta sociedade, ele no hesitaria. Mas no passava de uma criana sem juzo,  sua merc, auxiliar de modista obrigada a ganhar o po de cada dia. Esplendor de sangues misturados, uma pena; as condies faziam-na intocvel. Sobravam mulheres igualmente belas nos sales, ricas e ociosas. Desculpou-se: 
   - Hoje no posso, meu bem, tenho compromisso para jantar
   -Amanh, ento. Na hora que quiser. Saio s seis mas posso faltar. Amanh, no ? - Os olhos verdes, fulgurantes, a boca semi-aberta, a negra e lisa cabeleira, toda ela exigindo local e hora. 
  Bruno j no se divertia. Jamais vira, pelo mundo afora onde vivera e amara, desassombro igual, mulher to disposta. Rendeu-se. Por que no, se ela se oferecia? Sempre teria tempo de recuar.
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   - Amanh, est bem. Quando sares, s seis, estarei esperando na porta da livraria.
   Entregou-lhe o volume autografado, Rosa quis mais:
   - Posso retribuir o beijo? - Os lbios carnudos queimaram a face rabe do poeta, havia um parentesco entre eles dois. De frica e Oriente.

   Recordando a cena, Rosa se interroga: qual a imagem verdadeira? A atrevida vampe que nascera da paixo ou a antiga moa, retrada e sria? Engraado: Afrnio Portela recriara no conto a Rosa de antes, cndida, recatada, simples menina da Estao de Madureira.

   Quem primeiro pronunciou a palavra amor foi ela. Teve de seduzi-lo pois o conquistador de aventuras sem conta, o libertino don Juan, imaginando-a adolescente enamorada e ingnua, no enleio da poesia, ficou perplexo, no sabendo como agir para no desiludi-la nem mago-la sem contudo lhe causar mal irremedivel, truncando-lhe o destino, fazendo-a infeliz. Levou-a a passear, a comer iguarias em discretos restaurantes, mostrou-lhe os recantos mais encantadores da cidade, ofereceu-lhe livros, seus e de outros poetas, trazia-lhe rosas, segredou-lhe versos sob as rvores do Jardim Botnico um domingo pequeno-burgus de carto-postal, beijou-lhe os dedos marcados pela agulha, a face morena e os olhos verdes e confidenciou a mestre Afrnio estar vivendo um romance burlesco e sensacional, diferente de todos os anteriores, amor platnico, feito de poesia e pudiccia. Mas Rosa era um incndio ateado e se bem amasse cada palavra, cada gesto, cada leve carcia de Bruno, o toque dos dedos nos cabelos, o roar dos lbios na nuca, no se contentava com to pouco. Ofereceu-lhe a boca e o poeta redescobriu o beijo. Talvez porque antes lhe coubesse a iniciativa, enquanto agora fora ela quem o beijara. Rosa decidira ser sua mulher, no apenas namorada.

  No podendo mais suportar as limitaes que ele impunha, gentil e cauteloso, Rosa pediu-lhe que a levasse a conhecer a casa de Santa Alexandrina, fotografada numa reportagem recente da Revista dos Sbados: as paredes cobertas de quadros, os objetos exticos trazidos das viagens, o anjo pendurado das vigas do teto, as trepadeiras subindo pela fachada, o jardim de roseiras e o poeta sentado, indolente, num degrau rstico,  entrada.
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  - No tens medo?
  - S vontade.

   De mos dadas cruzaram o jardim, ele inventou versos, os caracis e os lagartos te sadam, quis sent-la na sala para lhe explicar um quadro surrealista, mas ela viera decidida e encaminhou-se para o quarto; haveria tempo para a pintura.

   Com certeza - pensou ele quando Rosa o tomou pela mo e rolaram juntos sobre o leito - ai!, com certeza j dormiu com outros e eu no passo de um velho boc a imaginar virgindades e virtudes. Enganou-se mais uma vez: Rosa era virgem e possua, entre muitas virtudes, a da valentia e da inteireza.

   Deslumbrado fauno, o poeta desceu ao jardim que cercava e escondia a casa e colheu todas as rosas, uma braada. Esttua de cobre, estendida nua na brancura recm-maculada do lenol, Rosa parecia rezar, agradecendo a Deus. Antnio Bruno desfolhou as rosas, uma a uma, sobre o corpo apenas pressentido.

    Talvez Bruno no tivesse conseguido jamais compreend-la, aceit-la inteiramente. O amor que Rosa lhe dava e ele retribua, feito de avidez e de suavidade-no existe criatura mais suave, disse mestre Afrnio ao conhec-la-, despido de qualquer interesse mesquinho, deixava-o com molesto sentimento de culpa. O fato de Rosa nada lhe pedir no modificava a realidade: ela continuava sendo uma pobre costureirinha, ingnua adolescente, destinada, antes de encontr-lo, ao matrimnio, aos filhos, ao lar, a uma vida tranqila e honesta. Ao faz-la sua amante, mudando-lhe o destino, ele se tornara culpado pelo futuro incerto que a esperava, desonrada.

   No dia em que, passados vrios meses, olhou com interesse para outra e a desejou, sentiu-se na obrigao de propor casamento a Rosa para no deix-la desamparada, perdida. Rosa recusou. Claro como gua, sem maldade nem subterfgios, Bruno nada podia lhe ocultar. Rosa soube, sem fazer qualquer pergunta, os motivos da oferta e disse no. Fui tua mulher, me basta. No nasceste para ter esposa, serias mau marido. Antes que aquele quase imperceptvel laivo de fastio crescesse em indiferena e o tempo da mentira comeasse, ela partiu. Saiu da vida de Bruno como entrara, sem explicao.
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Nem candidato nico nem eleio unnime. Inquieto, Lisandro Leite coca a cabea, enfia os dedos na juba de leo: como reagir o Coronel ao encontrar desfeitas duas das mais gratas perspectivas abertas ainda recentemente pelo entusistico cabo eleitoral? No desejo de ser o principal, seno o nico beneficirio da vitria do influente mandachuva, o Desembargador no aceitou dividir responsabilidades, ocupando-se de tudo quanto se refere  campanha de Sampaio Pereira. Em troca, deve arcar sozinho com as conseqncias do insucesso das otimistas previses iniciais. Maldito Portela! Enquanto Lisandro neutralizava o Reitor Raul Lameira, convencendo-o a esperar a prxima vaga - iminente: o Prsio j no sai de casa, os mdicos desistiram de oper-lo; do pulmo a molstia se alastrara em incontrolvel metstase -, o infernal Portela desencavara um General com vrios livros e uma disposio de atleta. Corre de Imortal a Imortal, disposto a liquidar as visitas no mais breve prazo.

    Rbula terrvel, o jurista merece a fama conquistada. Busca e encontra argumento capaz de provar que a existncia de outro candidato possui um lado extremamente positivo. Expe sua tese ao Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, de retorno da viagem ao Sul onde esmagara vis inimigos da Ptria, ou seja, da ditadura e do Fhrer.

   O combate se trava em todos os setores. Tambm na Ilustre Companhia eles se infiltram, os traioeiros inimigos. Levantaram a candidatura do General Waldomiro Moreira para dar uma opo aos acadmicos, imaginando com isso reduzir a votao macia do caro amigo. Rematada tolice pois no conseguem nem de leve abalar a slida posio do Coronel, ameaar-lhe a eleio. Ao contrrio, o tiro
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lhes sai pela culatra; alm de no atingirem o objetivo visado, com a inscrio do novo pretendente, os recalcitrantes da marca de Afrnio Portela, Evandro Nunes dos Santos e R. Figueiredo Jnior ficam impedidos de votar em branco. Sufragando o nome de um dos concorrentes, o Imortal manifesta simples preferncia, enquanto o voto em branco demonstra repulsa, insultuosa rejeio. O perigo do desmoralizante voto em branco desapareceu.
   - Vindo do inimigo, no desmoraliza, engrandece - discorda o Coronel a quem 
as notcias no agradaram e a explicao no convenceu.
   -  claro que, se o caro amigo tiver maneira de pressionar o General, colega de armas, levando-o a retirar-se do pleito, ele, Lisandro, tratar de conquistar a adeso de alguns daqueles tipos francfilos e de obter dos mais intolerantes que, em lugar de votarem em branco, se abstenham.
   - Pressionar o Moreira? No adianta. No me tolera, acha que concorri para que fosse chutado para a reserva e no deixa de ter razo. Mas, h mesmo quem vote nesse infeliz? Um paspalho, alijado do comentrio militar do Correio do Rio por incapacidade. Liberalide insignificante. S tem empfia. )
   - Sem dvida. No vai passar dos sete ou oito votos. No chegar a dez.
   - Tantos? - O Coronel franziu o cenho.
   - Podemos ganhar dois ou trs, j estou trabalhando nesse sentido.
   -  preciso. Oito votos em Moreira Linha Maginot? Inaceitvel. Conto com sua eficincia, Desembargador.
   Afetado pela decepo, no o tratara por Lisandro. O jurista sente a reserva revelada na substituio do prenome pelo ttulo mas no se abate, h de reconquistar a confiana e a intimidade:
   - Deixe comigo, no pouparei esforos, tenho experincia e sei o que dizer a cada um. Agora, se estiver de acordo, trataremos de estabelecer o calendrio das primeiras visitas. A verdade  que sua Vlagem nos fez perder um tempo precioso, necessitamos recuper-lo, caro Agnaldo.
   - Tem razo, vamos a isso, amigo Lisandro. 
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JORGE AMADO 
   Respira o Desembargador, abre a pasta e dela retira duas listas impressas com a relao dos acadmicos, entrega uma ao ex-candidato nico:
   - Ao ataque, meu Coronel

ORDEM DE SERVIO

Estomagado com a notcia da candidatura do General Waldomiro Moreira, cresceu a irritao do Coronel Sampaio Pereira no correr das cinco primeiras visitas aos acadmicos. Para quem iniciara a campanha sem opositor e com promessa de eleio unnime, o panorama da batalha se revelou flutuante e nebuloso. No teme uma derrota, a vitria parece assegurada, mas no vai ser aquela festiva passeata, sob os aplausos fericos dos Imortais. O rancoroso Linha Maginot, ao que tudo indica, ultrapassar os dez votos. Se no atingir doze ou quinze. Precisa discutir a srio com Lisandro, traar novo plano de ao, lanar uma ofensiva que realmente esmague as pretenses do inimigo. Ao que soube, Moreira, fanfarro e petulante, anda arrotando vitria.

  Dos cinco acadmicos visitados, dois lhe hipotecaram irrestrita solidariedade,  qual um deles acrescentou informaes objetivas e valiosas.

   Deixando, a conselho de Lisandro, os impetuosos rapazes da segurana (escolhidos a dedo entre os efetivos da Polcia Especial) nos automveis estacionados na rua, o Coronel, fardado para acentuar o carter militar de sua candidatura, aps os cumprimentos e as gentilezas de rotina, declamava seu speech, a exemplo do General Moreira. Havia pontos em comum nos dois arrazoados (e sensveis diferenas na forma, influenciado um por Afrnio Portela, o outro por Lisandro Leite). Declinavam idntica condio literria e blica, ambos escritores e Oficiais Superiores concorrendo a uma cadeira tradicionalmente ocupada por expoentes do Exrcito. Sampaio Pereira acrescentava que se inscrevera devido a uma imposio de companheiros de farda, chefiados pelo Ministro da Guerra,  qual ele, Oficial da ativa, em posto de comando, obedecia. Revelava por fim detalhe secundrio mas de valor para quem espera fazer o elogio de um poeta lrico no 
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discurso de recepo. Ensasta poltico, cuja obra vultosa - doze volumes - o credenciava a disputar a vaga aberta com a morte de Antnio Bruno, fundamentalmente prosador, era tambm poeta. Autor de um livro de versos romnticos, considerava-se idneo epgono do saudoso antecessor.

    Um dos dois acadmicos a lhe assegurar o voto revelou-se admirador caloroso e hbil fuxiqueiro. Agradeceu a remessa dos doze volumes (enviados aps a inscrio a todos os Imortais com caprichadas dedicatrias), a maioria dos quais j possua, fiel leitor e simpatizante das idias do conspcuo pensador. Insinuou em seguida no lhe parecer das mais convenientes a maneira como estava sendo conduzida a campanha do Coronel. O amigo Lisandro, prestativo e operoso, merecedor de todos os elogios, todavia cometera alguns erros graves! -, descurando aspectos importantes. Preocupado com Raul Lameira que nem mesmo pensara em candidatar-se, em lugar de cobrir a rea militar, a nica perigosa. Quem manda atualmente em nosso pas, responda-me? Os militares, graas a Deus, que nos esto salvando da anarquia, impondo  nao ordem e decncia. Por isso, apenas outro candidato militar poderia fazer mossa ao nobre Coronel. Ganhar, no, o General no ganharia mas ia tirar votos, vrios votos, que seriam dele, Sampaio Pereira, se Lisandro no quisesse aambarcar a campanha, no dando vez aos demais admiradores do preclaro amigo, tambm interessados em trabalhar a favor de uma vitria retumbante. O Coronel ouviu atento, estima os intrigantes e os delatores, neles se apoia na luta diria contra a subverso.
   - Minha candidatura  de todos os meus amigos, no apenas do Desembargador, a quem sou grato pelo muito que tem feito mas de cuja habilidade, confesso-lhe, comeo a duvidar. Que me aconselha o caro amigo?
   - Uns cartes do Ministro dirigidos aos acadmicos. Para os conhecidos dele, um telefonema. Quem pode resistir a um pedido do Ministro da Guerra?
   
   Dois lhe garantiram o voto, dois o negaram pela mesma razo e quase com as mesmas palavras: lastimavam mas o Coronel chegara atrasado, j haviam assumido compromisso com outro eminente militar, tambm ele escritor, o General do Exrcito Waldomiro Moreira. Nas duas vezes, Pereira Sampaio sentiu-se como se houvesse
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JORGE AMADO
recebido uma bofetada. Retirou-se dessas visitas visivelmente irritado, tendo de se controlar para no demonstrar frieza ou desagrado ao despedir-se. No escondeu de Lisandro Leite sua insatisfao: os nomes daqueles dois acadmicos no figuravam na relao dos oito que, segundo o jurista, seriam os nicos votantes provveis do insolente Linha Maginot.

   Em ordem de servio menos cordial e afetuosa do que desejaria o Desembargador, o Coronel lhe ordenou lanar ao combate os aliados externos. Movimentar o Ministro, o Chefe do Estado-Maior, diversas autoridades, fazer promessas e, se necessrio, insinuar represlias.

O DIPLOMATA
 
Dois votos a favor, dois contra e um sugerido mas no afirmado: o do Embaixador Francelino Almeida, o primeiro Acadmico a ser visitado, em obedincia  praxe.
O velho diplomata recebera o Coronel com extrema cortesia, biscoitos e xerez. Agradecera a cesta de frutas (ainda bem que Lisandro dera conhecimento ao candidato da iniciativa tomada quando os nervosos agentes da sua guarda de segurana atropelaram o frgil Imortal), tecera-lhe os maiores elogios mas no lhe garantira o voto. Tampouco o negara,  bem verdade, no falou em compromisso anterior. Ficara numa conversa mole, meio l, meio c, obrigando Sampaio Pereira a forar a barra e colocar a questo:
   - Espero merecer a honra do seu voto.
   - Merece muito mais do que isso. Fique descansado que o senhor est a, est eleito. Nem precisa de meu voto. - Colocava o cigarro turco na longa piteira de marfim, tais refinamentos desagradavam ao Coronel.
   Linguagem dbia, tpica do Itamaraty, quem pode entend-la? Acostumado a dar nome aos bois, o Coronel sentiu-se perdido diante daquele homenzinho franzino e saltitante que o envolvia num palavreado confuso. J tendo sido visitado por Moreira, Francelino nem
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uma vez se referiu ao General, nem sequer lhe citou o nome. Que significaria esse silncio? O diabo o sabe. Dilogo difcil, interlocutor escorregadio, fugindo do assunto para elogiar o xerez e os biscoitos, exibir a piteira. Bem mais fceis e estimulantes so os dilogos com os subversivos nos interrogatrios, quando aos subterfgios o Coronel pode opor oportunos argumentos. Francelino, gentilssimo, o conduz at  porta:

    - Pode ir redigindo o discurso de posse. Tem os livros de Bruno? Um senhor poeta. Doido por mulher! - estalou a lngua.

   Pelo jeito parecia disposto a sufragar-lhe o nome, mas por que no dissera meu voto  seu Lisandro tratou de acalmar o melindrado Coronel e se responsabilizou pela lealdade do Embaixador. Ele sempre se expressara assim, de forma ambgua, deixando apenas antever seu pensamento, hbito adquirido na carreira diplomtica. Mas no tivesse dvidas: em nenhum momento Francelino Almeida negara apoio a candidato bafejado pelo Governo. Que razes teria para votar no General Moreira, que nada pode lhe oferecer alm da sortida cesta de licores e acepipes, enviada, alis, por Afrnio Portela? Magnfica, sem dvida, mas insuficiente para modificar o voto do astuto diplomata.

    Ainda assim, por via das dvidas, e a seu conselho, o Coronel encomendou a remessa urgente para o apartamento do Embaixador de uma dzia de garrafas de champanha (despesa por conta da verba de combate ao comunismo).
   - Tem uma champanha paulista muito boa. A marca ...
   Lembrando-se num engulho do vinho gacho de pura uva, um nctar!, Lisandro vetou:
   - Paulista ou gacho,  melhor no mandar. No esquea que Francelino passou trinta anos servindo no estrangeiro.
  - E da?
  - E aconselhvel mandar champanha francesa.
  O Coronel Agnaldo Sampaio Pereira suspendeu os ombros num gesto de pouco caso, a verba de combate ao comunismo j naquele ento era praticamente ilimitada:
  - Escolha voc mesmo a marca. So esses requintes que conduzem  decadncia e degradam a raa.
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JORGE AMADO

REUNIO DE ESTADO-MAIOR ANTES DO ALMOO

O alarme foi dado por Henrique Andrade. Poltico liberal por vocao e herana - o pai fora Governador de Estado, Senador e Ministro -, em frias foradas devidas  dissoluo do Parlamento, gozando elevado conceito literrio, o autor da biografia do Baro do Rio Branco figurava entre os acadmicos que, em nenhuma circunstncia, votariam no Coronel Sampaio Pereira. Compusera a comisso que convidara o General Moreira ase candidatar, comportando-se no encontro com a prudncia que o caracterizava, insistente no apelo, sbrio nos elogios. Possuindo amplo crculo de relaes, inclusive entre os adversrios, tinha fama de ser um dos homens mais bem informados do pas, capaz de distinguir entre os fatos verdicos e a boataria reinante. H quem afirme que, j nessa poca, Andrade conspirava contra o Estado Novo, em conluio com conservadores, liberais e esquerdistas. Coestaduano e amigo devotado de Afrnio Portela (que muito o ajudara quando de sua eleio para a Academia, disputando a vaga com dois outros candidatos fortes), telefonou-lhe propondo a convocao do Estado-Maior da Resistncia para a anlise, em conjunto, da difcil conjuntura. Dona Rosarinho, interessada em participar da intriga, marcou um almoo dominical na manso do Flamengo - comida baiana em homenagem ao autor da Vida de Ruy Barbosa, restrito porm aos homens. Se as mulheres viessem, dona Rosarinho teria de lhes fazer sala, banida das novidades eleitorais.

   At Evandro Nunes dos Santos, habitualmente otimista, parecia preocupado. Lisandro Leite passara a preceder o Coronel nas visitas aos acadmicos, portador descartas do Ministro da Guerra e de outras autoridades militares e civis, recomendando a candidatura do Sampaio Pereira. Alm dele, dois outros calhordas dedicam-se  mesma suja tarefa - o velho ensasta abandonava com freqncia a linguagem acadmica ao referir-se a seus desafetos. Algum resultado esto obtendo: o voto do Marcondes, prometido a Moreira por solicitao de Evandro, mudara de dono. Marcondes recebera um pedido irrecusvel-pedido?, ordem, ameaa! - do Ministro da Agricultura,
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
a cujo Gabinete estava agregado com polpuda achega numa vaga e folclrica Comisso para o Fomento do Rebanho Caprino. Meio sem jeito, o Ministro comunicou-lhe que, se o bom amigo e eficiente colaborador persistisse na disposio de votar no General, inimigo ferrenho do regmen, tal atitude seria considerada ato de hostilidade ao Governo. Nesse caso, o Ministro no teria condies de mant-lo na assessoria especial da Comisso para cuja eficcia ele tanto concorria (pela ausncia, certamente). Posto contra a parede, Marcondes capitulara, no podia perder aquela marmelada dos caprinos. Tivera contudo a honestidade de vir a Evandro explicar os motivos do recuo.

   - O Governo decidiu considerar a eleio do Sampaio Pereira questo fechada. - Explicou Henrique Andrade: - O Estado Novo no pode admitir nenhuma oposio, quer controlar tudo. A Academia no escapa, precisamente devido ao prestgio que possui e  repercusso que cerca a escolha de cada novo Acadmico. Sabem quantos pedidos o Bayma recebeu a favor do Pereira em menos de uma semana? Cinco...

   O Coronel e seus lugares-tenentes haviam mobilizado meio mundo. Ainda na vspera, no Palcio Episcopal, Andrade ouvira da boca do Cardeal o relato da visita a ele feita por Lisandro, na tentativa de lev-lo a influir junto a certos acadmicos, os mais ligados  Igreja. O prelado negara-se a colaborar: no que responsabilizasse diretamente o Coronel Agnaldo pelas torturas dos presos polticos, pela invaso de lares nas horas mortas da noite, as razias efetuadas nas bibliotecas oficiais e particulares, a queima de livros em praa pblica, a infinda srie de tropelias. Ainda na vspera recebera informe do Arcebispo de Recife e Olinda, narrando fatos muito tristes, ocorridos em Pernambuco. Assim sendo, preferia manter-se distante da disputa acadmica, sem envolver nela sua autoridade religiosa. Segundo Henrique Andrade, tampouco o Ministro do Exterior intervinha na blitzkrieg. O Chanceler, conforme era pblico e notrio, desaprovava a violncia dos organismos de segurana e detestava o Coronel Sampaio Pereira que mantinha sob censura os telefones do Gabinete e da residncia do Ministro, alis demissionrio por no concordar com a poltica de aproximao com o Eixo nazi-fascista. Andrade concluiu:
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JORGE AMADO

   - Ainda bem que o General Moreira no  homem de arrepiar carreira. Em troca, que espcie de subliterato voc nos arranjou, seu Rodrigo...
   - Aponte-me melhor se puder. A literatura dele no  genial, concordo, mas  um tipo firme, peitudo. Possuidor de muitas qualidades.
   - A melhor qualidade de nosso inefvel General  a filha... considerou R. Figueiredo Jnior: - com licena de dona Rosarinho, eu penso que ela poderia ser de boa ajuda, se quisesse colaborar. E gostosona e tem cara de dadivosa.
   - No  seja inconveniente, Figueiredo - interrompeu a dona da casa. - Deixe a moa em paz. Subliterato ou no, o General  o nosso candidato e no convidei vocs para virem aqui falar mal dele. O que eu quero saber  o que vo fazer para derrotar esse... - nunca encontrava a palavra exata para definir o Coronel Sampaio Pereira, devia pedi-la emprestada ao vocabulrio do compadre Evandro.
   - O que vamos fazer? Misrias! - anunciou mestre Portela. 
 
   Diante do quadro ameaador, quando naquela segunda etapa a Batalha do Petit Trianon se apresentava favorvel ao adversrio, Afrnio Portela proclamou a necessidade de lanarem mo de todas as armas, da acusao verdica ao suborno sexual - a proposta de Figueiredo Jnior era vlida, ele, Portela, j... j cogitara disso, apenas podiam usar colaboradoras mais capazes, experientes e desocupadas do que a filha do General, atualmente absorvida por uma grande paixo.

    - Como sabes, Afrnio, da vida ntima da moa? - admirou-se dona Rosarinho.
    -Meu Servio Secreto... Preciso estar apar de tudo que se refere ao candidato e  sua famlia. No  podes imaginar as coisas que sei...
Chegara a hora de abandonar os escrpulos, pois vergonha, imoralidade, sordidez e insulto seria a eleio para a Academia Brasileira de Letras de um nazista, cmplice quando no mandante das fogueiras de livros, da importao de peritos da Gestapo para dirigir a polcia nacional na tortura dos presos polticos. Tinham de derrot-lo, fosse como fosse, para provar que ainda existe decncia neste pas, que a Academia se mantm independente e digna. No se
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trata de uma brincadeira; esto em jogo a liberdade e a vida dos homens.

   Evandro, de viagem marcada para Recife onde ia pronunciar uma conferncia na Faculdade de Direito, quis saber que acontecimentos eram aqueles, ocorridos 
em Pernambuco, aos quais se referira o Cardeal.
   - Ouvi falar em prises, na proibio de um espetculo de teatro - informou Henrique Andrade-, mas faltam-me detalhes. Nem sei se o Sampaio Pereira tem a ver com eles. Evandro pode averiguar in loco e nos esclarecer.

   A reunio do Estado-Maior, com os pareceres e as resolues, realizou-se antes do almoo. Depois do vatap, do caruru, do ef, das frigideiras e das moquecas, teria sido impossvel. O Comando da Resistncia jiboiava.

OS ACONTECIMENTOS DE PERNAMBUCO

Se excetuarmos o pronunciamento efetuado na Rdio Olinda pelo teatrlogo Aristeu Arabia e o nmero apreendido do Luzeiro de Caruaru, os acontecimentos de Pernambuco no chegaram a repercutir na imprensa falada e escrita do pas. Apesar da importncia cultural dos signatrios do manifesto, ou por isso mesmo, a censura impediu no apenas sua divulgao como tambm qualquer referncia aos fatos que o determinaram. O semanrio da cidade de Caruaru era to modesto em tamanho e circulao que o funcionrio de planto no DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda) esqueceu de enviar-lhe a portaria e assim o Luzeiro ainda hoje se orgulha de ter sido o nico jornal a publicar o protesto dos intelectuais e o fez na primeira pgina pois entre os subscritores encontrava-se o diretor da folha, o folclorista Joo Conde. A edio foi apreendida, o plantonista admoestado - reincidisse o Luzeiro, teria o registro cassado; reincidisse o faltoso, seria vtima do implacvel artigo 177 da nova Constituio, pelo qual qualquer funcionrio, sem exceo, podia ser sumariamente aposentado ou demitido a bem do servio pblico.
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JORGE AMADO

   Tudo se iniciou quando o Tenente Alrio Bastos, dito o Co de Fila, e alguns soldados da Polcia Militar arrasaram a barraca na qual se exibia um mamulengo, nas aforas da cidade de Recife, em zona pobre, onde se misturavam operrios e roceiros. O pequeno e cmico auto popular relatava as adversidades de uma famlia de amarelinhos, perseguida pela avidez e incontinncia de usineiro rico e depravado, senhor de lguas e lguas de terra, apoiado em seus vis desgnios pela milcia e pelo Diabo. Os praas da Briosa obrigavam Joozinho Empapuado, o chefe da famlia, a trabalhar noite adentro no corte do canavial, enquanto Satans tentava atirar a linda Chica, esposa honesta, nos braos do cpido latifundirio. Apetite de famintos, estmagos de ferro, os barrigudinhos jantavam torres de barro. Joozinho, Chica e os moleques contavam apenas com a proteo da Virgem Maria e com a esperteza do cortador de cana. 

  Apesar da imensa superioridade de fortuna e poder do usineiro, o iletrado autor da pea armara a trama de tal maneira ingnua e sbia que a vitria final cabia ao Empapuado. Ardiloso sem igual, Joozinho enrolava os milicos e obtinha da Virgem, madrinha e defensora, grandioso milagre: o tesudo usineiro pegou broxura, mal incurvel, ficou impotente; os soldados maches passaram a falar fino, a revirar os olhos, definitivamente afrescalhados, e Belzebu, vira-casaca contumaz, carregou com os antigos aliados para as profundas dos infernos. A pauprrima assistncia ria e batia palmas, descobrindo, na burlesca farsa e nos rsticos bonecos, a esperana e a arte. Dezenas de outros mamulengos apresentavam-se em nfimos palcos armados com tbuas de caixotes e cartolina, em Recife, nas cidades vizinhas, nos engenhos e usinas, distribuindo quase de graa realidade, milagres e ensinamentos.

   De quem partiu a denuncia no se soube mas o Tenente Alrio Bastos, o Co de Fila, famoso e temido por atrabilirio e cafeto - na zona, mulheres faziam a vida por sua conta -, apareceu acompanhado de quatro praas e quebrou no pau o teatrinho, o dono e o ajudante, pai e filho, sobrando ainda bastante pancadaria para o pblico. Os titereiros foram levados para o Quartel e l exemplados para aprenderem a respeitar a farda - surra de criar bicho.  ajudante ainda no completara quinze anos.
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FARDA FRDO CAMISOLA DE DORMIR

   Postos em liberdade aps alguns dias de xadrez, os mamulengueiros foram 
se queixar a Aristeu Arabia, autor de peas de sucesso no pas e no estrangeiro, inspiradas nos autos populares do Nordeste: vivia metido com bufes, ceramistas, trovadores de cordel. Narraram-lhe a histria e exibiram as marcas das tareias recentes. O escritor no teve dvidas, botou a boca no mundo num programa de rdio de extensa audincia, verberando a ao da Polcia Militar e de Co de Fila.

   A indignada denncia de Arabia produziu resultados imediatos: a Rdio Olinda foi advertida pelo DEIP, o programa sofreu pena de suspenso e a Polcia Militar desencadeou em todo o Estado de Pernambuco, especialmente em Recife, Olinda e adjacncias, fulminante ao contra mamulengos e mamulengueiros: barracas destroadas, tteres apreendidos, titereiros em fuga. 

   Aristeu Arabia, sertanejo impertinente e turro, resolveu enfrentar a borrasca. Aliou-se ao diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco, Waldemar de Oliveira, figura reipeitada em todos os meios, e decidiu realizar um espetculo de solidariedade aos perseguidos mamulengueiros, trazendo para o palco nobre do Teatro Santa Isabel os toscos bonecos, com suas histrias de rir e chorar, a serem encenadas juntamente com pea em um ato, de Arabia, O Mamulengo de Deus, escrita a propsito para a ocasio. A renda reverteria em benefcio dos mseros tablados destrudos pela Briosa.

   Diante da categoria dos dois homens de teatro, os censores locais vacilaram: permitir ou proibir o espetculo? Indecisos, resolveram entregar o caso  deciso da censura federal que, por sua vez, levou o assunto ao conhecimento das esferas mais altas da segurana nacional por nele estarem envolvidos membros das classes armadas. O processo terminou em mos do Coronel Sampaio Pereira que imediatamente deu-se conta do carter contestatrio do mamulengo, posto a servio do comunismo internacional, e a indisfarvel condio subversiva do projetado espetculo. Mandou que a censura o proibisse e que o DIP reiterasse a ordem de silncio  imprensa e ao rdio.

  Processo burocrtico demorado, nesse meio tempo os organizadores da funo voltaram  carga: a casa estava vendida, no restava uma nica entrada, data marcada, tudo pronto. Se o Rio no
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respondera  porque nada achara de condenvel no espetculo. O Chefe estadual da censura terminou por concordar e concedeu o visto.

   Estava o Teatro Santa Isabel lotado, o pano de boca prestes a subir, quando os soldados cercaram o prdio, de baioneta em punho. O pblico foi evacuado, os mamulengueiros corridos a sabre. Conduzidos  Secretaria de Segurana, Arabia e o diretor do Teatro de Amadores conseguiram saber, aps muita discusso, que o Chefe de Polcia cumprira ordem do Rio, ditada pelo Coronel Sampaio Pereira. Por ele, pessoalmente. A ordem, alis, mandava enquadrar os responsveis na Lei de Segurana Nacional caso oferecessem resistncia. Deviam se considerar felizes por escapar do processo. De ficha no escaparam, foto com nmero no peito, impresses digitais. 

   Renitentes, esses intelectuais pernambucanos. No se dando por achado, Arabia, com a colaborao de outros suspeitos, redigiu um manifesto  nao assinado por escritores, msicos, plsticos, artistas de teatro, catedrticos de faculdades, gente de todos os horizontes polticos e religiosos, a comear pelo clebre socilogo, glria nacional, at o autor de elogiado livro sobre Ea de Queiroz, comunista notrio. O manifesto, narrando as violncias exercidas contra os mamulengueiros e os teatrlogos que os apoiaram, citava apenas dois nomes: o do Tenente Alrio Bastos, o Co de Fila da Briosa, conhecido proxeneta, e o do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, autoridade coatora.

   Apesar de publicado somente peloLwz"Vo de Caruaru, o manifesto circulou, clandestino. Foram efetuadas prises de alguns dos signatrios; o eciano j tinha a maleta preparada com o pijama e a escova de dentes, tantas vezes vinham busc-lo. Residncias varejadas, livros apreendidos, inqurito aberto. Picharam os muros da casa solarenga onde vivia o mestre dos estudos brasileiros, cujo renome se estendia aos Estados Unidos e  Eur0pa, neles inscrevendo insultos de baixo calo, dirigidos quele que muitos consideravam a mais alta expresso da cultura brasileira; comparvel a ele, somente o fsico nuclear Prsio Menezes, outra genuna glria nacional.

   Aps pronunciar conferncia na Faculdade de Direito, convidado a almoar com o socilogo, Evandro Nunes dos Santos foi posto a par dos sucessos de Recife, indignou-se com os palavres traados nos muros e ganhou cpia mimeografada do manifesto onde encontrou
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referncia ao nome do Coronel Sampaio Pereira, candidato  Academia. No Rio, providenciou novas cpias, distribudas entre, os acadmicos, na quinta-feira, dia de ch e sesso.

A VIVANDE1RA

Maria Joo d os ltimos retoques na maquiagem antes de comear a se vestir para entrar em cena:
   - Eu era o Co...
   - Era? - Nos lbios de mestre Portela nasce um sorriso de terna
malcia.
   - Uma noite, eu o infernei tanto, tanto, fazendo-lhe cimes, recordando umas coisas, dando a entender outras, insinuando nomes, que Bruno de repente me meteu a mo na cara.
   - Para Bruno chegar a isso, deves ter ido muito longe.
   - Longe demais... Me deu o tabefe quando eu disse que ele tinha vocao para corno manso. A eu parti para o insulto: cabro, galheiro, chifrudo. Ele, coitado, arrependido do tapa, contendo-se para no perder a cabea. Mas quando eu gritei em francs: cocu, ri ds cocus! Bruno me agarrou, que surra! Caiu em cima de mim, aos socos e bofetes, me embolei com ele. No sei dizer a hora em que as pancadas se transformaram em carcias, foi uma noite gloriosa. A manh nos encontrou em juras de amor eterno. No outro dia, eu estava toda roxa das mos e da boca de meu poeta.

   Levanta-se, o roupo semi-aberto deixa ver os seios rijos e belos, jamais usara suti. Comea a vestir-se de Hedda Gabler. A pea de Ibsen, em traduo de Ri Figueiredo Jnior, estreara havia duas
semanas.
   - Por ele, mestre Afrnio, eu seria capaz de me vender ao Diabo
ou a Barreto Nojento, o que  muito pior.

   Conhecido nos meios teatrais por Nojento, o velho Stnio Barreto, comerciante riqussimo, colecionava atrizes, a peso de ouro. Enchera o p-de-meia de umas quantas, nacionais e lusitanas. Maria Joo recusara-lhe todas as propostas - por esprito de contradio ou
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esperando que ele elevasse o teto da oferta a alturas inimaginveis, quem sabe? Na ocasio, Nojento acenava com um apartamento de cinco peas em Copacabana contra um fim de semana em Petrpolis. 

   Mestre Afrnio estende-lhe a lista  da Academia:
   - Os assinalados com um X so nossos, garantidos. Com um N so do inimigo, irremovveis. Os que no tm nenhum sinal esto ainda indecisos. Entre esses ltimos, com grandes promessas e pequenas intimidades, de quantos garantes o voto para o General Moreira? Meio Hedda Gabler e meio nua - valia o apartamento de cinco peas e era barato, considerou o romancista, o olhar de conhecedor -, Maria Joo estuda os nomes:
   - Garantidos, dois. Espere a... Dois no, trs. Pena que Rodrigo j seja dos nossos. Bem que eu gostaria de uma recada com ele. Durou muito pouco.
- Nosso, firmssimo. To nosso que ocupa em tempo integral a tresloucada filha do Moreira, impedindo que ela trabalhe pelo pai. Esses fidalgos so assim, Joozinha, uns egostas. Quais so os trs?
   Batidas na porta do camarim, a senhora dona Maria Joo entrar em cena dentro de cinco minutos. Acabando de se vestir, aponta os nomes com um dedo trgico de Hedda Gabler, em caminho das brumas da Escandinvia:
   - Esses... O Paivinha est marcado com N,  do outro lado, mas se eu pedir... No quer o voto dele?
  -  claro que sim, mas, mesmo sabendo-te irresistvel, no acredito que consigas.
   - Quer apostar? - Morde o dedo: - O querido velhote  um carneirinho, come na minha mo, no me nega nada.
   - Tu  o Co.
   - Vai ser uma chanchada de se morrer de rir.
Riso lacre de menina, quem lhe daria quarenta anos? O amor  o melhor de todos os tnicos, pensa mestre Afrnio enquanto Hedda Gabler, majestosa, sai do camarim em direo ao palco. No somente conserva as linhas do corpo mas, sobretudo, exalta a alegria de viver.
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JORGE AMADO

A GRANDE ATRIZ

A eleio da Rainha da Micareme realizou-se no Teatro So Jos. Alm do poeta Antnio Bruno, compunham o jri o Presidente da Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo, o empresrio Segreto, Jota Efeg, cronista especializado nos festejos de Momo, em ranchos, blocos e gafieiras, e a figura mxima do teatro brasileiro da poca, Itlia Fausta, no apogeu da glria.

   Tambm Antnio Bruno,  beira dos trinta e cinco anos, estava no apogeu. O sucesso do livro de estria repetira-se em escala maior com o lanamento de trs outros volumes: Os Sonetos de Ugne e Barcarola dos Antnios, ambos de poesia, e A Verdade Quase Nua, reunio de crnicas antes publicadas na imprensa. Elogiado com entusiasmo pela maioria da crtica: jovem grande poeta, sonetista incomparvel, lrico cantor que renovou o canto e o lirismo, os pssaros, as rvores, as mulheres e o amor foram reinventados por Antnio Bruno numa poesia livre e autntica, crnicas que so poemas do quotidiano e da por diante. No faltaram tambm speros ataques aos poemas e s crnicas: meloso e repetitivo, desatento aos novos caminhos da poesia, sentimentalismo para domsticas?, opinavam os pernsticos e os invejosos do xito alheio, ofendidos at o fundo da alma: os livros de Bruno, alm dos elogios desbragados, ainda por cima tinham pblico certo, repetidas edies. Seus poemas eram declamados nos palcos por vedetes famosas, em soares de benefcio; por estudantes nos saraus literrios e por admiradoras nas festinhas familiares.

   Para aumentar os magros proventos de oficial de secretaria do Ministrio da Justia, Bruno exercia variadas atividades: ditava conferncias em clubes e sales, escrevia crnicas em jornais e revistas, esquetes para o teatro musicado, letras de canes. Desconhecido compositor de pouco mais de vinte anos, Heckel Tavares, pediu-lhe umas estrofes para melodia que acabara de inventar, assim nasceu Corrupio, modinha imortal de nosso cancioneiro. Leopoldo Froes anunciava para breve uma pea de Bruno, comdia da vida carioca, ainda por escrever. Sucesso do poeta e sucesso do homem, o romntico perfil de beduno reproduzido em fotos, desenhos, leos, caricaturas.
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JORGE AMADO

Suspiravam donzelas e casadas, meninotas e balzaquianas, ao contempl-lo nas pginas do Fon-Fon, o queixo apoiado na mo, o olhar absorto, a cabeleira  Mascagni. Corria o ano de 1921, a Primeira Grande Guerra Mundial ficara para trs e o pas comeava a se preparar para as comemoraes do Centenrio da Independncia.

   Ah!, que ttulo mais cobiado, o da Rainha da Micareme! Alm da coroa de lata dourada, do manto de veludo e de um anel de gua-marinha oferecido pela Joalheria Ouvidor, rendia, sobretudo, vasta badalao na imprensa, entrevistas, reportagens, perfis e a doida inveja das colegas. Da a numerosa concorrncia, empenhada em luta to renhida que at parecia eleio para a Academia Brasileira de Letras. Competiam atrizes do teatro declamado, estrelas e coristas do teatro de revista e as desconhecidas e vidas raparigas dos teatros de amadores, tentando aproveitar oportunidade e ttulo para se tornarem profissionais da fascinante e mal paga carreira do tablado. Mal paga, ainda assim compensadora: o sucesso, a popularidade, a fama e, para corrigir a exigidade dos salrios, existiam Stnio Barreto e outros Nojentos, os prdigos velhinhos milionrios.

   Trabalhados pelo empresrio, trs dos outros quatro jurados decidiram eleger a festiva e pcara Margarida Vilar, pernas perfeitas, longa e ruiva cabeleira, voz quente, vedete do elenco de Misses, Maxixe e Vatap, revista que ultrapassara as cem representaes. Mas, durante o desfile das candidatas, o poeta Bruno bateu os olhos numa daquelas vidas desconhecidas e ficou siderado. Nunca lhe acontecera nada semelhante: paixo instantnea, tresloucada, atroz. Esguia e altaneira, difana, translcida de to loira, azulada pele de opalina, onde ele a vira? Num quadro, com certeza, mas em que museu? Que mestre renascentista a adivinhara e retratara sculos atrs? Apelo e oferta nos olhos noturnos, nos lbios onde o sexo comeava, no passo de ancas afoitas e de seios atrevidos. Bruno sentiu a boca seca e uma contrao no estmago. Diante dele, a mulher fatal, em carne e osso.

   Criou-se o impasse devido ao voto divergente do poeta mas eram todos bons amigos e amveis pessoas e, para que a eleio de Margarida Vilar fosse unnime, resolveram instituir e conceder  annima candidata o ttulo de Princesa da Micareme.

   Bruno no a conhecia, se a vira antes fora em pintura ou em sonho, nada sabia sobre ela, idade, nome, profisso. Ouvida pelo Jri,
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declarou chamar-se Lcia Bertini, de famlia italiana certamente  aparentada  grande Francesca Bertini, pois originria da mesma aldeia onde nascera a incomparvel vedete do cinema; maior de vinte e um anos (maioridade exigida para concorrer ao ttulo e participar do baile da coroao); dona de alguma experincia teatral, obtida quando residira na cidade de Campos e integrara o Grupo Fnix de Amadores. Viera ao concurso acompanhada de um primo, sorumbtico personagem, sentado numa das ltimas filas da platia.

   O interesse de Bruno e o ttulo que, em nome dos jurados, ele lhe ofereceu deixaram-na deslumbrada. Ao v-lo subir ao palco com os demais membros da Comisso Julgadora, logo o reconhecera de fotos publicadas na Vida Domstica e de uma caricatura em O Malho, onde o poeta de caneta em punho escrevia com letra caprichada o ttulo de um livro, como era mesmo? O Barco... O Barco de qu? A Barcarola dos Antnios? Era isso mesmo, ttulo gozado, que significava?
Concludos em paz os tumultuados trabalhos do Jri, proclamadas e aplaudidas as vencedoras, Bruno quis sair com a Princesa, na esperana de naquela mesma noite saciar a fome que o devorava. Mas Sua Alteza Real, muito digna e casta, recusou, devia regressar com o primo:
   - Pai  muito rigoroso, s me deixou vir acompanhada por meu primo e no sabe que vim para concorrer. Se soubesse, era capaz de me bater e de me trancar em casa.

   Marcaram encontro para o dia seguinte, numa sorveteria, no Largo da Carioca. As taas de espumone (era gulosa), as palavras ciciadas, doces palavras boas de ouvir, o verso nascido do impacto da vspera ao descobri-la, a beleza do beduno, a legenda do poeta conquistaram-na, deixando-a sfrega, a respirao anelante. Confessou algumas das primeiras mentiras. No vivera em Campos, jamais subira a um palco, no era Lcia Bertini nem descendia de italianos, apelido e sangue roubados a uns vizinhos. Chamava-se Maria Joo, nome escolhido pelo pai, portugus e defunto. Nome horrvel, no acha? No existe nome mais lindo, vou te chamar Joozinha, queiras ou no. J no possua vontade prpria, queria tudo que Bruno quisesse, nunca imaginara conhec-lo pessoalmente, quanto mais ser beijada por ele no escuro do cinema ris, beijos interminveis como os do filme, sentir as mos do poeta acariciando-lhe os seios soltos sob
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a blusa. Assim comeou aquela tresloucada paixo, na fria do desejo e do cime, envolta em permanente onda de mentiras, com agresses e escndalos em pblico. Nos quase dois anos que durou a ligao, Bruno jamais conseguiu separar a realidade da inveno, marcar limites entre a representao e a verdade.

   O primo no era primo e, sim, empregado no armazm deixado em herana pelo portugus, administrado pelo irmo e scio. Da parca renda, viviam ela, a me e um irmo menor; na diviso dos lucros, o cunhado e tio aplicava regras prprias de aritmtica. Quanto  idade, foi diminuindo pouco a pouco at chegar aos dezessete anos recm cumpridos. O falso primo fora o segundo a t-la, precedido por um primo de verdade, menino de quinze anos, mais moo do que ela. Tendo acontecido, o rapazinho queria casar, imagine s! Narrava com detalhes, sem qualquer noo de pudor, e falava sem parar. Quando no tinha o que contar, inventava.

   No Grande Baile da Coroao, na sede dos Tenentes do Diabo, armou o primeiro escndalo. Aps ter sido proclamada e adornada (coroa menor do que a da Rainha, manto brilhante de cetim em lugar do nobre e pesado manto de veludo, pequeno anel de turquesa oferta da citada Joalheria Ouvidor), percorreu o salo pelo brao de Antnio Bruno, to ovacionada quanto a Rainha. O poeta sentia-lhe o seio palpitante, Maria Joo nascera para o aplauso e a exibio.

   -Tambm eu tenho um presente para ti, minha Rainha de Sab, mas no o darei agora nem aqui.

   Pendurado em grossa corrente, um relicrio em forma de corao, jia portuguesa antiga, ouro de lei, descoberta num antiqurio srio jamais enganara um cliente - e ladro: para compr-la Bruno tivera de tomar dinheiro emprestado a Afrnio Portela.

   Abriu o estojo, mostrou-lhe a prenda. Apesar de ainda ignorante sobre valor e qualidade de jias, Maria Joo possua um gosto inato, percebeu a categoria, sentiu a beleza do adereo e imaginou que custara uma fortuna.

   - Para mim? Nem acredito.
   Quis us-la em seguida mas ele no permitiu:
   - Em casa, quando estiveres nua. Quero coloc-la sobre teus seios, meu presente de npcias.
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   - Mas assim ningum vai ver...
   - Eu verei, no basta? Por uma vez, usars somente para mim. Depois, poders exibi-la onde quiseres. 
   Ento ela sorriu e mordeu os lbios, prevendo a cena. Fechou os mm olhos, saram a danar, par constante:
  - Quero um retrato teu para colocar no relicrio.
  Exmio danarino, com os requintes dos cabars de Paris, Bruno encontrou em Maria Joo aluna aplicada, capaz de acompanh-lo nas variaes mais ousadas. Entre enfurecida e desdenhosa, ela controlava  os olhares que as mulheres lanavam  passagem do poeta. Algumas Um sorriam para ele, cnicas.

  Durante breve pausa do jazz-band, enquanto os msicos se desalteravam esvaziando canecas de chope, a Princesa da Micareme aproveitou para ir ao toalete. Ao regressar, a dana recomeara e Bruno volteava ao som de um foxtrote, enlaado  esfuziante Rainha Margarida. A fria superou o desdm, a submissa Princesa virou uma  harpia, partiu em direo ao par. Antes de Sua Majestade dar-se B conta, a coroa real foi arrancada e o nobre manto de veludo varreu o cho da sala pois Maria Joo atirou-se sobre a estrela maior do teatro de revista e a arrastou pela cabeleira - Margarida Vilar sentia  particular orgulho dos reflexos de cobre fulgindo no palco, nascidos da incidncia da luz sobre as ruivas madeixas. Nunca se viram tantos a cintilar como na noite do baile.
   - No se meta com ele, bruaca velha, descarada.  meu e de mais a ningum.
   Por pouco acabam baile e mi-carme. Para retir-la da sala e lev-la embora Bruno precisou recorrer  fora bruta. Maria Joo reagiu, mordendo-lhe a mo, tirando sangue:
   - Me largue, no quero mais saber de voc. Fique com aquela vagabunda, d o presente para ela, eu vou para minha casa.
   Foram para a casa dele, cama de insnia e de lascvia. A pesada corrente em torno do pescoo, o relicrio entre os seios, corao de filigranas. A pele translcida de opalina, o ventre desabrochando em trigo maduro, toda ela em ouro. 
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   Madrugada de lobos uivantes, de chupes e dentadas, assalto de famintos, luta corporal. Quando por fim a manh os alcanou, ela disse:
   - Me perdoe, meu amor, mas sou assim. O que  meu,  somente meu, no reparto com ningum. Agora, se quiser, me mande embora... - sorriu e se espreguiou: -... s que eu no vou, daqui no saio mais.

   Muitas paixes ele teve e despertou, nenhuma to desabrida e arrasadora. Durou quase dois anos e por vezes ele pensou que ia enlouquecer. Maria Joo foi a nica mulher em quem bateu e o fez com raiva. Sentimento dominante, o cime envenenou o idlio. Cime alucinado que ela tinha e exibia a qualquer momento e em qualquer lugar. Cime que buscava causar, pondo  prova o amor de Bruno. Brigas repetidas, amiudando-se, fazendo-se quotidianas; tormentas que findavam no embate furioso dos corpos malditos de desejo.

   Maria Joo fez-lhe cenas terrveis, no suportava v-lo falar ou rir com outra mulher. Ao mesmo tempo, deixava escapar nomes de homens, referia-se a propostas recebidas, escondia pedaos de papel em branco para que ele pensasse serem cartas comprometedoras, bilhetes marcando encontros. Quantas vezes repetiu o escndalo do Baile da Micareme?

   No cime, consumiu-se a paixo de Bruno. Duas mulheres num mesmo corpo, maravilhoso: Maria Joo, a terna e doce menina apaixonada, e sua anttese, a intolerante, incontrolvel bruxa na qual ele pusera o nome de Mary John. Ambas sem rival na cama.

  Mary John intitulou-se a pea em versos que finalmente Bruno escreveu para o repertrio de Leopoldo Froes, com a condio de caber a Maria Joo o papel-ttulo. Antes, obtivera que ela participasse, sob o nome de Lcia Bertini, de algumas revistas, cantando e danando. Generosa, incapaz de guardar rancor, Margarida Vilar deu-lhe mais de uma oportunidade e se tornaram amigas. Apesar da beleza, do corpo magnfico, do charme, faltavam a Maria Joo certos requisitos exigidos por aquele tipo de teatro. Um dia, Bruno exclamou, no auge do desespero:
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   - Tu s uma comediante nata, isso sim. you escrever uma peca para ti, Mary John. 

  No nascera dramaturgo e, sim, poeta. Na comdia, salvaram-se os versos e 

a interpretao da estreante, vivendo com extraordinrio talento a figura contraditria da gentil e encantadora moa brasileira de cabea virada pelo cinema americano, a imitar hbitos e poses d Hollywood. Nunca mais Antnio Bruno escreveu para o teatro declamado, nunca mais ela voltou a ser Lcia Bertini em pequenos papis nas revistas da Praa Tiradentes. Surgira uma estrela, a grande atriz, uma nova Itlia Fausta. 

  Permaneceram amigos, ela e Bruno. Por duas vezes, aconteceram recadas mas ambas duraram pouco tempo.

O DESGASTE

Penosa, deprimente, desgastante, a campanha eleitoral aproximava-se do fim da primeira etapa: os dois meses durante os quais os candidatos podiam se inscrever. A Batalha do Petit Trianon crescia em violncia mas ningum previu seu inesperado desfecho.

   Acostumado a mandar e a ser obedecido, o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira irritava-se ao constatar franca ou surda resistncia  sua pretenso  imortalidade. A marcha triunfal, anunciada por Lisandro Leite, transformara-se pouco a pouco em corrida de obstculos. Terrivelmente desgastante.

   No calvrio das visitas protocolares, obrigado  humildade e  adulao, por dez vezes vira-se constrangido a ouvir em silncio a mesma insultuosa cantilena:
   - Lastimo imenso, Coronel, mas o meu voto j est comprometido. Por coincidncia, com um colega seu, de farda, outra ilustre figura do Exrcito, o General Waldomiro Moreira.
   Mudavam as palavras, o contedo permanecia o mesmo: compromisso anterior com o bestalho do Moreira. Descobriu que dois acadmicos mentiram quando afirmaram ter prometido o voto ao Linha Maginot pois ele ainda no os visitara. Prova evidente de 
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oposio a seu nome e ao que ele representava. Bofetada dez vezes repetida, significativa pelo nmero e pela revelao de fato grave: os inimigos da Ptria haviam estendido seus tentculos at  Ilustre Companhia.

   Sendo a Academia Brasileira uma assemblia de expoentes no apenas da literatura mas tambm dos demais setores da vida brasileira, da jurisprudncia  poltica, do clero s foras armadas, da diplomacia  medicina, das cincias ao jornalismo -, de tradio conservadora, o Coronel jamais pudera imaginar que sofresse tamanha influncia das foras, decadentes e dispersas, que se opunham s vitoriosas idias renovadoras, simbolizadas nas figuras gloriosas do Fhrer e do Duce. A Academia revelava-se empestada pela podrido do liberalismo, infiltrada pelos comunistas. Acusavam-no de Quintacoluna, assim soubera. Pois bem: eleito, tomaria as necessrias providncias para injetar sangue puro e sadio na corporao enferma, renovando-a a cada vaga. Os prximos Imortais seriam escolhidos a dedo.

    bem verdade que quinze dos visitados comprometeram-se a sufragar seu nome e dois ou trs dentre eles juntaram-se a Lisandro no apoio ativo  campanha. Ausentes do Rio (um aposentado em Minas, outro Embaixador no Mxico), no podendo comparecer  eleio, dois acadmicos lhe haviam confiado as cartas s quais devia juntar os envelopes fechados com os votos para os quatro escrutnios. Momentos de intenso prazer quando, assessorado pelo Desembargador, ele mesmo batera  mquina, nos papeizinhos, o nome completo, precedido da patente. Em troca, tivera de engolir sapos e cobras para assegurar a vitria.
Vinte e cinco votos definidos, quinze a seu favor, dez contra, e quatorze incertos. Quatorze, no; treze, pois Afrnio Portela, promotor da candidatura do General, era o inimigo nmero um de Sampaio Pereira. O controle do telefone do romancista revelava sua intensa atividade diria junto aos demais acadmicos para impedir a entrada da Gcstapo no Petit Trianon, frase textual. Com Lisandro, o Coronel analisava at a exausto os treze nomes, um a um, em subjetivo clculo de probabilidades. Na opinio experiente do jurista, todos eles, sem exceo, votariam no querido Agnaldo. Mas o querido Agnaldo deixara de confiar cegamente na propalada experincia e nas previses 
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do caro Lisandro. Andava to desapontado a ponto de colocar entre os duvidosos 
o velho Francelino Almeida,' apesar das frutas e da champanha (francesa). 
   
   Faltava-lhe visitar apenas trs dos trinta e nove acadmicos. Cumprira o ritual com todos os demais e nem sempre fora fcil e agradvel. Tivera de viajar a So Paulo para cortejar Mrio Bueno, o poeta do Livro tios Salmos, e a Belo Horizonte para recolher o sufrgio de ex-Diretor do Banco do Brasil, catedrtico aposentado, autor de livros de contos de reduzido nmero de pginas e reduzida circulao, hemiplgico. De Minas, trouxe a carta do paraltico no bolso da tnica. O poeta paulista lhe concedeu pouco tempo mas, corts, lhe garantiu o voto, ficou de envi-lo diretamente  Academia. Gentil com todos os candidatos, a todos, sem exceo, Mrio Bueno garantia o voto, sempre enviado para a Academia; jamais se descobriu o nome que sufragava. A par da circunstncia, o Coronel colocou o vate na lista dos incertos, apesar das garantias de Lisandro. Ao Embaixador no Mxico, Renato Muller Vieira, visitou via Western, em caloroso e extenso cable (a verba de combate ao comunismo subvencionava essas pequenas despesas: correspondncia, passagens, hotis, o rgio presente de casamento para a filha de um dos quinze incondicionais). Recebeu amabilssima resposta e a preciosa carta para a eleio atravs da mala diplomtica. Renato Muller Vieira, poeta e romancista, a quem no conhecia pessoalmente e cujos livros abstrusos no conseguira ler, o Deus Menino da recente crtica universitria, proclamava-se admirador incondicional de Sampaio Pereira: vossa obra imperecvel e vosso exemplo magnfico inspiram a juventude do Brasil no alvor do novo mundo sonhado por Schopenhauer. Adeso entusistica, a compensar a oposio e a ojeriza demonstradas por alguns vis simpatizantes de Moscou.

   Duas das entrevistas foram sumamente desagradveis, despidas da mnima gentileza, deprimentes. Impelido, Evandro Nunes dos Santos no o acolhera em casa, marcara encontro na sede da editora de seus livros, a Jos Olympio. Ouviu-o em silncio, de cara fechada, declarou-se solidrio com o outro pretendente e lhe estendeu a ponta dos dedos, despedindo-o. Quanto ao teatrlogo R. Figueiredo Jnior, teve a petulncia de lhe perguntar o motivo que o levara a pleitear a Vaga. Conhecendo-lhe a ideologia e a natureza das funes que
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desempenhava no Governo, no conseguia compreender seu interesse pela Academia Brasileira. nica aluso direta  sua condio de fascista e de Chefe das Foras de Segurana, a indagao maligna do dramaturgo ficara-lhe entalada na garganta, monstruoso sapo-cururu. Devia visitar ainda o Presidente Carmo, o egrgio moribundo Prsio Menezes e o romancista Afrnio Portela.

   O intragvel Portela, decadente liberalide, inventor da candidatura do Linha Maginot, nem o visitaria, no fossem as ponderaes de Lisandro: a absteno assumiria o carter de represlia. Os Imortais so muito susceptveis, poderiam consider-la intolervel ruptura do protocolo, atingindo a todos. O querido Agnaldo, apesar de ter a eleio garantida, no devia criar problemas capazes de lhe reduzir a votao. Ademais, Portela, um parasita social, bon vivant, ao contrrio de Evandro e Figueiredo, seria corts e, quem sabe, at agradvel.

  Na Igreja da Candelria, em missa de stimo dia, Sampaio Pereira encontrara-se com Hermano do Carmo que ficara de marcar data para receb-lo; ainda no o fizera. Demonstrara-lhe extrema considerao mas o Coronel o achava por demais discreto. Discrio inerente ao cargo, explicou Lisandro: o Presidente tem de respeitar a clusula regimental que probe a divulgao antecipada do voto. Mas, apesar da reserva e do silncio, revelava sempre sua preferncia, de maneira curiosa. Como? Enquanto recebia os demais concorrentes pela manh, servindo-lhes um simples cafezinho, convidava para jantar o candidato em quem ia votar.
Prsio Menezes, sbio de projeo internacional, cuja preparao cientfica se iniciara corn Marie e Pierre Curie, colaborador de Einstein na Universidade de Princeton, professor de Mecnica Superior e Celeste, membro do Institu du Radium, da Sorbonne, poeta surrealista nas horas vagas, casado com a pianista Antonieta Movais, tampouco respondera  sua solicitao de data para a visita. Por depender do estado de sade, esclareceu Lisandro. Atacado de cncer generalizado, passava dias e dias sob o efeito de drogas para aplacar as dores, morfina em quantidade. Deixara de comparecer  Academia havia vrios meses e recebia apenas os amigos mais ntimos. Mas ento por que recebeu o Linha Maginot? Porque o General antecedera o Coronel no pedido de data para a visita e o eminente personagem era pontilhoso em questes de etiqueta. Receberia o querido Agnaldo 
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apenas se sentisse melhor; assim dissera a ele, Lisandro, que na vspera conseguira lhe falar ao telefone para cobrar a data. Acrescentara ademais uma frase que constitua, na prtica, antecipada declarao de voto: fao questo absoluta de receb-lo.

   Confiante na vitria, contudo o Coronel sentia-se decepcionado como se estivessem a esvazi-lo por dentro. Resistncias, armadilhas, enganos, palavras de duplo sentido, desfeitas, afrontas, tudo terrivelmente cansativo, desgastante. Se no almejasse com tamanha sofreguido - ainda maior agora quando a eleio se transformara em batalha sem quartel - o ttulo, a cadeira, o fardo, a imortalidade, abandonaria a disputa, desistiria. Inquieto, mortificado, abalada a autoconfiana, os nervos em frangalhos.

  Os subversivos e os suspeitos pagaram caro as consumies do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira. Vingava-se neles da sinistra quadrilha de acadmicos, dos que lhe negavam o voto, preterindo-o em favor de um borra-botas; dos que o ofendiam com a frieza, a ironia, a repulsa e daqueles, os piores de todos, que, dizendo-o vitorioso, desde j eleito, resguardavam-se, deixando-o em dvida, confundido, perdido em meio a um palavreado brilhante e inconseqente. Socos na mesa, gritos, ameaas, ordens ferozes aos sequazes - os presos e suspeitos que passaram por suas mos naqueles dias amargaram o po que o Diabo amassou, atravessaram os quintos do inferno.

O CASAL (E A FILHA)
  -Andas preocupado, Lisandro. Por qu? - A voz calma e agradvel de dona Maricia, em afetuosa indagao.

   As pessoas em geral se surpreendiam quando o Desembargador Lisandro Leite apresentava a esposa. Gordo, suarento, descuidado no vestir, extrovertido, de amabilidade exagerada, interesseiro e sabido, em tudo diferente da senhora delgada, elegante, bem penteada e bem maquiada, ainda atraente, sempre risonha e atenciosa. Tinham cinco filhos, quatro homens, todos formados - dois advogados, um mdico, um engenheiro - t casados e Pru (Prudncia, detestava o nome), solteira, quartanista de Direito, bonita igual  me, exuberante e
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disposta que nem o pai. Av de sete netos, dona Maricia, loua e serena, no aparentava os cinqenta anos a cumprir em breve.

   Dava-se bem com o marido. Sempre solidria, mesmo quando, em conversas com Pru, parecia discordar de pontos de vista e posies assumidas por ele. Juntos haviam feito longa caminhada, de comeo muito difcil. Lisandro tivera de se bater como um leo para que no faltasse  mulher e aos meninos pelo menos o essencial. Esposo apaixonado, pai dedicado e bonacho, preocupado com o futuro dos filhos, trabalhara duro, metera a cara com coragem e ousadia, desconhecendo tica e escrpulos, para proporcionar conforto  famlia e encaminhar os filhos - todos eles, graas a Deus e s manobras e diligncias do pai, bem estabelecidos, a vida organizada. Em casa, ainda estudante e dependente, apenas Pru. Dependente, em termos: moradia, comida e roupa mas a terminava a dependncia pois no mais, expedita e insubmissa, Pru no admitia a menor interferncia dos parentes. Disposta a viver sozinha, independente, assim tivesse condies. Comeara a praticar num escritrio de advocacia, onde no ganhava dinheiro mas ganhava experincia e cumpria um dever: o escritrio se especializara na defesa de presos polticos diante do Tribunal de Segurana Nacional.

   Lisandro sentou-se ao lado da esposa:
   -  essa desgraada eleio. Pensei que fosse fcil carregar a candidatura do Agnaldo, me enganei.

   Era grato a Maricia, desde a longnqua poca do namoro. Balofo, as mos sempre molhadas de suor, cabeludo, a barba malfeita, infenso aos esportes, mau danarino, rapaz de pouca aceitao junto s moas, at hoje no sabe o que a levara a lhe dizer sim quando se declarou no baile de formatura. Custou a acreditar que a requestada professora - ensinava no grupo escolar do bairro - quisesse realmente casar com ele. No a instigavam interesses escusos pois Lisandro provinha de famlia ainda mais pobre que a dela e, para custear os gastos com a Faculdade, tivera de trabalhar (at obter a bolsa de estudo) cobrando para uma loja de roupas e confeces as contas de insolvveis caloteiros - e conseguia receber. Considerou-se em dvida com a esposa durante a vida inteira. -
   - Muita gente contra ele?
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    Em geral dona Maricia no se interessava pelas disputas de vagas na Academia, apesar do tempo e do empenho que Lisandro lhes dedicava. Acolhia os candidatos nas visitas protocolares, comparecia ao Petit Trianon por ocasio das sesses solenes e do ch festivo s vsperas do Natal, quando confraternizava com as senhoras dos demais acadmicos. O crculo de amizades que freqentava compunha-se sobretudo de esposas de magistrados e de familiares, seus e das noras.
   - Vrios, mais do que imaginei. E velhacos... Afrnio Portela, lembras dele? Um gr-fino...
   - Sei, muito simptico. L uns romances dele, gostei. Adlia  lindo.
   - Simptico? Comparado com ele, Maquiavel  um estudante de leis. Sabes ao que chegou?
   - Conta. - Solcita, tomou-lhe da mo suarenta.
   - No contente de arranjar um General para competir com o Agnaldo, botou Maria Joo a cabalar votos. 
   - A artista de teatro? E d resultado?
   - Basta te dizer que Paiva, o nosso querido Ministro, voto meu, de cabresto, anda querendo tirar o corpo fora. Nunca se viu uma coisa dessas,  uma falta de respeito  Academia.
   Dona Maricia riu:
   - Sou capaz de jurar que, por teu lado, tens feito outro tanto. H perigo de teu candidato perder?
   - Isso no.  Vai ganhar.
   - Ento por que te preocupas?
   - Porque eu queria uma vitria por unanimidade. A, aparece o peste do Portela com um General para estragar a festa.
   - Todas as vezes,  a mesma coisa. Essa briga feroz.
   - Creio, Maricia, que no existe nada que seja mais cobiado no Brasil do que o fardo da Academia. A Academia  o supra-sumo, nada se compara com ela. Somos apenas quarenta, os eleitos dos deuses, os Imortais.
   - E tu chegaste l, Lisandro. Fiquei muito orgulhosa. Mas, foi to difcil? No me lembro mais.
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   - A ocasio era propcia, fui uma espcie de candidato de conciliao. Assim mesmo, tive de rastejar. O Paiva me ajudou muito.
   Silenciou, recordando a batalha de dez anos atrs; considerado o mais fraco dos trs candidatos, ningum acreditava que ele fosse eleito. Ah, a Academia custa suor e sangue!, mas o fardo limpa tudo, cicatriza as feridas. Olhou para a mulher com carinho:
   - s esposa de um membro da Academia Brasileira de Letras.
   - Muitas tm inveja, nem escondem. Seu marido  Acadmico, no ? Que chique! Fico toda prosa.
   - Precisas ver o Agnaldo, o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, cujo nome faz tremer meio mundo, um dos maiores figures do Estado Novo, oferecendo caixas de champanha francesa ao velho Francelino, Embaixador aposentado, sem eira nem beira.
   - E por que patrocinas a candidatura desse Coronel? Li umas coisas sobre ele, de arrepiar. Nesses papis que a Pru traz para casa, escondidos na bolsa.
- Pru anda metida com os comunistas, j te disse. Um dia desses  descoberta, nem quero pensar. Imagina, uma filha minha, na cadeia. , Estou pagando meus pecados.

   O manifesto dos intelectuais pernambucanos, do qual encontrara cpia em sua gaveta na Academia, aparecera tambm em casa, em cima da escrivania onde estudava os processos. Posto ali pela filha, para criticar a atitude do pai. Pru trouxera tambm o poema de Antnio Bruno sobre Paris e escrevera  margem: um nazista no pode suceder ao poeta da liberdade. Acusando-o, a rebelde. Mas quem ir tir-la da cadeia se, um dia... Imagine-se se o Coronel desconfiasse...
   - Deixa Pru com a vida dela como eu te deixo com a tua. Mas, explica-me por que te afliges tanto por causa dessa candidatura, por que a patrocinas, se esse Coronel no  sequer teu amigo? 
   - Ele manda, Maricia, acima dele somente o Ministro da Guerra e o Homem. Agnaldo, ele escolhe e nomeia. Eu te devo muito, te devo demais, minha querida. J s esposa de um Acadmico, quero que sejas tambm de um Ministro do Supremo Tribunal Federal.

   Delgada, elegante, ainda atraente, desejvel, dona Maricia descansou a cabea no ombro do marido:
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   - Por mim o fazes, agora entendo. - Ofereceu-lhe os lbios.

DILOGO AO TELEFONE

- Boa notcia, caro Lisandro.
   - Diga, querido Agnaldo.
   -Acabo de receber telefonema do Carmo, marcando visita para
amanh.
   - Do Presidente? timo! E, da?
   - Convidou-me para jantar em casa dele, com minha mulher. Pediu-me que no divulgasse o fato.
   - No lhe disse? Convite para jantar, garantia do voto.
   - Todos dizem que de fato  assim. Quis lhe comunicar imediatamente.
   - Obrigado. Sabe que dia  amanh?
   - Amanh? Deixe-me ver... Quinta-feira.
   - No uma quinta-feira qualquer. Amanh encerram-se as inscries. A partir de sexta, ningum pode mais se candidatar.
   - Ser que o Presidente j recebeu Moreira Maginot?
   - Sei com certeza que ainda no recebeu o General Moreira. Mesmo tratando-se de um adversrio, Lisandro no ousa retirar a patente que precede o nome de um oficial superior; quanto mais a trat-lo por depreciativa alcunha, Deus o livre: - Mantenho-me informado sobre todos os passos do inimigo. O General ter de contentar-se com um cafezinho.
   - Podemos nos encontrar depois de amanh para eu lhe dizer como correu o jantar?
   -  claro que sim, marque a hora. Estou sempre  disposio, sou seu ordenana, meu Coronel.
   - Comandante Supremo, isso sim, carssimo Lisandro. Be
   Supremo Tribunal Federal. "
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JORGE AMADO

INFORMAO

Abertos os trabalhos, lida a ata, naquela quinta-feira, dois meses exatamente aps a sesso de saudade dedicada  memria do poeta dos Sonetos de Ugne, o Presidente comunicou aos Senhores Acadmicos presentes (e ordenou o envio de circular aos ausentes) o encerramento do prazo de inscrio de candidatos  vaga aberta com a morte de nosso saudoso companheiro Antnio Bruno. Dois escritores, preenchendo os requisitos regimentais, se haviam apresentado: o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira e o General Waldomiro Moreira, ambos com vrios livros publicados. A eleio seria efetuada da a dois meses, na ltima quinta-feira de janeiro de 1941, por coincidncia a derradeira antes das frias acadmicas.

O JANTAR 

Na moderna casa da Urca,  noite, o Presidente e Senhora receberam para jantar o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira e a esposa, dona Hermnia. Dona Hermnia parecia mais velha que o marido a quem tratava por Sampaio; calada, respondendo por monosslabos s tentativas de conversao da Presidenta, todavia,  sobremesa, saiu do mutismo para elogiar os pratos e os doces. Tudo muito fino, disse.

   O jantar iniciou-se tranqilo, depois ganhou vivida animao. Hermano do Carmo narrou fatos de sua vida jornalstica. Comeara de baixo, menino de recados, levando originais e trazendo provas da redao para a tipografia, na Folha do Comrcio, rgo do qual terminara diretor e proprietrio. Antes de ocupar a presidncia da Academia, ocupara a da Associao Brasileira de Imprensa.

   Apesar do esforo do Presidente para evitar temas conflitantes, como impedir que se comentasse a guerra? Tendo a dona da casa aludido com admirao  resistncia oposta pelos ingleses aos monstruosos bombardeios areos alemes, citando Churchill, o Coronel no resistiu e, entre o peixe  escabeche e o rosbife com legumes,
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assumiu o comando da Luftwaffe, apagou Londres do mapa, em seguida ocupou a Inglaterra e meteu Churchill na cadeia.

   Na sobremesa, voltaram a assuntos mais amenos; ouviu-se a acanhada voz de dona Hermnia elogiando peixe, carne e doces. Doida por doces, contudo no 
podia abusar, j estava gorda demais. Acrescentou imprevisto detalhe: Sampaio apreciava mulheres gordas. O Coronel confirmou: quem gosta de ossos  cachorro.
   Quando o casal se retirou, a Presidenta perguntou ao marido:
   - Vai ser eleito?
   - Infelizmente, sim. Por sorte, quando tomar posse, j no estarei na presidncia. - Meio a srio, meio a sorrir, acusou a altiva dama de cabelos brancos: - Falaste em Churchill de propsito, no foi? Provocadora.
   - Por que o convidaste para jantar se no vais votar nele?
   - No vou? Como sabes? - Tambm ela tomava conhecimento das preferncias do marido somente quando ele lhe anunciava o nome do candidato convidado a jantar.
- Como sei? Porque no  possvel que um homem de bem vote nessa espcie de bastardo de Hitler. Reparaste na mulher? Mulher, para ele,  ser inferior, boa para engorda e cama.
   - Com  meu voto ou sem ele, ser eleito. Com diferena de oito a dez votos, por a. - Passou o brao em torno da cintura da esposa: - Para a semana, na prxima tera, viro jantar o General Waldomiro Moreira e a mulher.
   - O outro candidato? Que novidade  essa?
   - No precisas desfalcar a adega, vinho francs est caro e difcil. Serve o mesmo chileno de hoje.
   Iluminou-se num sorriso o rosto da Presidenta:  
   - J percebi. Se convidas os dois, vais votar em branco.
   - Adivinhona.
   De mos dadas, desceram para o pequeno jardim onde floriam jasmineiros, perfumando a noite.
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CURSOS, CONFERNCIAS E VIVANDEIRAS

Conjunto de conferncias pronunciadas por acadmicos, o curso anual da Academia Brasileira de Letras sobre aspectos da literatura nacional em 1940 analisou o tema Poesia nos Movimentos da Abolio e da Repblica. Pblico composto em geral por gente moa, na maioria estudantes, alm de amigos e admiradores do conferencista da semana. Os de maior nomeada conseguiam lotar o salo e modificar a fisionomia habitual da assistncia com a presena de professores universitrios, editores, escritores, livreiros e senhoras da sociedade. 

   Desde que se inscrevera candidato  vaga de Antnio Bruno, o General Waldomiro Moreira no perdera uma nica aula. Sempre na primeira fila, bloco e caneta  vista, tomando notas, acompanhado do infatigvel Claudionor Sabena. Superado o azedume decorrente do telefonema petulante, atravs do qual o General mandara a Academia Fluminense de Letras s favas, o enamorado Sabena passara a viver as peripcias da nova e gloriosa candidatura do autor de Prolegmenos Idiomticos, secretrio eficaz e gratuito. Em troca continuou a freqentar a hospitaleira casa do Graja, prosseguindo na discreta corte  desquitada Ceclia. Por falar em Ceclia, a graciosa filha do General abrilhantou com sua presena a conferncia sobre Luiz Gama, a cargo de Rodrigo Incio Filho, aplaudindo com tamanho entusiasmo, a ponto de causar apreenso e cime ao bom Sabena - posto na reserva mas no desprezado. Ceclia no era de jogar fora pretendentes mesmo em circunstncias como aquela, quando em garonnire de luxo acasalava-se corn a imortalidade. Tais benesses do destino, ai!, costumavam durar pouco. Sabia despertar interesse, fazer-se desejada, apetitosa conquista mas, inspida e impertinente, no conseguia manter acesa a chama inicial, cedo se desiludia o apaixonado e o idlio estiolava, flor de vida curta. Incapaz de suportar a solido, recorria ento aos suplentes. Perdera um deles, o cirurgio-dentista que a flagrara aos beijos com Rodrigo na limousine do Imortal. Revelou-se preconceituoso e vulgar em derradeiro telefonema - para insult-la (para defini-la, dissera ele) empregou aquele nome.
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   Observando o General Moreira tomar quantidade de notas, comandar as palmas por ocasio dos tropos mais eloqentes, sair em disparada para ser o primeiro a felicitar o orador, elogiando-lhe erudio e sintaxe, o velho Francelino 
Almeida recordou para um grupo de colegas, entre os quais Afrnio Portela e Henrique Andrade, divertido episdio do qual haviam sido protagonistas ele e Lisandro Leite, ento candidato com reduzida chance de vitria.

    Na ocasio, o diplomata ditava ao fim da tarde, nas sextas-feiras, um curso de conferncias na sede do Pen Club, sobre a cultura clssica japonesa. Assunto rido, pblico diminuto, a cada palestra mais diminuto. Lisandro Leite fornecia a maioria absoluta da assistncia. Arrebanhava alunos ameaados de reprovao na ctedra de Direito Comercial e,  base de promessas de melhores notas nas prximas provas, obtinha presena e aplausos de uma boa dzia de ouvintes para as explanaes do ex-Embaixador no Celeste Imprio sobre o Kojiki, o Manyo-shu, os monogataris, os nikkis e outras amenidades semelhantes. Na penltima conferncia, alm de Lisandro e dos chantageados discpulos, haviam comparecido apenas o Presidente do Pen e o contnuo, obrigados ambos devido aos cargos que exerciam. A assistncia coube nas duas primeiras filas do pequeno auditrio. Na vspera da ltima palestra, realizou-se a eleio e Lisandro saiu vitorioso no terceiro escrutnio, para surpresa de muitos. Entre os que votaram nele, estava Francelino que, em dvida entre os trs candidatos, nenhum deles influente, decidira-se pelo assduo e obsequioso freqentador do curso. Pois bem: na ltima palestra, o pblico reduzira-se ao Presidente, ao contnuo e a quatro gatos-pingados, porteiros e vigias do Edifcio, convocados pelo experiente bedel. Acadmico eleito, Lisandro sentira-se desobrigado e desobrigara os alunos.

   - Quero ver esse General  depois da eleio. Se for eleito, perdemos o ouvinte. Mas ele tem qualidades apreciveis, apesar do outro mandar um bocado no Governo. Preo difcil, no  mesmo?
   O grupo dissolvia-se, Francelino Almeida despediu-se:
   - Obrigado, meu Henrique, mas hoje vou dispensar a carona. Tenho um compromisso no Centro.
   - Galante? - indagou, pilhrico, Henrique Andrade.
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   O velho desconheceu a pergunta:
   - Simpatizo muito com esse General.

   A qualidade mais sedutora do General Moreira, motivo da crescente simpatia do Decano, costureira de profisso, secretria de mentira, dirigia-se naquele momento para a Cinelndia, onde tinha encontro marcado na Brasileira com o ex-Embaixador no Japo e na Sucia, prosa agradvel, tendo muito a contar sobre curiosos aspectos da vida no Oriente e na Escandinvia, galanteador, mos um tanto trmulas mas ainda maneiras e empreendedoras.

    - Minhas vivandeiras esto minando as foras inimigas... comentou Mestre Portela, embarcando no carro de Henrique. Iam jantar naquela noite, com dona Rosarinho e dona Julieta Andrade, no Cassino da Urca, onde se exibiam a fabulosa orquestra de Carlos Machado, os Brazilian Serenaders e aquele jovem e extraordinrio Grande Othelo, positivamente um gnio.

O CONVITE

   Dessa vez, no gabinete de trabalho e despacho, o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira no est sentado de um lado da mesa, o inimigo do outro lado da trincheira, sendo esmagado. Candidato e paraninfo conversam no largo sof de couro, num ngulo da sala. Na parede, mapas da Europa e da frica, os alfinetes de cabea negra avanando mar adentro sobre as Ilhas Britnicas. Na frica, dominam o deserto. Respira-se guerra naquele posto avanado de comando.

   - Antes de ouvir o relato do jantar, deixe que eu transmita ao querido amigo uma boa notcia: a secretria do Prsio telefonou e me pediu que lhe comunicasse que ele o espera na prxima segunda-feira, s dezoito horas.
   - Onde?
   - Em casa, j no vai ao Instituto de Fsica onde costumava receber as visitas. Mora no Cosme Velho.   ,
   - Sei, o endereo est na sta.
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

   - Vai lhe entregar pessoalmente o voto, o mais cobiado da Academia. Uma vez, ouvi um candidato dizer que no se importava com a derrota pois tivera o voto de Prsio Menezes. O querido Agnaldo vai ser o ltimo a merecer tal consagrao provinda de uma das maiores personalidades da cincia mundial, um gnio. Os historiadores, no futuro, recordaro este detalhe. - Deu tempo para o Coronel tomar plena conscincia da significao do voto do sbio moribundo e da visita histrica resultante de seu empenho: - Agora, o jantar...

   - Ainda no. Tambm eu tenho uma comunicao a fazer, caro Lisandro. - Ps-se de p, marcial e solene; o Desembargador, imitando-o, se levantou, excitado; um pressentimento, sbita esperana: seria o ambicionado convite? Pareceu-lhe celeste a voz declamatria do Coronel: - Quero que seja o leal amigo quem pronuncie o discurso de recepo na minha posse. E no admito recusa.

   - Eu? Receber o querido amigo? No imagina com que alegria cumprirei essa honrosssima incumbncia! Estou extremamente comovido. Permita-me abra-lo, meu Agnaldo! - Punha lgrimas na voz. Assim criara os filhos, abrira caminho na vida, subindo degrau em degrau at s alturas onde chegara. Naquele instante vislumbrou o cimo supremo a atingir em breve, graas  campanha e ao discurso. Bruno falecera na hora exata.
   Aps o abrao que selava aquela amizade para a vida e para a morte, novamente sentados, Lisandro revelou:

   - Veja que coincidncia: sem esperar essa grande prova de estima e confiana que acabo de merecer, comecei, por simples prazer intelectual, a reler sua obra mpar, a estud-la, pretendendo escrever um ensaio sobre ela. Utilizarei no discurso as anotaes que fiz para situ-la no seu devido lugar na literatura brasileira contempornea. Falta-me apenas seu livro de poemas, no consegui obt-lo nem no sebo do Carlos Ribeiro.

    - Pecados da mocidade, versos romnticos. Basta que se refira ao livro de passagem, cite o ttulo. Vou ver se consigo um exemplar Para lhe oferecer. - No tinha inteno de cumprir a promessa; versos romnticos, superados, no condiziam com um lder de sua estatura. Lisandro conseguiu dominar a emoo:
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   - E o gape? Sei que no falaram na eleio, o assunto  tabu para o Presidente, o convite para jantar significa a declarao de voto.
   - E verdade, no se falou de eleio e voto, segui  risca suas instrues. Ele contou que foi contnuo do jornal, antes de ser dono. Depois a mulher dele se meteu a elogiar, imagine quem! Esse excomungado co ingls que atende por Churchill. - Sorriu, contente de si: - A eu lhe dei uma lio sobre a guerra...
   - Discutiram sobre a guerra? - Alarmou-se Lisandro: Tnhamos decidido evitar temas polticos.
   - No se assuste. Tudo correu bem, ela entupiu, no respondeu. Leve em conta que no fui eu quem puxou o assunto.  preciso reeducar essa gente, caro Lisandro.

   O Desembargador engoliu as objees e as crticas, o mal estava feito, o erro cometido, no adiantava discutir. Churchill, De Gaulle, os maquis na Frana, o estico povo ingls, os impvidos cidados de Londres, toda essa gente luta a favor do General, ameaa o Coronel. Ainda assim, na contagem feita ao final da conversa, Lisandro previu a vitria de Sampaio Pereira por vinte e oito votos contra onze. Margem ainda mais larga lhe daria se pudesse, para agradecer o convite to avidamente esperado; em verdade j redigira o discurso, pea de flego, obra-prima da lisonja.
   - Que sejam vinte e sete contra doze, fao questo  de ter mais do duplo da votao do Linha Maginot. Sem o que, me sentirei derrotado.

PRIVILGIO

No domingo, dia de descanso, Lisandro burilava o discurso de recepo, quando foi chamado ao telefone por Sampaio Pereira. Pelo torn de voz, deu-se conta de que o Coronel j estava a par da desagradvel notcia. Assim era:
   - Acabo de saber que o Presidente convidou o Moreira para jantar. O que significa essa comdia?  insuportvel!
   - Churchill, querido amigo...
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR

   - O qu? Que quer dizer com isso? Foi a mulher dele que comeou... Considero a atitude do Carmo verdadeiramente intolervel.  um desfrute, uma chacota. Uma canalhice.
   Com a canalhice do Presidente, ao sapo-cururu atravessado na garganta, o 
Coronel Sampaio Pereira juntou uma cobra venenosa a sufocar-lhe o peito, cascavel de picada mortal.
   - Tenha calma, no se exalte, vamos conversar. Mesmo que ele falhe, teremos vinte e sete contra doze, trs mais que o duplo, sem contar que o voto do Prsio vale por cinco.

    Lisandro soubera, na antevspera, do estranho convite do Presidente ao General e concluiu que a discusso sobre a guerra o levara a modificar o voto. O querido Agnaldo no se convencera de que candidato  Academia no pode ter opinio prpria, muito menos manifest-la. Compete-lhe ouvir e, se no puder apoiar e aplaudir, deve ficar mudo, sorrindo. Jamais discutir, contestar. Dono do voto, o Acadmico tem sempre razo. Essa  uma prerrogativa dos Imortais.

MARCHA FNEBRE

Surpresa, a moa sria e bem-posta - criada? secretria? parenta? demora-se um instante a reparar na movimentao dos agentes do corpo de segurana que saltam dos carros e ocupam a rea em frente  casa. Com um gesto, convida o. Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, o uniforme repleto de condecoraes e medalhas, a segui-la atravs do corredor imerso numa semi-obscuridade.

   Leva-o para a biblioteca. Pejadas de livros, as estantes cobrem as paredes, elevando-se at o teto. Os livros sobram por toda parte: amontoados no cho, em cima das cadeiras, abertos na pesada mesa de trabalho. Nos espaos vazios, entre as janelas (atravs das quais avista-se o Largo do Boticrio), trs grandes pinturas cuzquenhas e sobre uma peanha antiga a imagem secular de Nossa Senhora do Leite, o seio exposto, dando de mamar ao Menino. Num ngulo das estantes, est um cavalete de pintor e nele um quadro moderno, retrato de Prsio Menezes assinado por Flvio de Carvalho, em cores quentes j e pinceladas violentas, a cabeleira revolta e a barba longa enredando-se,
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misturando-se ao sol e s estrelas, os olhos de fogo, Jpiter brandindo o raio, Vulcano forjando o inferno. Sobre a mesa, flores alegres num jarro de cristal. 
   
   O Coronel sente-se perturbado, invadido por inesperada e molesta sensao de insignificncia. Busca reagir ao desconfortvel sentimento, concentrando-se nos acordes de piano provindos de sala vizinha. Conhece aquela melodia, onde a ouviu? Com os correligionrios e companheiros de Santa Catarina, em festas de confraternizao, escutara concertos de msica alem, soubera da admirao do Fhrer por Richard Wagner. Quem sabe, foram compostas por Wagner essas notas marciais, anunciadoras do triunfo final.
   - Tome assento. O Professor no demora.
   - Essa msica?  de Wagner, no ?
   A moa parece estranhar a pergunta, tarda a responder, o olhar fixo nas rutilantes condecoraes, que coisa!
   -Wagner? No.  aTerceira Sinfonia de Beethoven, a Herica. Muito conhecida. - Acrescenta, querendo talvez se antecipar a novas perguntas: -  dona Antonieta quem est tocando, ouvi-la  um privilgio. Com licena...

   Criada, parenta, secretria? Insolente, o tom professoral de quem ensina o b-a-b a um ignorante. Lana uma ltima mirada s condecoraes, sai, deixando-o sozinho e ainda mais diminudo: msica muito conhecida, o privilgio de ouvir a exmia Antonieta Novais Menezes, afastada das orquestras e dos palcos havia tantos anos. Informado pelo previdente Lisandro, sabe ter sido ela, em tempos idos, aclamada concertista.

   Em verdade, no existe motivo real para sentir-se assim complexado na penumbra do inusitado ambiente onde cada objeto revela saber e gosto, grandeza sem ostentao, austeridade sem tristeza. Na certa, a par de sua visita, a egrgia Senhora, num gesto de amvel acolhimento, sentara-se ao piano, concedendo-lhe aquela regalia. Viera receber um voto praticamente garantido: o sbio dera a entender ao Desembargador que desejava entreg-lo em mos. Em paga, para homenagear o ilustre cientista, o Coronel envergara o primeiro uniforme, coberto de condecoraes e medalhas, o voto de Prsio Menezes vale por cinco. Mas o fardamento de gala e os crachs 
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destoam em meio  livraria, aos quadros,  Santa de devoo extinta. Talvez, se houvesse seguido o conselho de Lisandro - v vestido  paisana,  melhor - sentir-se-ia mais  vontade, menos opresso e aturdido.

   Beethoven pode ser muito conhecido mas  de Wagner que o Fhrer gosta, h de ter razes para a preferncia pois no se engana jamais, infalvel ao opinar sobre guerra ou sobre arte. No  a guerra a arte suprema, a mais bela? Cessam os sons do piano, o Coronel examina com repulsa o retrato no cavalete, arte degenerada. Afasta o olhar, no adianta, continua a ver aquelas pupilas de fogo que o perscrutam, intolerveis.

   Retorna o piano, o ritmo mudou, cadncia de marcha fnebre. Fugindo do retrato, perseguido pela msica poderosa, o Coronel Sampaio Pereira levanta a vista e depara com a Morte enquadrada na porta, a fit-lo, as mesmas pupilas de fogo. Estremece.

   Passos lentos, a terrvel viso avana to devagar que para esper-lo o tempo se deteve. Gigante disforme, antes da enfermidade era um possante atleta; agora, um esqueleto recoberto de pele macerada; a longa barba e a revolta cabeleira fizeram-se ralas; os dedos compridos so apenas ossos; as roupas folgadas acentuam a destruio do corpo. Rosto macilento, cor de cera, face de defunto.

    Passo a passo, Prsio Menezes se aproxima. Espavorido, o Coronel ergue-se da poltrona, as medalhas se mexem no peito da tnica. Distantes porm audveis, os sons da marcha fnebre
   - Sente-se - ordena a voz cavernosa, sepulcral.
   
   No oferece a mo, garra informe. Deseja evitar ao visitante o desagradvel contato dos dedos descarnados, reflete Sampaio Pereira, agradecido. Ocupa uma cadeira, espaldar e braos de jacarand, assento de couro, diante da poltrona do Coronel. Com um gesto breve, autoriza o espavorido candidato a falar. Esforando-se para superar a insegurana, o Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, candidato a membro da Academia Brasileira de Letras, inicia a declamao do texto rotineiro acrescido de louvores ao Imortal to prximo da Morte e com ela se confunde. 
  
   O professor de Mecnica Celeste ouve em silncio, os luminosos olhos semicerrados. Os acordes vo e vm, sobem e descem, perturbam
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a exposio do postulante. Por que a pianista no escolheu msica de Wagner se realmente pensou proporcionar-lhe um privilgio? Titubeante, o Coronel chega ao fim do peditrio: espera merecer a honra insigne do voto do incuto Acadmico, confia em que no tenha ainda se comprometido.

   -Meu voto est decidido, faz tempo. -A voz surda e vagarosa, cada palavra custa um esforo: - Desde j lhe informo que no votarei em seu adversrio, o General que aqui esteve, h dias. Nada tenho contra ele, pessoalmente, mas a literatura que comete  de ltima qualidade. Por isso no voto nele. - Sem se elevar, a voz se impe. Resta-me muito pouco tempo de vida mas antes de morrer desejava v-lo pois sei tudo quanto se refere ao senhor, Coronel Agnaldo Sampaio Pereira.
   Pela primeira vez desde que atravessou os umbrais da porta da casa do Cosme Velho, o Coronel respira com certo alvio. Chegara o momento solene e glorioso da declarao de voto; a carta redigida com antecedncia deve estar sobre a mesa, batida  mquina pela secretria. Aguarda, os nervos tensos, tentando no escutar os acordes do piano, maldita regalia.
   Prsio Menezes levanta a mo esqulida, aponta com o dedo o peito de Agnaldo, estuante de medalhas: 
   - Onde est a Cruz de Ferro?
No deixa tempo para a resposta, o dedo se eleva  altura do rosto do estupefato Coronel:
  -A nica que o senhor deve usar, sobre o corao. Numa tnica da Gestapo, no em farda brasileira.
   Perplexo, o Coronel balbucia: 
   - O que quer dizer?
   Prsio Menezes apia-se nos braos da cadeira, com ele se levanta a Morte:
   - Como se atreve a esperar meu voto? O senhor, um nazista! O contrrio da cultura, o oposto do brasileiro.
   Os sons da marcha fnebre, a voz de sepulcro, arrancada das entranhas enfermas, longas pausas entre as frases, asco mortal em cada palavra:
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   - Todos temos dois lados, um bom, um ruim. Pior do que um rob, o senhor  um homem pela metade, torturador de presos. O senhor ter por acaso esposa  e filhos, pessoa a quem ame? No creio. Algum que o ame? Ningum, os que o servem fazem por medo ou interesse. Algum dia o senhor amou, sentiu afeto por uma mulher, sorriu para uma criana, teve um momento de ternura? Ou sempre foi assim, um desgraado? O senhor est podre e cheira mal. Meu voto? Como pde imaginar que eu votasse corn a Gestapo? 
   A voz, at ento lenta e surda, se alteia, medonha: 
   - Fora daqui, antes que eu o esbofeteie!

   Levanta a mo, os dedos da Magra erguidos em direo ao rosto do desfigurado candidato. O Coronel Agnaldo Sampaio Pereira recua de costas, crescem altssimos os acordes da marcha fnebre. A Morte avana para o Coronel que sai em disparada corredor afora, atravessa a porta da rua, aberta pela secretria, cai nos braos dos gorilas de sua segurana, arria no assento do automvel, cobre o rosto com as mos.

O SEGUNDO-TENENTE

Ao acordar e descer da cama, dona Hermnia espanta-se ao ver o marido ainda deitado, em sono profundo. A essa hora, tendo feito os  exerccios para manter a forma, tomado a ducha de gua fria, vestido a farda, engolido o caf, devia estar no Ministrio, jamais se atrasou. Excetuando ocasies excepcionais, somente tarde da noite, por vezes de madrugada, dona Hermnia punha os olhos em Sampaio. O Coronel dizia e repetia com nfase espartana que no se pertencia -
seu tempo, seus cuidados, sua vida pertenciam  causa. Dona Hermnia
se habituara. 

   O sono do esposo parece-lhe por demais tranqilo. Aproxima-se, toca-lhe o rosto com os dedos, estava morto.

   Metido no pijama, os olhos redondos e ingnuos semi-abertos, no se assemelha a heri tombado no campo de batalha, a personagem maniquesta smbolo do mal e do obscurantismo, SS nazista, chefe da
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Gestapo armado de chicote. Apenas um pobre homem morto, estendido na cama, igual a tantos outros.
  
   Lembra algum. Dona Hermnia vai buscar uma face no passado - parece o jovem segundo-tenente tmido e apaixonado que ela conhecera havia muito tempo, num outro tempo; declamava versos suplicando um beijo. Dona Hermnia de repente se recorda, comea a chorar baixinho. 


FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
III
GUERRILHA NA ESPLANADA DO CASTELO
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
OPINIES IMPUBLICVEIS

Enterremo-lo com grandiosidade e urgncia, assim ficaremos livres dele o quanto antes e para sempre, aconselhou o Diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda, a cuja duplicidade poltica j se fez referncia anterior. Acabara de liberar a nota oficial da Chefia do Governo anunciando a morte do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, na qual era feito o elogio do bravo soldado da Ptria, portador de extraordinria folha de servio, cuja dedicao ao regmen constitura fator essencial na garantia da ordem e no esmagamento da ameaa comunista.

   O redator quis saber, para efeitos do noticirio a ser divulgado pela Agncia Nacional: 
   - O Homem acompanha o enterro? Ou apenas comparece ao velrio?
   - Quem? O Presidente? Voc est louco, nem enterro nem velrio. Reconhecia a utilidade de nosso finado Goebbels mas tinha-lhe horror. Esse Pereira fede a Idade Mdia, me disse certa vez.
   Diante da confidencia, o redator adulou:
   - No dia em que o senhor puder escrever suas memrias, que livro, hein, doutor?
   - Se eu tivesse memria, no ocupava esse cargo, meu filho. Sou surdo, mudo e amnsico. S no sou impotente. Ainda.
   To cnico, por que eu o acho simptico?, interrogou-se o redator, arriscando o comentrio ouvido nas redaes, ninhos de agitadores:
   - Odiado como era, o Coronel at que deu sorte. Morreu na cama, de morte natural. Porque, se um dia houvesse uma reviravolta, com ele vivo, no escapava do peloto...
   - Na cama, sim. De morte natural, quem lhe disse? Morreu envenenado, pouco a pouco. Cicuta, para estar a carter com o ambiente.
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   Revelao sensacional, provinda de quem sabe. Ah!, que sensao quando o jornalista a espalhar entre os colegas! Bem se diz que nos bastidores do Estado Novo, na luta pelo poder, acontecem coisas medonhas:
   - Envenenado? com cicuta? Como? Por quem?
   - Pelos velhinhos da Academia. De dose em dose, aumentando a cada dia. O ltimo clice foi Prsio Menezes quem lhe deu a beber.
   O olhar meio vesgo do Diretor se perdeu pela janela sobre a paisagem de cimento armado:
   - Um grande homem, esse Prsio Menezes, um gnio. Sabe que em Princeton ele descobriu e localizou duas estrelas at ento desconhecidas? Povoou o cu... - sorriu: - ...e o inferno tambm.

CANDIDATO NICO

Logo aps a morte de Antnio Bruno, Lisandro Leite prometera ao Poderoso Coronel Sampaio Pereira as regalias da candidatura nica. Com a morte do Coronel, enterrado com ruidoso estardalhao de tanques, soldados, toques de clarins, discursos e salva de tiros, tudo isso oito dias aps o encerramento das inscries, quem se encontrou de sbito candidato nico foi o desacreditado e sortudo General Waldomiro Moreira.

   Soube do passamento do adversrio (e inimigo) atravs de telefonema do fiel Sabena, copidesque na redao do Dirio da Tarde, onde passava cinco horas dirias corrigindo o portugus das matrias escritas em caanje pelo bando de analfabetos da reportagem e do noticirio. 

   - Alvssaras, meu General! Quero ser o primeiro a cumprimentar o novo Imortal.

   Ai, o corao do General Moreira, mquina cansada! Dispara com facilidade, necessita permanente controle, as emoes devem ser evitadas. Impossvel faz-lo em tais circunstncias, em plena batalha eleitoral. Que sucedera? Afrnio Portela admitia a hiptese do calhorda do Pereira retirar a candidatura.
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   -Ele retirou-se? - Ele e no Goebbels Pereira ou outras alcunhas aviltantes; o General est com o telefone sob censura desde que se inscrevera para disputar a vaga de Bruno. Um amigo o avisara, recomendando-lhe prudncia nas comunicaes, a ele e  estouvada Ceclia.
   - Bateu as botas. Morreu. 
   - Hein? Quando? 
   A taquicardia cresce, onde se meteram Conceio e Ceclia? Precisa de uma delas para lhe trazer remdio e gua.
   - Amanheceu morto. O enterro sai s cinco, vai ser espetacular, com discurso do Ministro, desfile de tanques e salva de tiros. Agora,  com as inscries encerradas, sem concorrente, o nobre amigo est eleito por antecipao.
   Por sorte, dona Conceio surgiu na sala, saiu correndo em busca do medicamento. Ao saber-se eleito, o General escapou por pouco do enfarte.
   Fora de perigo, recostado na espreguiadeira, eufrico comunicou  esposa e  filha-Ceclia surgira com a cara besuntada de creme, no incio de demorada maquiagem, era dia de encontro com Rodrigo a  auspiciosa novidade:
   - Diante de vocs est o General Waldomiro Moreira, membro da Academia Brasileira de Letras, um Imortal!
   Posteriormente, dona Conceio lastimou-se: por que no se l morre na hora certa?

A MILITANTE

Ao tomar conhecimento da morte do Coronel, atravs do Jornal do Almoo, da Rdio Carioca, Maria Manuela ligou para Afrnio Portela, pedindo para v-lo se possvel naquele mesmo dia. Aps a morte de "nino haviam mantido longas conversas telefnicas nas quais o romancista a colocava a par dos vaivns da batalha. Solicitou o encontro, vida por detalhes sobre a sensacional notcia e desejosa de
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JORGE AMADO
comunicar pessoalmente sua prxima partida do Brasil, estava de malas prontas.
Bar discreto, no ltimo andar de alto edifcio na Praia do Flamengo, com vista para a baa, prximo  casa do romancista, superlotado  noite, quando exibia atraes de classe - Slvio Caldas, Dircinha e Linda Batista, Dorival Caymmi, a mexicana Elvira Rios, Lamartine Babo, as picantes Irms Pagas -, nos fins de tarde a freqncia do Prive era diminuta: um ou outro casal apaixonado e ilegtimo, aos sussurros. Sentados ao lado da balaustrada, o romancista e a portuguesa contemplam o enterro que desponta no Russel, precedido pela banda de um regimento, cadncia de msicas fnebres. Em cima de uma carreta militar, o caixo recoberto pela bandeira brasileira. Soldados a p e a cavalo, um contingente da Polcia Especial nos novos veculos alemes, carros possantes e motos rapidssimas; os grandes automveis negros com personalidades oficiais. Dois tanques de guerra encerram o cortejo. O Coronel Sampaio Pereira reassumira o posto de comando. Maria Manuela olha, fascinada. Reclama explicaes:

   - Morte repentina, no foi? Qual a causa?
   - Eu diria: morte inesperada. A causa? Que outra poderia ter sido seno a batalha em que estvamos empenhados? Confesso que no a esperava, o objetivo visado era outro. Mas faamos justia: o Coronel morreu em combate.
   - Por favor, meu amigo, troque essas charadas em mido. Morreu em combate, como? O Mestre no esperava a morte dele mas esperava outra coisa, o qu?
   - A desistncia. - Retirou os olhos do enterro, preferia a viso da formosura melanclica da derradeira amante de Bruno: -Sampaio Pereira no passava de um tolo, cheio de empfia, julgando-se todo-poderoso, convencido de que ningum teria coragem de se opor a seus desejos. A estratgia era lev-lo  renncia,  retirada da candidatura; a ttica aplicada foi esvazi-lo, atravs de uma srie crescente de decepes e malogres. A cada golpe recebido, ia se irritando, se consumindo, corrodo por dentro. Pensou ser candidato nico, teve concorrente. Sonhou com eleio unnime, o sonho gorou. Depois, comeou a perder votos considerados certos, a sentir
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
a repulsa  sua candidatura. Figueiredo o destratou, Evandro nem se fala. Aturdido, humilhado, viu-se perdido. 
   - Estava derrotado?
   O cortejo prossegue lento e solene conduzindo o heri  trincheira da imortalidade! (como disse o Ministro na vigorosa orao  beira do tmulo), o trnsito parado para lhe dar passagem, grupos de curiosos nos passeios.
    
   - Ainda no, longe disso. No sei se o derrotaramos caso chegssemos  eleio. Duvido. Motivo por que toda a campanha foi planejada para que se sentisse desmoralizado, repelido e, temendo a derrota, abandonasse o pleito. O lance dos jantares do Presidente, uma obra-prima, deixou o Sampaio Pereira em pnico. Ns o fizemos engolir sapos e cobras para que vomitasse a candidatura. Engasgou, morreu de sufoco.

    Os sons da banda se dissolvem no ar, o enterro atinge a Avenida da Ligao, comea a desaparecer.

  - Custou trabalho convencer Prsio a receb-lo, tal a repugnncia que sentia pelo Coronel. Ele o fez por amor a Bruno e, por amor a Bruno, Antonieta sentou-se ao piano e executou a Marcha Fnebre da Herica. Falei com Prsio ontem, pelo telefone, e ele me disse que temia se haver excedido. Quando o tipo lhe pediu o voto, Prsio ficou fora de si e ameaou esbofete-lo, Sampaio Pereira saiu correndo. Dose fatal, pelo visto. E isso que no chegou a me visitar... De qualquer maneira, minha linda menina, a memria de nosso Bruno est a salvo, cumpri minha promessa: fizemos o possvel e o impossvel. Valeu a pena. 
   Maria Manuela tomou a mo de mestre Afrnio e a beijou:
   - Gostaria de beijar tambm a mo do professor Prsio. A sade dele? No h mesmo esperana...?
   - Nenhuma, infelizmente. Temo que essa tenha sido sua ltima contribuio  cultura brasileira.
   -Agora, sim, posso viajar descansada. Afonso, meu marido, foi promovido a Embaixador e designado para a Venezuela. Seguiremos diretamente daqui, arranjo de meu Pai para evitar que eu corra os perigos da travessia martima para Lisboa. No prximo ms devemos Partir, iremos por Manaus.
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    Em silncio contemplaram a paisagem deslumbrante: o mar da Guanabara, as ilhas, as montanhas, as praias, o casario de Niteri, distante:
   - Sabe onde conheci Antnio? Em Niteri... Uma coisa to
gira... Se tem tempo para ouvir, eu lhe conto.
   - Hoje  meu primeiro dia de descanso desde que Bruno morreu e a menina me procurou na hora do jantar. Agora, tenho todo o meu tempo livre e adoro ouvir histrias da carochinha.
   Um sorriso quase brejeiro cortou a melancolia do rosto de Maria
Manuela:
   - Tem razo, foi um conto de fadas  moderna, com poltica e esposa infiel, fada absurda. - Fez uma pausa, antes de perguntar: Sabe que sou uma perigosa militante anti-salazarista, pois no?
   - Bruno me mostrou um poema no qual se referia a uma deusa do Olimpo empunhando a foice e o martelo. Um poema delicioso.
   - A Deusa e o jogral, um dos primeiros que escreveu para mim. Pois bem: eu tinha um encontro marcado em Niteri com um companheiro, um exilado que deveria me entregar documentos para serem remetidos a Portugal. Na minha posio, disponho de meios...

   Filha de Ministro de Salazar, nora do maior banqueiro do pas, esposa do Conselheiro da Embaixada de Portugal, encontrava-se em situao privilegiada para combater o fascismo: dentro do covil do inimigo, ouvindo informaes confidenciais, conhecendo os agentes da PIDE em atividade no Brasil, podendo usar a mala diplomtica para sua correspondncia pessoal. Afrnio Portela olha absorto para a mulher sentada diante dele: distino, finura e elegncia, endeusada pela crnica social, rainha nos sales da sociedade carioca e do corpo diplomtico - quem a imaginaria s voltas com subversivos, agindo na clandestinidade, praticando aes ilegais? Eis a um tema para romance, to convidativo que ele se sentiu tentado a voltar  fico.
   
   - O ponto era num bar, no Saco de So Francisco. Cheguei primeiro, conforme combinramos, dirigi-me ao posto de tabaco,  comprei cigarros, o companheiro apareceu assustado, quase correndo. Entregou-me o envelope e me disse que estava sendo seguido. No deixe que o pide a veja, ordenou-me e se tocou porta afora. Meti o
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envelope na bolsa, como fazer para evitar que o policial me visse? J pensou se ele me reconhecesse?  
   Mestre Portela saboreou o suspense, que cena de romance!
   - E da?
   - Sentado a uma das mesas vi Antnio que bebericava, certamente  espera de alguma mulher. Eu o conhecia de fotografia e leitura, adorava os versos dele desde meus tempos de estudante. No vacilei, ocupei uma cadeira a seu lado e, sem maiores explicaes, lhe disse que no podia ser vista nem reconhecida por um tipo que ia passar em frente s portas e esquadrinhar o interior. Ele no fez perguntas. O pide pode ter desconfiado de qualquer outra pessoa, menos de mim, cujo rosto no pde sequer vislumbrar, encoberto que estava pelo de Antnio, nossas bocas unidas no maior beijo do mundo... Deixou-me ir depois, num txi, sem perguntar quem eu era...

   Afrnio Portela via-se construindo o romance: quem sabe tomaria da mquina de escrever, das resmas de papel em branco e, pondo de lado as fichas sobre os poetas da Inconfidncia, buscaria recriar aquelas intrigas polticas, o ambiente da Embaixada de Salazar, as dificuldades dos exilados, a derradeira paixo do poeta, o enigma de Maria Manuela?
   - No dia seguinte, recebi um livro com dedicatria extremamente formal, acompanhado das mais belas orqudeas que j vi. O telefonema veio mais tarde... Foi Antnio quem me revelou o amor. Antes, eu era somente a militante, ele me completou, me fez mulher. A salva de tiros, ao longe, na distncia. Caa a primeira p de terra sobre o corpo do Coronel Agnaldo Pereira Sampaio.

JORGE AMADO

A DAMA DE NEGRO
I

A princpio relutou. No por deferncia ao esposo ou respeito ao matrimnio. Nenhum afeto a ligava ao marido, indolente insignificante e frvolo, sequioso de distines e honrarias, cuja maior aspirao consistia num ttulo papalino de nobreza a adquirir assim herdasse sua parte na imensa fortuna do pai, construda nas colnias com o suor dos negros, multiplicada na metrpole com a merc do Governo. Tamanha ambio de aristocracia levara Afonso Castiel  carreira diplomtica, atividade nobre, deixando aos irmos a responsabilidade da chula gerncia de bancos, empresas agrcolas e industriais; e a casar-se com Maria Manuela Covo Silvares d'Ea, rgio rebento de famlia antiga e fidalga, com braso e divisa: Nas mos de El-Rey coloquei minha vida e minha honra. Ah!, se pudesse, Afonso adotaria os patronmicos ilustres da esposa, em lugar de lhes acrescentar o seu Castiel, sobrenome com perceptvel odor de gueto, ntimos laos de amizade e finanas ligavam o ricalhao Salomo Castiel ao influente Ministro Silvares, dos Negcios Estrangeiros; gozavam ambos da confiana e da difcil estima do ditador. Quanto ao sacramento do matrimnio, Maria Manuela no o considerava digno do menor respeito, no passando seu casamento de uma tarefa, a mais pesada de todas. Relutou devido  moral proletria, razes ideolgicas.

   Antnio Bruno a identificara no bar, em Niteri. Percebeu que o temor de ser reconhecida e a necessidade de esconder o rosto que a atiraram em seus braos nada tinham de comum com intrigas de alcova. Conjura poltica, quem sabe espionagem? Vira quando o indivduo lhe passara o envelope, junto ao posto de venda de cigarros. A beleza da mulher e o mistrio a rode-la deixaram-no desvairado, num desatino de paixo. No poderia viver se no a conquistasse. Tinha de possu-la, fosse como fosse: boca de rom, colo de cisne.
Empreendeu o cerco usando a totalidade dos recursos acumulados em copiosa experincia. Flores e livros, voz de carcia, lbia
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de mel, o brilho e a graa da conversa, o calor da cobia. Corts e reticente, Maria Manuela no sucumbia, slida fortaleza.

   Bruno conseguiu abrir uma brecha atravs da literatura. Em troca de seus livros, enviados um a um, as dedicatrias cada vez menos formais, recebeu pelo correio o nico volume publicado em vida por Fernando Pessoa: Ao admirado poeta brasileiro Antnio Bruno, esta Mensagem do maior poeta portugus contemporneo, com profunda admirao, a leitora Maria Manuela Silvares Castiel. Bruno ouvira vagas referncias ao colega lusitano cuja popularidade somente aps a guerra se estenderia ao Brasil. Intelectual voltado para a cultura francesa, pouco sabia da literatura moderna de Portugal, alm da grande gerao de Ea, Ramalho, Antero. LeraA Selva, de Ferreira de Castro, conhecia de nome Aquilino Ribeiro, a merencria poesia de Antnio Nobre no o seduzia mas amava a de Cesrio Verde. Fora da, aquela total ignorncia, a assombrar e revoltar os sentimentos patriticos da formosa licenciada em Letras pela Universidade de Coimbra.

   Partindo de Fernando Pessoa e de seus heternimos, alongaram-se as conversas telefnicas, terminando num primeiro encontro no Liceu Literrio Portugus, onde ela chegou, esbaforida e bela, carregada de livros de poesia, ttulos e autores desconhecidos para Bruno. No foram, porm, os poetas lusitanos que ali a conduziram: acedera s splicas do apaixonado porque aquele primeiro beijo, nascido da contingncia poltica, continuava a lhe queimar a boca na qual permanecia o gosto dos lbios e da lngua do poeta brasileiro, debilitando-lhe a vontade, acendendo anseios reprimidos.

   Um jogo de disparates: Bruno exaltado, a falar amor; Maria Manuela, erudita e platnica, a explicar o significado dos grupos reunidos em torno das revistas Qrfeu e Presena, oferecendo-lhe exemplares da Seara Nova. Que jeito, seno usar as mesmas armas? Bruno atacou com Prvert, Breton, Aragon, Eluard, Tzara e, poeta a poeta, verso a verso, a intimidade se imps, doces palavras misturando-se s estrofes; o fogo da paixo incendiou o debate literrio. Com Lorca, no Cancionero Gitano encontraram cho comum, terra propcia onde o amor medrou. Trocaram beijos, sentados em banco rstico entre rvores no alto do Silvestre, lendo os Veinte Poemas de Amor y una Cancin Desesperada, de Neruda. 
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FARDA FARD CAMISOLA DE DORMIR
   
    Maria Manuela deixou de resistir, sucumbiu, quando Bruno declamou, a voz dolente, sussurrada, a srie de trs sonetos  maneira de Cames, inspirados por ela: Visitaes de Juno  Vila Real da Praia Grande de Niteri. Que significava exatamente moral proletria? Nunca lhe haviam dado uma explicao correta mas no era, com certeza, manter-se fiel a Afonso, marido alm do mais indiferente s andanas da esposa. Faz de mim o que quiseres, disse a Bruno, vencida e satisfeita.

   Para ele, a derradeira aventura, um desatino, um desvario; para Maria Manuela, o primeiro amor, a descoberta do outro lado da vida dando nova dimenso ao humanismo que dirigia suas aes. Um camarada, Fernando Castro, lhe ensinara a solidariedade, com o poeta Antnio Bruno aprendeu o amor. Antnio me completou, confidenciara a mestre Afrnio no dia do enterro do Coronel. 

   O primeiro amor, tardio, ela andava na casa dos vinte e oito anos. Conheceu um tempo de inteira felicidade - ternura infinita, infinita volpia, libertada. O imprevisto encontro em Niteri sucedera pouco antes do Natal de 39, Bruno faleceu em setembro cie 40, dez meses perfeitos, durante os quais no houve um nico instante que no fosse pleno de harmonia e de beleza.

II

Rompendo com os hbitos feudais da famlia, ao terminar o Liceu, Maria Manuela recusou-se s prendas domsticas, conquistou o  direito  Universidade, inscreveu-se no curso de Letras em Coimbra. Entusiasta, alegre, inteligente, comeou de imediato a participar da vida estudantil. Aps breve e decepcionante etapa de romnticas serenatas  beira do Mondego, ligou-se a grupos de esquerda cuja seriedade a seduzia. Estudante de leis, fisionomia asctica e voz rude,
Fernando Castro encarregou-se de catequiz-la. Enquanto os demais colegas faziam-lhe a corte, desperdiando tempo em declaraes ridculas, ele falava de poltica, da misria do pas e do povo, da  opresso do salazarismo, das injustias do colonialismo, da cupidez do imperialismo cujas garras sangrentas arrancavam as entranhas da nao lusa. Deu-lhe a ler livros proibidos de Marx e Lenin, O Manifesto Comunista, um resumo de O Capital, O Imperialismo, Etapa
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Superior do Capitalismo (e ela os leu, esses e vrios outros); A Me, de Gorki, e os poemas de Maiakovski. Descreveu a saga da Revoluo de Outubro, bandeira e esperana dos explorados, forja de um mundo melhor, sem ricos nem pobres, sem classes, onde a propriedade privada no existisse, todos tivessem comida para saciar a fome e direito aos bens da cultura. Maria Manuela deslumbrou-se.

   Pediu inscrio no Partido e, aps um perodo de provas, indispensvel devido s suas origens, durante o qual a observaram e julgaram, foi admitida sob o nome de guerra de Berta. Feliz, ao voltar de uma madrugada de inscries a piche nos muros da Universidade, entregou-se ao suarento camarada Castro que, arrenegando os rgidos princpios da moral proletria, reabilitou abandonadas teses de amor livre e as ps em prtica. S mesmo um santo de pedra poderia andar dia e noite s voltas com a formosura de Maria Manuela e manter-se indiferente. O camarada Castro era quase um santo. Descarnado, mas no de pedra.

   Sectrio por convico e temperamento, ele a educou na ortodoxia e no dogmatismo, fazendo da camarada Berta uma espcie de freira marxista. Maria Manuela abandonou tudo que significasse luxo, ostentao, requinte, dos vestidos e sapatos caros aos cremes e pinturas, evidncias da podrido capitalista. Limpa de artifcios, resplandecendo na beleza pura da face, na incomparvel elegncia do corpo liberto de atavios inteis, enlouqueceu alunos e professores, inspirando dezenas de maus poemas, pssimas pginas em prosa, canes e fados execrveis. Nada disso a perturbou ou comoveu expresses nscias da burguesia decadente. O duro colcho e a parcimoniosa cpula do camarada Castro bastavam  sua sensibilidade embotada cujo apetite no fora despertado. Importante, apenas a Revoluo, o resto era secundrio. Trancou-se para o sentimento e o desejo.

   Num encontro de dirigentes, na Serra da Estrela, Fernando Castro caiu em mos da polcia. Maria Manuela quis visit-lo, o Partido se ops, ela no entendeu os motivos mas obedeceu ao veto terminante. Continuou em Coimbra, concluindo o curso, prosseguindo no trabalho ilegal. Buscou na poesia substitutivo para a pregao poltica do camarada ausente, cujo discurso, apesar de severo e estreito, continha generosa inspirao. No se interessou por nenhum
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dos companheiros, de estudos ou de ideais. Condenado a larga pena, Fernando Castro no a cumpriu; faleceu no campo de Tarrafal, alguns meses aps ter sido preso. Maria Manuela sentiu profundamente a morte do camarada, no chorou o amante.

   Recebido o diploma, de volta a Lisboa, ofereceu-se para trabalhar na clandestinidade, rompendo com a famlia e o meio em que vivia, tornando-se revolucionria profissional. No somente lhe negaram tal oportunidade: ao ser pedida em casamento por Afonso Castiel, aconselharam-na a aceitar o noivo que as famlias acordes lhe propunham. 

  Conselho, no  bem o termo. O casamento com o diplomata lhe foi imposto, tarefa a cumprir. Tendo contado ao responsvel do organismo de base no qual milhava a risvel histria do pedido de casamento, acrescentando que de maneira nenhuma aceitaria unir-se quele ftuo imbecil, viu-se convocada dias depois para uma reunio altamente responsvel e secreta. Longo percurso de automvel, os olhos vendados, em completo silncio, apenas ela e o desconhecido motorista. Pela primeira vez, Maria Manuela ia se encontrar com um membro do Comit Central. 

   Desceu do carro, o motorista a tomou pela mo e a conduziu, como se fora cega, ao interior da casa. Disse espere aqui e foi embora. Pouco depois uma voz educada e neutra fez-se ouvir: a camarada pode retirar a venda. Diante dela viu um homem de meia-idade, magro, as faces encovadas, os olhos ardentes, ar de apstolo. Prazer em conhec-la, camarada Berta. Estendeu-lhe a mo, depois apontou uma cadeira. Sente-se, ternos muito a conversar. Sou o camarada Neves. Maria Manuela sentiu o corao pulsar mais rpido. Tinha em sua frente o camarada Neves, membro do Bureau Poltico, legendrio dirigente, heri de histrias fantsticas: duas fugas da priso, uma do Forte de Caxias, em Lisboa, a outra de Tarrafal, enfrentando o mar-oceano em primitiva embarcao por ele mesmo fabricada; de sua capacidade terica contavam maravilhas, cursara a Escola do Komintern, em Moscou. Desprendia-se dele um carisma que impunha respeito e obedincia.

   Durante alguns momentos pareceu prximo e humano, ao falar quase com ternura sobre Fernando Castro, falecido no campo de Tarrafal, vtima das torturas a que fora submetido em Lisboa durante 
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
dos companheiros, de estudos ou de ideais. Condenado a larga pena, Fernando Castro no a cumpriu; faleceu no campo de Tarrafal, alguns meses aps ter sido preso. Maria Manuela sentiu profundamente a morte do camarada, no chorou o amante.

   Recebido o diploma, de volta a Lisboa, ofereceu-se para trabalhar na clandestinidade, rompendo com a famlia e o meio em que vivia,  tornando-se revolucionria profissional. No somente lhe negaram tal oportunidade: ao ser pedida em casamento por Afonso Castiel, aconselharam-na a aceitar o noivo que as famlias acordes lhe propunham.

   Conselho, no  bem o termo. O casamento com o diplomata lhe foi imposto, tarefa a cumprir. Tendo contado ao responsvel do organismo de base no qual militava a risvel histria do pedido de casamento, acrescentando que de maneira nenhuma aceitaria unir-se quele ftuo imbecil, viu-se convocada dias depois para uma reunio altamente responsvel e secreta. Longo percurso de automvel, os olhos vendados, em completo silncio, apenas ela e o desconhecido motorista. Pela primeira vez, Maria Manuela ia se encontrar com um membro do Comit Central. 

   Desceu do carro, o motorista a tomou pela mo e a conduziu, como se fora cega, ao interior da casa. Disse espere aqui e foi embora. Pouco depois uma voz educada e neutra fez-se ouvir: a camarada pode retirar a venda. Diante dela viu um homem de meia-idade, magro, as faces encovadas, os olhos ardentes, arde apstolo. Prazer em conhec-la, camarada Berta. Estendeu-lhe a mo, depois apontou uma cadeira. Sente-se, temos muito a conversar. Sou o camarada Neves. Maria  Manuela sentiu o corao pulsar mais rpido. Tinha em sua frente o
camarada Neves, membro do Bureau Poltico, legendrio dirigente, heri de histrias fantsticas: duas fugas da priso, uma do Forte de Caxias, em Lisboa, a outra de Tarrafal, enfrentando o mar-oceano em primitiva embarcao por ele mesmo fabricada; de sua capacidade terica contavam maravilhas, cursara a Escola do Komintern, em Moscou. Desprendia-se dele um carisma que impunha respeito e
obedincia. 

   Durante alguns momentos pareceu prximo e humano, ao falar quase com ternura sobre Fernando Castro, falecido no campo de Tarrafal, vtima das torturas a que fora submetido em Lisboa durante 
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os interrogatrios. Comportara-se heroicamente, nada revelara do muito que sabia, responsvel que fora pelos organismos estudantis de Coimbra. Assumira sua condio de comunista e anunciara aos verdugos a inevitvel dbcle do salazarismo. Um exemplo para todo o Partido, concluiu, retomando o tom impessoal, de comando, a marcar a distncia entre o dirigente e o militante: Agora, falemos da camarada. 

   No decorrer da entrevista, ele a tratou com estima mas sem calor, estima puramente poltica; um nico lao os ligava, a Revoluo, mais nada. Camaradas de Partido, no companheiros, pois ele, membro do Bureau Poltico, decidia e comandava, competindo a ela executar as ordens recebidas. O dirigente conhecia toda a sua atividade anterior, em Coimbra e em Lisboa, fez-lhe elogios e crticas, sem exageros. Explicou, professoral e categrico, que o Partido no a soubera aproveitar como devido. Dada a posio ocupada pelo pai e ao prestgio da famlia, a camarada Berta devia cumprir tarefas especficas - havia muita gente para pichar paredes e distribuir volantes.

   O Bureau Poltico tomara algumas decises a respeito do trabalho da camarada. De agora em diante, ligada  direo, afastada do organismo de base, teria contato permanente apenas com um responsvel do Comit Central que lhe daria assistncia em sua nova atividade partidria. Estavam em plena Guerra da Espanha e a camarada, filha do Ministro dos Negcios Estrangeiros, com livre trnsito nos meios oficiais, poderia ser de extrema utilidade. Sua tarefa consistiria em informar-se e informar. O Bureau Poltico decidira ao mesmo tempo aprovar seu casamento com Afonso Castiel por significar sensvel ampliao da rea onde deveria agir.

   Boquiaberta, Maria Manuela pretendeu discutir. No eram essas as perigosas tarefas para as quais esperava ser designada. No escondeu o desaponto: ia sentir-se mais espi do que revolucionria. A voz do dirigente, fria e cortante lmina de ao, se elevou pondo trmino s queixas e  discordncia:
  - A camarada Berta vem de revelar que ainda no se libertou das influncias pequeno-burguesas, ainda no adquiriu a mentalidade bolchevique. O Partido resolve lhe confiar importante frente de luta, pensando que a camarada se encontra capacitada para ocup-la, e, em lugar de se sentir grata e orgulhosa, a camarada tenta discutir decises
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
do Bureau Poltico. O que deseja? Exibir-se como herona, pichando paredes e distribuindo material de propaganda nas feiras, discursando nos comcios relmpagos? O Partido est lhe dando tarefas,  camarada cabe cumpri-las.

   Antes mesmo de constatar a inutilidade de qualquer resistncia, Maria Manuela se convencera do erro cometido: no passava de pequeno-burguesa tola e romntica, muito longe ainda da fibra e da convico que distinguem os comunistas provados. O camarada Neves, esse sim, era um bolchevique, educado na escola do camarada Stalin. Sentiu por ele imensa admirao:
   - Tem razo, camarada. Procurarei superar minhas limitaes de classe e ser digna da confiana do Partido, fazendo autocrtica na prtica. - Nas mos do Partido, coloquei minha vida e minha honra, sua divisa.
    
   A festa do casamento de Maria Manuela Covo Silvares d'Ea com Afonso Castiel foi o acontecimento do ano, at hoje recordado pela sociedade lisboeta. A noiva, plida e deslumbrante, vestido, vu e grinalda vindos de Paris, assinados por Coco Chanel; a Marcha Nupcial, executada pelo organista Klaus Bergmann, trazido especialmente de Viena, a peso de ouro; o sermo do Cardeal nos Jernimos, louvando a aliana de duas grandes e ilustres famlias, ligadas agora pelos laos do matrimnio, sob as bnos de Deus! A seguir, a recepo, grandiosa, ostentao sem igual. 

  Na cama, o pretensioso e perfumado Afonso a interessou ainda menos do que o acanhado e suarento Fernando. Ao retirar o fraque, o idiota mascarou-se de macho, recomendou-lhe coragem e prometeu agir com o maior cuidado - no tenhas medo, no sentirs nada. Convencido que ia deflor-la e convencido de t-lo feito quando nela se ps e cantou vitria. Maria Manuela estava a par das relaes de Afonso com popular fadista da Alfama, a quem sustentava - a ela e aos seus sucessivos primos, alegres mandries.

   O dirigente tinha razo. Maria Manuela pde fornecer ao Partido preciosas informaes sobre assuntos confidenciais, por vezes secretos, informaes obtidas no gabinete do pai, em casa do sogro, em conversas com o esposo boquirroto. Afonso adorava descobrir e contar os ltimos boatos, recolher disse-que-disse nos corredores do Ministrio, nas ante-salas do Governo. A par de tudo quanto se 
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relacionava com a ajuda de Salazar a Franco, a camarada Berta foi de real ajuda  causa dos republicanos espanhis.

   Com o acordo do Partido, acompanhou o marido ao Brasil, onde ele veio servir no posto de Conselheiro da Embaixada, e passou a ser o correio rpido e seguro entre os exilados comunistas e a direo em Portugal. Um camarada de confiana mantinha-se ligado a ela, o nico a saber de sua filiao poltica. Um ano depois de estar no Rio, conheceu Antnio Bruno naquela tumultuada tarde, em Niteri.

III
Floresceu nos braos do poeta. Em Coimbra descobrira um mundo a transformar, no Rio soube da vida em sua plenitude. Estonteante revelao, quando finalmente, aps tantas negaas, se desnudou no leito de Antnio e pela primeira vez gemeu de gozo e conheceu o espasmo. No tardou a ser a fmea mais completa, a mais voraz, sedenta e esfomeada, buscando recobrar o tempo perdido. Realizada e feliz.

   Realizada e feliz, no abandonou contudo a trincheira da luta antifascista. No diminuiu a fidelidade ao Partido, no descuidou das tarefas, s quais juntou mais uma, por conta prpria - transformar o poeta lrico Antnio Bruno num poeta engajado, fazendo de seu canto arma dos trabalhadores empenhados na transformao do mundo. Citava-lhe o exemplo do chileno Pablo Neruda, aquele dos Veinte Poemas de Amor responsveis pelos beijos iniciais. Cnsul na Espanha durante a guerra civil, colocara seu estro a servio do proletariado em armas.

   A propsito desse constante tema de conversao, Bruno lhe mostrou artigo de um crtico que, apesar de elogiar a qualidade brasileira de sua poesia, acusava-o de desconhecer os problemas sociais e no se definir num mundo convulsionado, em hora decisiva, quando Garcia Lorca, a quem chama de irmo,  fuzilado por Franco, Thomas Mann se exila para no acabar num campo de concentrao de Hitler e Antnio Machado morre no desterro. Artigo publicado por casualidade no derradeiro nmero da revista Para Todos, proibida de circular pelo DIP apesar do prestgio e das relaes de lvaro Moreyra, proprietrio e diretor. Maria Manuela deu inteira razo ao
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articulista: Antnio no estava cumprindo seu dever. Provavelmente a bela e sediciosa portuguesa contribuiu para o discurso que ele pronunciou na Academia sobre a torre de cristal posta abaixo pela guerra.

   Rindo, Bruno anunciava um livro inteiro de poemas de contedo social mas nunca cumpriu a promessa. Escrevia, isso sim, poemas de amor, de desvairada paixo, louco jogral, trovador aos ps da corajosa dama que por ele arriscava honra e fortuna.

   No estava arriscando nada, repetia Maria Manuela; entre ela e o marido existiam apenas os laos formais do matrimnio. Afonso continuava a sustentar cantoras - agora uma espetacular mulata, sambista num dos teatros da Praa Tiradentes, igualmente rodeada de primos, divertidos marmanjos - e se Maria Manuela no tivera outros amantes antes dele, devia-se exclusivamente ao fato de no lhe haver interessado nenhum dos muitos que a cortejaram nos sales. Ameaou inclusive abandonar marido e posio para ir viver com Bruno, na pobreza e na poesia. Para impedi-la de cometer tal loucura, o poeta teve de recorrer a razes polticas. Que pensaria o Partido a respeito? Seriam capazes de expuls-la. Argumento decisivo.

   Aos cinqenta e quatro anos, ainda em plena forma mas percebendo a aproximao da velhice, Bruno sentiu-se cumulado pelo destino com o amor dessa mulher formosa e jovem, culta e valente, nascida fidalga, que se elevara  condio de filha do povo. Ensaiou, s escondidas, escrever os poemas de combate que ela reclamava, no conseguiu, soavam falso. O nico a receber o sopro da criao verdadeira, repositrio de dio, nojo, clera, desespero e esperana, corao sangrando e punho erguido, foi o Canto de Amor para uma Cidade Ocupada, escrito com a inteno de chorar a queda de Paris, refeito para conclamar os povos do mundo  luta contra o nazifascismo, pela libertao de todas as cidades ocupadas, poema de Bruno e de Maria Manuela, cuja primeira cpia ela datilografara. Herana recolhida pela militante coberta de luto, a dama de negro, repartida na hora do desalento maior no Brasil, em Portugal e nas colnias africanas - lido nas selvas de Angola, da Guin Bissau, de Moambique, onde negros em revolta acendiam os fogos das primeiras guerrilhas.
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DILOGO ACADMICO A VOL D'OISEAU

Fino observador, o Decano Francelino Almeida notou de imediato sintomas de mudana na atitude do General Waldomiro Moreira. Sentado num sof, ao lado do Ministro Paiva, do Supremo Tribunal, contemplava a mesa servida, onde vrios acadmicos tomavam ch, caf, refrescos de frutas, comiam bolinhos, torradas e biscoitos, antes do incio da sesso semanal, a primeira aps a morte do Coronel Sampaio Pereira. Em voz baixa, advertiu o amigo sobre o fato:

   - J no  o mesmo, preste ateno. Alguma coisa mudou. Na maneira de cumprimentar, de se dirigir a ns, no trato. Antes, admirador humilde, de fazer gosto. Agora ficou menos sabujo, empinou o peito. Tambm o outro esperou o encerramento das inscries para morrer, deixando-lhe o caminho livre, dando a eleio de mo beijada...
   - Ias votar nele, se o Sampaio Pereira no morresse?
   - Estava em dvida. O Coronel era uma potncia, negar-lhe o voto, uma temeridade. Todavia, o Moreira tem padrinho poderoso... Podia acontecer que eu terminasse cometendo uma loucura...
   O pequeno e magro Ministro, piscando os olhos por causa da luz, baixou ainda mais a voz:
   - Conta-me a verdade, meu Francelino: padrinho ou madrinha?
   - Acertou. E que madrinha! - estalo de lngua, significativo.
   - No me digas que  a mesma...
   - Voc tambm? Voc, voto certo do finado... A secretria?
   - Secretria? Qual? De quem?
   - Do General, to modesta e acanhada, chego a pensar que seja virgem...
   - Essa no conheo. Quer dizer que ele botou a secretria nas tuas pegadas? O que me admira  o prestgio do General junto s mulheres. No tem cara nem jeito...
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   - Quem havia de ser? Aquele adorvel demnio que se chama Maria Joo.
   - A atriz?
   - Ela, sim. Fechou a questo, imaginas uma coisa dessas?
   Riram os dois velhinhos, mansa e alegremente. O Ministro comentou, ainda intrigado:
   - Quem diria que esse Moreira tivesse tais protetoras... 
   Francelino constatou:
   - A verdade  que a morte do Pereira resolveu nossos problemas. Mas, repare no General, nem parece o pobre homem que me visitou. Alis, no deve ser pobre, a julgar pela cesta de licores e biscoitos que me ofereceu.
   - E pobre, sim, vive do soldo. Tudo que tem  a casa onde mora, comprada com sacrifcio. Deve ter gasto contigo o estipndio do ms.
   - Como  que voc sabe tanto sobre ele?
   - Por Maria Joo,  claro. O diabinho me azucrina o tempo todo com as virtudes e as provaes do General, honrado e pobre.
   - Ser? Esses milicos so econmicos e mongamos, tm despesas pequenas, juntam sempre um dinheirinho, fazem seu p-de-meia... A cesta que me mandou deve ter custado caro.
   - Ele j tinha vindo ao ch? Eu sempre o vejo no salo, atento s conferncias. Aqui em cima, no me lembro de t-lo visto.
   - Creio que esteve uma vez, trazido pelo Rodrigo. Todo encabulado, mal provou um cafezinho. Hoje veio por conta prpria, repare no apetite.
  Na mesa do ch o General Waldomiro Moreira falava alto, repetia o caf com leite, dava uma baixa sensvel no bolo de milho. Ao v-lo assim, to descontrado, ningum o julgaria candidato, assumira a condio de Acadmico eleito. O Ministro Paiva, homem de bom viver, voltou ao agradvel tema do mulherio:
   - Aqui para ns: quem tem se regalado  o nosso Rodrigo. A "lha do General  um peixo...
   - Voc diz isso porque no viu a secretria... Mulata divina..  i J43
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   - Mulata? - Dilataram-se os olhos delicados do Ministro, a voz turvou-se de inveja: - Felizardo!
   
   Dilogo na Academia,  espera da sesso. Durante a qual o Presidente anunciou o falecimento do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira; agora apenas um candidato concorria  vaga de Antnio Bruno, o General Waldomiro Moreira. O Acadmico Lisandro Leite fez o elogio do falecido, requerendo inscrio na ata de um voto de pesar.

   Ainda na mesa do ch, sozinho, o General candidato nico engoliu um ltimo pedao de bolo refletindo sobre certas tolices de regras e hbitos: sendo ele praticamente Acadmico, seu lugar era l dentro entre os outros Imortais. Em casos como o dele, no devia prevalecer o pargrafo regimental, em princpio justo, que probe a entrada aos no acadmicos na sala das sesses - no h regra sem exceo.

O DERROTADO

nico Acadmico, um dos raros civis a acompanhar o enterro do Coronel Sampaio Pereira - o querido e assustador Agnaldo -, de retorno do cemitrio, Lisandro Leite encontrou-se derrotado. Pior: sem candidato. Aquela eleio, da qual esperava o mximo, resultar num desastre. Em cima da escrivania, na margem do jornal aberto na pgina com amplo noticirio sobre o falecimento do ilustre oficial e apreciado escritor, candidato  Academia Brasileira de Letras, Pru escrevera com lpis vermelho: J foi tarde! Mal agradecida.

   Levou uns dias sorumbtico, a cara fechada, de pouca conversa. Ao voltar da sesso da Academia, contou a dona Maricia:

   - Requeri um voto de pesar, disse umas palavras. Portela, Evandro, Figueiredo, os outros sorriam, gozando minha caveira. Vitoriosos. Nadando em felicidade, o General Moreira, que apareceu para o ch. O bocado no  para quem o faz,  para quem o come. Trabalheira perdida. E ainda por cima, Pru, essa ingrata...
   - Deixa Pru em paz e no te aflijas tanto.
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   - J contava com a nomeao para o Supremo. 
   - No te preocupes, vais chegar l.
   - Ningum d nada de graa, Maricia,  preciso cavar cada coisa, criar as condies.
   - Conseguirs, tenho certeza. Levanta a cabea, homem! Nunca te vi assim.
   - O jeito  esperar que o Prsio se decida a morrer. Parece de ferro, pelos mdicos j estaria enterrado h muito tempo... A eu levanto a candidatura do Raul Lameira que  ntimo do Homem. 
   - O Homem era o Chefe do Governo: - Com o apoio dele e do Paiva, quem sabe...
   - Ests vendo?  s esperar, tudo tem seu tempo.
   O pensamento de Lisandro tomara por um desvio:
   - Tem uma coisa que eu gostaria de saber...
   - Qual?
   - O que se passou na visita do Agnaldo ao Prsio. Ele tinha ficado de me telefonar em seguida. No telefonou, andei ligando para todos os nmeros dele, no o encontrei em nenhum. Falei depois com dona Hermnia, a carta do Prsio para acompanhar os votos no estava entre os papis que ele deixou.
   - Esquece isso, so guas passadas. Vou te dizer: tenho certeza de que mais dia menos dia hei de ser a esposa do Ministro Leite, do Supremo.
   - E eu s tenho certeza de uma coisa: de que no te mereo. 
   - Tolo!
   De onde vinha a ambio a consumi-lo? Dele mesmo ou de Maricia, loua e serena?

ESCLERECIMENTO HISTRICO

A guerrilha se estabeleceu na Esplanada do Castelo, em torno da Academia Brasileira de Letras, exatamente aps alarmada e significada troca de olhares entre o indignado Evandro Nunes dos Santos, o 
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pincen na mo, e o pasmo mestre Afrnio Portela, na quinta-feira seguinte. Ou seja: uma semana depois da sesso durante a qual o Presidente Hermano do Carmo comunicou ao plenrio o falecimento do candidato Coronel Agnaldo Sampaio Pereira, um ms e meio antes da eleio.

   Ao contrrio do que tem sido veiculado por historiadores menos meticulosos e probos, a guerrilha no se iniciou no mesmo dia do funeral do Coronel. Existiu breve soluo de continuidade entre o dramtico fim da Batalha do Petit Trianon e o incio do recrutamento de voluntrios para a nova jornada. Pouco mais de uma semana, dias tranqilos, quando tudo parecia estar na santa paz de Deus. Os que assim pensaram, no contavam com as mutaes da natureza humana.

   No curto espao de tempo decorrido entre a referida quinta-feira em que o experiente Embaixador Francelino Almeida detectou, na hora do ch, a existncia de sintomas de mudana no comportamento do General Waldomiro Moreira, candidato nico, e a seguinte, aqueles vagos sintomas se transformaram em evidncia clara e ameaadora - sinistra, classificou Evandro -, levando os dois velhos franco-atiradores a conspirativo encontro logo em seguida  sesso na qual os acadmicos discutiram, com a polidez habitual, detalhes da projetada reforma ortogrfica proposta pela Academia de Cincias de Lisboa.

O EX-FUTURO MINISTRO

Apenas entrou na sala de ch, todos puderam se dar conta de que o General Waldomiro Moreira, sem despir a farda, envergara o fardo da Academia. Candidato de contestao a adversrio considerado imbatvel, arrancara as estrelas do generalato, reduzindo-se a soldado raso, obscuro e obsequioso, submissa praa de pr, reverenciando os Imortais, bebendo-lhes as palavras, aplaudindo conceitos os mais diversos, em certos casos opostos aos seus. Tambm ele engolira alguns sapos. O maior de todos, indigesto, na visita a Evandro. O ensasta lhe oferecera um exemplar do polmico volume O Militarismo na Amrica Latina, de contedo negativista - responsabilizava os
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militares pelas desgraas, pelo atraso, pela dependncia dos pases latino-americanos em relao  Inglaterra, aos Estados Unidos,  Alemanha. Impolido, fizera questo de repetir, de viva voz, opinies sobre o papel das Foras Armadas que raiavam pelo insulto. Era silncio, o candidato ouviu, sem contestar.

   Tudo mudou, de repente. Quinze dias atrs, aps um balano dos votos, feito com Afrnio Portela e Rodrigo Incio Filho, fora dormir derrotado, acordara com a eleio garantida, o concorrente batera as botas. A fase da humilhao e dos sapos se encerrara.

   Envergou o fardo sobre a farda na qual estrelas, dragonas e medalhas haviam voltado a brilhar com extrema intensidade, pois, ao se prever Acadmico, reintegrou-se no grau e na autoridade de General. Assim, duplamente fardado, apesar de estar vestido com mal talhado terno de casimira azul, novamente compareceu ao ch Acadmico e tratou com familiaridade os futuros colegas, enunciou opinies, exibiu discordncia. Em relao ao apetite, deve-se levar em conta o magro regmen a que dona Conceio o sujeitava por ordem mdica. Livre do controle da esposa, atirava-se s gulodices; na mesa variada e lauta, fartava-se. 

   Pela segunda vez sucedia ao General Moreira, picado pela mosca azul, avanar intempestivamente, assumindo posies e comandos antes da hora, libertando-se da pesada mscara de humildade para se mostrar como Deus e a carreira militar o tinham feito: arrogante e autoritrio.

  Durante a campanha de Armando Sales de Oliveira  Presidncia da Repblica, seu nome fora mencionado nas previses ministeriais; em caso de vitria do candidato paulista, poderia vir a ocupar a pasta da Guerra.

   O General jamais concebera dvidas sobre a vitria: todo mundo sabia que o escritor Jos Amrico de Almeida, se bem ostentasse o rtulo de candidato oficial, no contava com o apoio do Presidente, o Governo o abandonara  prpria sorte. Ademais, como imaginar que um malcriado sertanejo paraibano, representante de beatos e jagunos, de uma gente explorada, analfabeta e faminta, fosse capaz de derrotar o candidato dos bandeirantes e dos paulistas mais recentes, os grandes latifundirios do caf e os novos industriais de apelido italiano, daquele povo rico, culto e progressista? Nas tribunas dos
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comcios, os oradores repetiam a orgulhosa imagem: So Paulo, possante locomotiva a arrastar sozinha os vages vazios dos outros Estados.

  Convencido da vitria, ainda mais da pasta de Ministro. No um ministro qualquer, da Educao ou das Obras Pblicas. Ministro da Guerra, na prtica a segunda pessoa do Governo, acima dele apenas o Presidente.

   Passou a freqentar o Ministrio, onde era visto, s vsperas do putsch do Estado Novo, sobraando uma pasta preta, repleta de documentos. Visitava secretarias, servios, quartis, na busca de informaes que lhe seriam de utilidade no cargo. Constituiu seu gabinete, substituiu comandos, transferiu, reformou e promoveu. Tudo no papel mas com grande alarde pblico dos planos traados, do programa a ser executado. Chegou ao extremo de convidar alguns oficiais para postos de relevo. 

   Fraco de apoio militar,  possvel que no incio da campanha Armando Sales tenha cogitado do nome do General Moreira, de cuja lealdade no podia duvidar, para aquele alto posto. Mas, se lhe ocorreu tal possibilidade, dela abrira mo, arrependido, bem antes do golpe de novembro enterrar os sonhos e as esperanas no s do General mas de todos aqueles que participavam a srio das campanhas dos dois candidatos  Presidncia. Para compens-lo da dedicao, lhe daria uma boa sinecura: adido militar em Paris, por exemplo, cargo a calhar para um ex-primeiro aluno da Misso Militar Francesa, funo honrosa, sem perigo de comando e situado do outro lado do oceano. Porque o General, alm de pretensioso e mando, era um chato daqueles!

   Na mesa do ch, ouvindo Henrique Andrade se queixar ao Presidente de atrasos da secretria no envio da correspondncia destinada aos acadmicos, o General Moreira declarou alto e bom som:

   - O que est faltando  nossa Academia  um pouco de disciplina militar. Esta Casa no pode dispensar a presena de pelo menos uma figura das Foras Armadas em seus efetivos. Para impor ordem, evitar que a autoridade sofra arranhes.
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   Arranhes, que arranhes? No silncio que se seguiu, o velho Evandro Nunes dos Santos e mestre Afrnio Portela trocaram um olhar. Alarmado e significativo.

OS CONSPIRADORES

Os erros histricos sobre datas e outros detalhes referentes  guerrilha comandada pelo velho Evandro, decerto resultaram do carter extremamente sigiloso das diversas aes empreendidas. Todos os dispositivos foram concebidos e acionados pelos conspiradores na mais secreta clandestinidade. Se em lugar de idosos literatos liberais, Evandro e Portela fossem provados bolcheviques com anos e anos de experincia no trabalho ilegal, nem assim teriam agido com mais eficincia e maior discrio. 

  Para uma conversa reservada no existia stio mais conveniente do que o automvel do romancista. O chofer, Aurlio Sodr, silencioso no banco da frente, estava a servio de Afrnio e dona Rosarinho h mais de vinte e cinco anos, merecendo toda confiana. O carro toma o caminho de Santa Teresa para deixar Evandro em casa. Mestre Portela corta-lhe os indignados resmungos:

   - O que  que voc queria? Que a gente votasse no Sampaio Pereira? O Moreira  apenas um subliterato, o outro era um nazista.
   - Se fosse s subliterato, pouco me importava, no seria o nico. Mas  um prepotente. Eu bem lhe disse: esse negcio de militar no d certo. - Evandro continua fulo: - O candidato perfeito para substituir Bruno  o Feliciano.
   - No discuto, estou de acordo. Mas, no aperto em que estvamos, no nos restava outro jeito seno recorrer a um General. Agora,  ter pacincia e agentar.
   - Agente voc, se quiser, no eu. No sou paciente.
   - E que diabo voc pode fazer? Agora o Moreira  candidato nico.
   - E da? Ele pensa que est eleito mas ainda falta mais de um ms para a eleio...
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   - Voc pretende...? - Mestre Afrnio fita o enraivecido compadre, uma suspeita o assalta, comea a se divertir.
   - Se pretendo! Para que  que existe o voto em branco?
   - Mas, compadre, ns fomos  casa dele convid-lo, insistimos para que se candidatasse... Lemos os livros, elogiamos... No podemos, decentemente...
   - Primeiro: fui  casa dele porque voc me obrigou a ir. Segundo: nunca li urna nica linha escrita por ele, Deus seja louvado! - Ia contando nos dedos. -   Terceiro: apoiei seus elogios para no o abandonar numa situao daquelas. Quarto: eu no sou decente.
   Retira o pincen, leva um tempo a limp-lo:
   - Nem eu nem voc- Nunca vi cara-de-pau igual  sua, elogiando aquelas baboseiras, achando geniais.
   Mestre Portela ri devagarinho. Evandro prossegue:
   
   - Andei lendo um documentrio que saiu nos Estados Unidos sobre a guerra civil da Espanha. Durante a batalha de Madrid, uma mulherzinha de cabelo na venta, uma tal de La Pasionaria, o nome diz tudo, comunista ou anarquista, no sei bem, inventou um slogan e com ele enfrentou os falangistas: No pasarn! Pois eu acabo de adot-lo. Faa voc o que quiser, seja decente, me acuse de salafrrio, diga que convidei o Linha Maginot...
   - Evandro, isto  demais... Um apelido posto pelo Sampaio Pereira!

   - Ouvi do Jos Lvio e gostei, no quero saber de onde vem, se de comunista ou de nazista, alis o Z Lvio  apenas dbil mental. O que lhe digo  que eu sou um civilista, no estou disposto a receber ordens de milico nenhum, nunca fui recruta, nem sequer reservista.
   No olhar de mestre Afrnio, aquela luz de malcia:
   - No se esquea, compadre, que, alm do voto em branco, tem a absteno. - Bate com a mo no ossudo joelho de Evandro: - Uma pequena guerrilha no faz mal a ningum...
   - Quer dizer...? ,
   - Nasci mesmo foi para guerrilheiro... Coloco-me s ordens," meu Comandante. - Reflete um segundo: - Na presente situao, o fundamental  o sigilo. O inimigo no pode ter a menor desconfiana,
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deve se considerar garantido. Quanto mais eleito o Moreira se sentir, mais besteiras vai cometer.
   O carro estaciona em frente ao jardim que circunda a casa de Santa Teresa, Aurlio desce para abrir a porta traseira. Isabel avista os velhos, grita chamando o irmo:
   - Pedro! Pedro! O av est chegando. Tio Afrnio vem com ele. Depois da morte do Coronel ainda no haviam estado pessoalmente com o amigo mais ntimo da famlia, o padrinho de lvaro. Isabel beija os dois velhos nas faces, comenta:
   - Eu disse ao av que tudo ia terminar bem, tio Afrnio.
   - Ainda no terminou, minha linda. Empunhamos as armas, novamente.
Pedro chega correndo, quer saber:
   - Que novidade  essa?
   - Aqui estamos, Dom Quixote, esse velho birrento, vosso av,  e eu, Sancho Pana, seu fiel escudeiro, sados em campanha.
   - E quem  a Dulcinia? A donzela a proteger?
   O velho Evandro Nunes dos Santos atrai os netos para si, foram eles que o convenceram a lutar contra o nazista Sampaio Pereira. Na voz marcada pelo vcio do fumo, uma ponta de emoo:
   - A mesma do Cavaleiro de La Mancha, meus filhos: a liberdade.
   A noite imensa de estrelas nasce entre as rvores do jardim.

A SECRETARIA PERDE O EMPREGO

Afrnio Portela mandou-lhe uma braada de rosas e um carto encontro na mesma leiteria. Rosa desembarcou de um carro Particular, com motorista de tnica e bon. 

   -  A cada dia est mais linda. - Conteve a curiosidade, no perguntou pelo carro estacionado calada   espera. - Vim despedir a secretria do General.
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   -Imaginei que isso no tardaria a suceder quando li a notcia da morte do sujeito. No me alegro com a morte de ningum mas dessa vez no tive pena. Me dava uma agonia quando pensava que ele ia falar sobre Bruno, elogiando da boca para fora, sujando o nome de meu bem.
   - Desse nos livramos, falta nos livrarmos do outro.
   - Do General? No era seu protegido? No inventou essa histria de secretria para eu conseguir o voto de Lindinho?
   - De quem?
   - Do Embaixador. S quer que o trate de Lindinho. Mestre Afrnio explicou a transformao do candidato, o funcionamento da eleio acadmica, o voto em branco, a absteno.      
   
   - Ento, estou despedida? Olhe que j no  sem tempo. Lindinho anda indcil, quer a pulso que v tomar champanha no apartamento dele. Sem falar nos belisces. A sorte  que em minha pele morena as marcas pouco aparecem. Seno...
Mestre Afrnio calcula o valor do automvel; essas mulheres de Bruno o surpreendem e perturbam, no resiste  curiosidade:
   - Seno, o qu?
   Rosa sorri ao v-lo fitar o carro:
   - O senhor conhece,  seu amigo. - Pronunciou o nome de rico fabricante de tecidos, portugus de nascimento: - Vai botar um atelier para mim, na Rua do Rosrio, num primeiro andar. Vou trabalhar por conta prpria.
   - E a argentina?
   - Voltou para Buenos Aires. Quando ele enviuvou, queria que casasse com ela, a pulso... Botou a faca nos peitos dele...
   - Bonita mulher mas que purgante! La senora Delia Pilar, cantante de tangos - sorriu imitando o acento portenho: - Em matria de cantora de tangos, nunca ouvi pior.
   - Madame Picq me enviou  casa dela para provar uns vestidos. Foi l que conheci meu atual... protetor...
   - Quando o encontrar vou lhe dar meus parabns. Livrou-se daquela antiptica, ganhou a mais bela rosa do Rio de Janeiro. Tambm a ti, eu felicito. Trata-se de um homem bom e decente.
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   - Sei disso. Quer apenas um pouco de afeto. Acho que vamos nos entender muito bem. Afeto e respeito, posso dar. - Sorriu com os lbios carnudos, na voz uma ponta de melancolia e ao mesmo tempo de orgulho: - J tive o amor que desejei, basta que recorde aqueles dias para me sentir feliz. Mas, me diga, estou dispensada? 
   
   - Demitida de secretria. Desejo apenas saber umas coisas: ele tem seu endereo? Como se comunica e marca encontro? Por telefone?

   - Pensa que moro num internato de freiras para moas onde tenho que estar antes das nove da noite. Que vim do interior sob a responsabilidade do General de quem meu pai foi ordenana. Inventei umas mentirinhas. Dei o telefone do atelier, com o consentimento de Madame Picq a quem contei a histria, ela achou uma graa, quis colaborar. Lindinho liga sempre na hora do almoo, pensa que  uma freira francesa quem atende e diz que  meu tio. Um divertimento. Me conhece por Beatriz, me chama de Bia. Bia pra c, Bia pra l e tome belisco.

   - Combine o seguinte corn Madame Picq: quando o Embaixador telefonar, ela deve dizer que voc no quer mais v-lo, que ele deixe de procur-la. Ao mesmo tempo Madame deve dar a entender que ali no funciona pensionato nenhum, e, sim, coisa muito diferente, deixar Lindinho - Lindinho, j pensou? - baratinado...
   - Quer que ele imagine o qu?
   - Nada de inteiramente preciso. Basta criar um clima de dvida, de algo pouco srio...
   - Para ele ficar com raiva de meu ex-patro...
   - Exato. E no votar nele...
   - Coitado de Lindinho. Bolina igual a ele no existe. Quando menos a gente pensa a mo est se metendo no decote do vestido ou por baixo da saia. Quando moo, deve ter sido um trem-de-risco...
   - At hoje a fama de Lindinho perdura no Japo e na Escandinvia.
   - E simptico, sabe? Adora contar uma anedota suja...
   - Eu te coloquei num conto, lembras, Rosa? Acho que vou te botar num romance. Antes eu sabia apenas que eras a mais suave e 
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doce das criaturas, agora sei que, alm de suave e doce, s valente e intrpida, destemida.
   - Foi Antnio quem me fez assim. Nasci dele.
   Afrnio Portela recordou o verso: rosa de cobre, rosa de mel, rosa menina. - Beijou-lhe a mo: - Rosa de Bruno.

DESACORDOS IDIOMATICOS

   - Voc leu isso? - R. Figueiredo Jnior estende o exemplar do Correio do Rio ao Presidente: - Passei por aqui para lhe mostrar. Aponta com o dedo a coluna Em Defesa da Lngua Portuguesa, consultrio gramatical onde o General Waldomiro Moreira ensinava aos povos ignaros como escrever em portugus castio, em depurado vernculo. 
   - No, no li. Por ora no tenho obrigao de faz-lo pois o articulista ainda no pertence  Academia, se bem ele pense o contrrio. Falta-me um ms para acrescentar essa provao aos demais encargos da Presidncia.
   - Voc deve ler exatamente porque o autor ainda no  Acadmico...
Hermano do Carmo recolhe o jornal:
   - Com esse calor, seu Figueiredo... - inicia a leitura, levanta os olhos: - Esse candidato que vocs arranjaram... Para fazer frente ao que Deus levou em boa hora, v l... Era sua nica serventia... retorna ao artigo: - Que pateta!

   Raramente o Presidente, cuja proverbial polidez se acentuara com o exerccio do cargo que exige sagacidade e tato, usava expresses desagradveis ao se referir a um confrade, Acadmico ou simples mortal. Sentiu-se, porm, estomagado com a desfaatez do candidato que no esperava sequer a eleio para ditar de pblico diretrizes referentes  atuao da Academia. Discordava abertamente da atitude de pondervel nmero de membros da Casa na explosiva questo da reforma ortogrfica, em estudos na Comisso Mista formada com
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representantes da Academia Brasileira e da Academia de Cincias de Lisboa. No se obtivera ainda unanimidade de pontos de vista entre os delegados brasileiros, o que estava dificultando a marcha dos trabalhos.

   - Esse homem  extraordinrio. Antes no havia pessoa mais comedida, atenciosa, direi mesmo chaleira. Deu uma guinada de cento e oitenta graus, a candidatura nica subiu-lhe  cabea. No perde o ch, fala muito e fala alto, d ordens, critica. Outro dia, me pegou pelo brao e me impingiu uma lio sobre pintura. Acha que ns penduramos os quadros seguindo um critrio incorreto. No valorizamos artistas que ele considera de primeira ordem, enquanto damos destaque a outros que so, segundo ele, reles borra-botas. Voc precisava ver a insolncia.
   Leu as ltimas linhas, devolveu a gazeta:
   - Ele devia se candidatar  Academia de Lisboa e no  Brasileira.

   Alguns dos delegados designados para fazer parte da Comisso Mista, entre os quais R. Figueiredo Jnior, defendiam a necessidade de se considerar a repercusso sobre a lngua escrita no Brasil das caractersticas originais do portugus aqui falado pelo povo. Opunham-se  tendncia de certos confrades portugueses, insistentes na imposio de pontos de vista rgidos, corretos para o portugus falado e escrito em Portugal, inaceitveis para os brasileiros. O dramaturgo falava em colonialismo cultural para definir a posio dos fillogos que exigiam idnticas e rgidas regras de uma gramtica unilateral para a lngua escrita em dois pases to diferentes. Em verdade, ambas as delegaes se encontravam divididas em torno dessa questo nevrlgica e melindrosa.

   Ora, em sua coluna semanal, de opinies e conselhos idiomticos, o General Moreira apoiava sem restries a posio lusitana e ditava o comportamento que a delegao brasileira devia adotar ou seja, preservar a ferro e fogo a pureza da lngua de Cames tal qual nos foi legada pelos clssicos. Respondendo a consulta de hipottico leitor, criticava aqueles cujas concesses aos biltres que abastardam o Kuoma conduziam a Academia ao abandono de seu mais sagrado dever: conservar a ltima flor do Lado na integridade de suas regras "imutveis. Terminava anunciando para breve sua participao direta
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nos debates, lutando para impedir equvocos to daninhos. Sfrego, nomeara-se Ministro da Guerra antes da hora, ocupava a vaga acadmica antes da eleio.
   - Estamos bem arranjados. Como seja no bastasse o Alcntara, com sua mania de purismo, a dividir a delegao...
   - Vosso General exagera. Devia esperar pelo menos ser eleito para nos passar um sabo pblico...
   - Por que diabo aquele tira imundo esperou que as inscries se encerrassem para morrer? E agora?
   - Vocs arranjaram essa batata quente, que a descasquem, se puderem. -Acrescentou, como quem fornece uma informao sem com ela se comprometer: - O Evandro parece que tem umas idias a respeito. Por que voc no conversa com ele?

A COMISSO SE DISSOLVE 

R. Figueiredo Jnior foi alm do conselho do Presidente. No procurou apenas o velho Evandro Nunes dos Santos. Convocou para um drinque em seu apartamento os componentes da comisso que se deslocara, havia cerca de trs meses, at o Graja com o objetivo de convidar o General Waldomiro Moreira, autor, entre outros livros, de Prolegmenos Idiomticos, a apresentar-se candidato  Academia Brasileira de Letras.

   Servidas as bebidas e os tira-gostos, exibiu aos demais o afrontoso artigo. Que achavam daquilo?

   Evandro o lera e mandara fazer cpias mimeografadas para distribu-las entre aqueles acadmicos que defendiam uma posio nacionalista na questo do idioma. Figueiredo iria encontrar um exemplar em sua gaveta. Em seguida, deu conta da resoluo tomada por ele e Afrnio Portela, relativa  candidatura do General. Somos uns canalhas!, concluiu com seu jeito arrebatado.

   - J que estvamos em p de guerra - complementou o romancista -, montamos uma guerrilha, a exemplo dos maquis, na
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Frana, amos comunicar a vocs mas j comeamos a trabalhar. Com boa receptividade e muita discrio.
   - No soube de nada - disse Rodrigo.
   - Por que no me falaram logo? - Queixou-se Figueiredo.
   - Apesar da discrio, farejei algo no ar. - Revelou Henrique Andrade: - O Paiva anda baratinado. Nossa divina Maria Joo levou mais de um ms tentando convenc-lo a votar no General, de repente exige que ele vote em branco. Percebi o dedo de mestre Afrnio nesse enredo.

   Discutiram a situao. Se bem concordassem em considerar o General um trapalho arrogante e chato, disposto a transformar a Academia num quartel e os acadmicos em disciplinados milicos, no houve adeso geral  guerrilha e a comisso dos cinco se dissolveu.

   Henrique Andrade desculpou-se. Em outras circunstncias, com muito gosto se uniria a eles para impedir que tamanho subliterato ocupasse uma cadeira na Academia. Mas o pas vivia uma tal contingncia poltica, com a ditadura do Estado Novo, que, a seu ver, os democratas estavam obrigados a se aliar com todos aqueles capazes de concorrer de uma ou de outra maneira para modificar a situao. Ora, o General, se bem colocado na reserva, sem comando, ainda assim possua ressonncia junto  oficialidade. Durante a campanha acadmica haviam conversado, trocado opinies, assentado planos. No considerando seu voto decisivo, por isso mesmo Henrique no o modificava. Se o General perdesse a eleio ele no se incomodaria. Mas no desejava concorrer para que tal acontecesse pois mantinha compromissos polticos com o candidato. Fosse qual fosse o resultado, queria continuar em boas relaes com o General. Alis, na data da eleio, estaria na Bahia. Antes de viajar, entregaria a carta com os votos ao prprio candidato.

   Rodrigo pediu igualmente que o dispensassem. Gostar, bem que ele gostaria de tomar parte na guerrilha, a batalha fora uma experincia empolgante, que ele narraria, futuramente, em novo volume de suas Memrias Alheias. Mas tinha tambm motivos para manter-se  margem das escaramuas. No eram cvicos, como os de Henrique, mas eram igualmente respeitveis.
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JORGE AMADO
   - Razes domsticas... - riu malicioso e compreensivo mestre Afrnio: - Est bem, meu fidalgo, ficas dispensado.
   Quanto a R. Figueiredo Jnior, no desejava outra coisa alm de assumir um posto avanado de combate. Entusiasmou-se ao tomar conhecimento do que j havia sido feito.

VERSO DE AFRNIO PORTELA SOBRE MANOBRAS INDIGNAS DO CANDIDATO

Ao chegar  Academia propositadamente cedo, Afrnio Portela encontra o Decano Francelino Almeida, ao lado do tesoureiro, assinando o livro de presena, recebendo o pequeno envelope com o jeton. Juntos, dirigem-se para os armrios em cujas gavetas privativas  guardada a correspondncia dos Quarenta Imortais.
   - Estou achando voc um pouco abatido, Francelino. Algum achaque? Na nossa idade  preciso ter cuidado com a sade.
   - Minha sade vai bem, no sinto nada.
   - Ento? - Mestre Afrnio persiste, cheio de interesse pelo bem-estar do colega e amigo.
   - Coisas que me preocupam.
Recolhem a correspondncia, voltam  Secretaria, o romancista conduz o diplomata para o vo de uma janela: 
   - Que coisas?
   - Esse General, por exemplo. Mudou muito, no lhe parece? Recebida a deixa esperada, mestre Afrnio foi direto ao assunto:)
   - Para meu gosto, mudou demais. Devo lhe dizer, Francelino,! que sofri uma grande decepo com esse senhor. - Falava em voz) baixa: - Como talvez voc tenha percebido, a princpio me interessei) pela candidatura dele, cheguei a falar com dois ou trs amigos...     
   - Disseram-me.
   - Depois, porm, tomando conhecimento de certos fatos... como direi... degradantes, mudei inteiramente de posio. Aqui
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FARDA FAR'DO CAMISOLA DE DORMIR
entre ns, que no se saiba, que ele sobretudo no saiba: decidi votar m. em branco.
   O Decano demonstra expressivo interesse:
   - Fatos degradantes? De que espcie?
   
   - Manobras indignas. Vou lhe contar, em confiana. Tenho uma velha amiga, dos tempos de bomia, uma francesa que possui acolhedora penso de mulheres, garotas bem escolhidas, nem parecem ser o que so. Outro dia eu a encontrei e ela me contou uma histria incrvel. Imagine voc que o General Moreira, habitue da casa, pagou a uma das raparigas, com quem costuma regalar-se, para arranjar votos para ele, fazendo-se passar por sua secretria junto a alguns acadmicos...
   Sbita palidez do Decano:
   -  inacreditvel! Que canalha!
   
   - Madame Picq, a dona da penso, divertiu-se  beca atendendo os telefonemas de alguns colegas nossos,  procura da rapariga. A penso alegre virou recatado pensionato de moas, dirigido por freiras, e madame ao telefone era a Irm Picq, monja francesa. Uma falta de respeito total.
   -Penso de mulheres... Hum! Hum! O General, habitue, hein? Que espcie de patife! O Paiva me disse que ele  pobre, no entanto me mandou uma cesta, carssima, da Mercearia Ramos & Ramos.
   - Para mim tambm. Para o Evandro, o Figueiredo...
   - E onde arranja o dinheiro para tantos gastos? Para empregar vagabundas, fazer compras na Ramos & Ramos, com o preo que eles cobram?

   Mestre Afrnio baixou ainda mais a voz, falando quase ao ouvido do diplomata, cuja lealdade ao Governo, qualquer que ele fosse, era notria; Francelino Almeida tinha horror  oposio:
   - Ento voc no sabe que o General  homem de confiana do Armando Sales, do pessoal que tentou o golpe em 38, junto com os integralistas? No participou da baderna por no estar no Rio.
   - Sabia que tinha sido armandista...
   - Continua,  um dos mais ativos na conspirao contra o regmen. Quer ser eleito Acadmico exatamente para ter uma cobertura
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JORGE AMADO
que lhe garanta a impunidade. Por detrs, est o pessoal do Armando Sales, os Mesquitas de So Paulo. So eles que entram com o dinheiro para as despesas da candidatura. Os biscoitos que voc comeu, meu velho, eram subversivos.
   - Mas, sendo assim, botar esse homem na Academia  um perigo!
   
   - Candidato nico, dispensou a rapariga, parou com as cestas. A meu ver, o pior de tudo  a tentativa de utilizar a Academia para fins polticos. Voc sabe que no sou simptico ao Governo mas aqui dentro no fao poltica, penso que a Academia deve ser preservada, estar acima de tais contingncias e disputas. Por tudo isso, mudei meu voto.

   - Eu nunca pensei em votar nele... - afirmou o Decano com a deslavada naturalidade de traquejado diplomata: - Estava comprometido com o Sampaio Pereira. Voc tem inteira razo, votar nesse homem  uma insensatez. Ainda bem que voc me alertou. 
   Ainda tinha algo que desejava esclarecer:
   - E a Maria Joo? Por que andou pedindo por ele?
   - Isso  diferente. Maria Joo  prima da esposa do General, interessou-se a rogo da parenta.
   - Pois eu lhe agradeo, Portela. Muito obrigado.

   - Sobretudo, no deixe que o General perceba sua posio.  um tipo perigoso, capaz at de uma violncia. Faa como eu, que o trato muito bem, deixo que pense que tem meu voto garantido. Na hora de botar o papelzinho na urna... Depois dos votos incinerados, como adivinhar quem votou em branco?

A ALIANA ESPRIA

Lisandro Leite levou emburrado exatamente quinze dias, espao de tempo a mediar entre as ltimas trs sesses da Academia realizadas aps o enterro do Coronel Sampaio Pereira. Naquela tarde, ao chegar em casa, nem parecia o mesmo, o acabrunhamento desaparecera. Dona Maricia conhecia as variaes de humor do marido:
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FARDA FARPAO CAMISOLA DE DORMIR
   - Que foi que aconteceu? J no ests de tromba amarrada.
   - Uma coisa incrvel, se me contassem, eu no acreditaria. Mas tive provas, concretas. Os mesmos caras que levantaram a candidatura do General, a quadrilha 
Portela, esto tratando de enterr-la. Fiquei sabendo coisas de espantar. Desta vez, o mais exaltado  o Evandro. S trata o General de Linha Maginot, apelido posto pelo Agnaldo.
   Narrou-lhe detalhes, frases com duplo sentido, confidencias arrancadas habilmente, palavras soltas no ar, cochiches percebidos.
   - E tu, que vais fazer? Apoiar o General?
   O rosto gordo do jurista abriu-se em largo sorriso:
   - Eu? Nem pensar. you me aliar a eles... A cadeira no Supremo ainda pode vir s nossas mos em decorrncia desta eleio. Se o General no for eleito, se no alcanar o quorum...
   Explica, analisando as circunstncias: se o General no for eleito, ele, Lisandro, se fortalecer duplamente, ficando em posio privile,  giada para reivindicar a vaga a ser aberta com a aposentadoria do p Ministro Paiva.

   Por um lado, os correligionrios do falecido Coronel, poderosos , no Governo, ficaro satisfeitos se a Academia recusar o General oposicionista, inimigo do Estado Novo. No iro atribuir a Evandro e a Portela o insucesso da candidatura e, sim, a ele, que vai comunicar imediatamente a todos aqueles com quem manteve contato na batalha por Sampaio Pereira, comeando pelo Ministro da Guerra, Condestvel do regmen, seu ingente trabalho para impedir a eleio do pertinaz inimigo das instituies. Tomou a si essa tarefa para honrar a memria de seu saudoso amigo, desaparecido quando mais a Ptria precisava dele. Por outro lado, declarada novamente vaga a cadeira, patrocinaria a candidatura de Raul Lameira, Reitor da Universidade Nacional, amigo do peito do Chefe do Governo. Mdico, no aspirava a posto ia justia. Lameira pode ser um trunfo decisivo na hora da lista trplice e da escolha do novo Ministro. Toma l o fardo da Academia, d c a toga do Supremo.

   Dona Maricia enfiou os dedos elegantes e bem tratados na mal cuidada juba de leo do esposo:
   - No te disse para no te apoquentares, meu Ministro?
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JORGE AMADO
   Assim aconteceu a aliana espria entre as foras de Evandro e as de Lisandro Leite, a guerrilha recebeu inesperado contingente de voluntrios. Aliana informal mas atuante, provavelmente decisiva.

LS MAQUISARDS

Em conseqncia da guerra, intelectuais franceses de diversas tendncias e categorias buscaram asilo no Brasil. Escritores, editores, jornalistas, cantores, pintores, gente de teatro. O mais eminente deles, Georges Bernanos, estabeleceu residncia em Minas Gerais, os demais se repartiram entre Rio e So Paulo. Juntaram-se aos prestigiosos professores chegados em 1937 para reger ctedras nas recm-fundadas Universidades, entre os quais se destacava a figura do escritor e cientista Roger Bastide.

  Com o apoio de intelectuais brasileiros, organizaram o trabalho de ajuda  Resistncia Francesa, s Forces Franaises Libres, de De Gaulle, e aos Maquisards. As condies reinantes no pas eram adversas  atividade poltica dos franceses livres pois a ditadura do Estado Novo desenvolvia crescente colaborao com o Eixo nazifascista; anunciava-se  boca pequena prxima adeso ao Pacto AntiKomintern, concludo entre o Reich, a Itlia e o Japo, com o apoio da Espanha de Franco; o chefe do Governo conferenciava,  revelia do Ministro das Relaes Exteriores, com o Embaixador de Hitler, acertando medidas capazes de ampliar os laos ideolgicos e econmicos a ligar as duas naes e de lev-las por fim a um tratado de aliana. Apesar disso, explorando as contradies existentes na composio do Governo e a extrema simpatia dos brasileiros pela Frana e por sua cultura, os exilados conseguiram pr de p atuante movimento que, no sendo inteiramente clandestino, tampouco era pblico. O Governo os mantinha sob vigilncia da polcia mas tolerava sua) atividade. Figuras de grande destaque na vida intelectual, militar e poltica - o citado Ministro das Relaes Exteriores, Oswaldo Aranha, o General Leito de Carvalho, e, segundo insistentes rumores, a prpria filha do Ditador, Alzira Vargas-opunham-se  aliana com o Eixo e participaram do esforo do grupo de franceses livres,
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
pouco numeroso porm dinmico, que, longe da Ptria ocupada, combatia por sua libertao.

   Entre os intelectuais brasileiros mais ligados aos resistentes  franceses estavam os acadmicos Evandro Nunes dos Santos, Alceu de Amoroso Lima, Afrnio Portela, R. Figueiredo Jnior, os poetas Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt, o ator Procpio Ferreira e a atriz Maria Joo, os escritores lvaro Moreyra, Srgio Milliet, Josu Montello, Anbal Machado e o diretor do jornal literrio Dom Casmurro, Brcio de Abreu, que vivera em Paris mais de dez anos.

   Todos esses e vrios outros antifascistas se encontraram na casa de Evandro Nunes dos Santos, por ocasio da vinda ao Rio de mestre Roger Bastide para realizar conferncias e estabelecer contatos. Estreita amizade, nascida de mtua admirao, ligava os dois ensastas. Evandro reunira aqueles amigos da Frana em torno de Bastide para juntos estudarem maneiras efetivas de ajuda aos organismos gaullistas e aos maquis,  Resistncia. Jovem dona da casa, Isabel recebia ao lado do irmo e do av, vibrando de contentamento, no fosse ela afilhada de Bruno.

   Entre as decises tomadas, uma adquiria especial interesse, pelo resultado financeiro garantido e sobretudo pela repercusso: Maria Joo se props a remontar, num espetculo nico, em benefcio dos franceses livres, numa segunda-feira - dia em que as companhias de teatro descansam - a pea de Antnio Bruno, Mary John, com a qual estreara em 1922 na Companhia Leopoldo Froes. O pretexto seria a comemorao de seus vinte anos de palco. Entusiasmo geral: sob o patrocnio do Dom Casmurro, lvaro Moreyra aceitou dirigir a nova montagem e Santa Rosa se encarregou dos cenrios. R. Figueiredo Jnior escreveria a apresentao do programa, Procpio viveria o falso astro de Hollywood, personagem criado por Froes na montagem anterior, Afrnio Portela obteria o Teatro Fnix com os Guinle. Todos, a comear pelas senhoras, se encarregariam de passar os ingressos, a preo alto.

   Festa alegre, mesa bem servida, bebida de qualidade, conversa brilhante, o entusiasmo adolescente e libertrio de Pedro e Isabel. Os convidados, aps as decises, se espalharam pelo jardim para gozar a brisa do mar na noite escaldante de dezembro. Mestre Afrnio, dona 
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JORGE AMADO
Rosarinho e Maria Joo sentaram-se num dos bancos rsticos, sob uma jaqueira.
    - Que idia mais linda, a tua, Maria Joo... - dona Rosarinho toma a mo da atriz, com afeto.

   -Aprendi com Bruno muita coisa, uma delas foi amar a Frana. E ademais, sabe, sempre tive desejo de remontar a pea que ele escreveu para mim, a minha pea. Talvez hoje parea ingnua mas os versos continuam magnficos, no ? O nico problema  que fiz Mary John com menos de vinte anos, ando na casa dos trinta e oito...
   - No espalhe. Ningum te daria mais de trinta... - galanteou mestre Afrnio e no faltava  verdade.
   - Pensei em convidar uma jovem atriz para o papel. Mas, confesso que morro de desejo de viv-lo novamente.  como voltar queles dias, Mary John sou eu aos dezenove anos. Ser que ainda d?
   - Tranqilamente - respondeu dona Rosarinho: - Eu no te enganaria, no te deixaria cair no ridculo. Simples questo de maquiagem. - Eram amigas desde o tempo distante da outra montagem de. Mary John.
   Mestre Afrnio mudou de assunto:
   - E os nossos votantes? Como vai a reviravolta, ls tournants de l'histoire?
   O riso maroto de Maria Joo ressoou entre as rvores:
   - Chanchada mais divertida... Dizer que eu tinha conseguido quatro votos para esse tal de General, sem contar com o de Paivinha, e depois tive de desmanchar tudo, fazer meia-volta volver. Se vissem as caras dos queridos...
   - Como voc explicou seu interesse pelo General? - quis saber dona Rosarinho.
   - Muito simples: interesse de parenta, declarei ser prima carnal e amiga ntima da mulher dele.
   - E agora, para pedir que votem em branco ou se abstenham?
   - Inventei uma histria medonha que deixa os queridos na maior revolta. Indignada, quase em lgrimas, revelo o intolervel comportamento do General. Desrespeitando a esposa, o lar, a amizade, tentou me agarrar em casa dele, quis me arrastar para o leito do
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FARDA FARDOCAMISOLA DE DORMIR
casal. Cena horrorosa, digna do melhor dramalho italiano: o General tentando me estuprar, eu resistindo, herica. Libertando-me com dificuldade, a blusa rasgada, o seio magoado, fugi enquanto ele me insultava com os piores nomes. 
O efeito sobre os queridos  extraordinrio. Eles sabem que jamais, em toda minha vida, fui para a cama com marido de amiga minha, fosse qual fosse.

   Afrnio Portela desvia os olhos para o cu de estrelas: quem mais sabe  ele. Intransigente Maria Joo, nos poucos erigidos preconceitos - os meus princpios, dizia ela. Quando, anos depois de Bruno, Afrnio se candidatara, ela, beijando-o no rosto, encerrou a conversa:  
   - No pode ser, meu mestre adorado. Sabe o bem que lhe quero, mas sou amiga de dona Rosarinho. Impossvel, no insista para no me entristecer.
   A brisa vem do mar, demora-se a brincar com os cabelos da grande atriz, que conclui a narrativa:
   - Os queridos ficam revoltados. Quem pode votar em tamanho monstro? Pobre General... Por que virou ruim assim, to de repente?
   - No  ruim,  General.
   R. Figueiredo Jnior se aproxima, o olho cobioso:
   - Maria, eu estava conversando com Alvinho - refere-se a lvaro Moreyra -, tivemos uma idia para o espetculo, um achado.
   Levanta-se Maria Joo, oferece o brao ao dramaturgo que traduzira Ibsen exclusivamente para que ela pudesse viver Hedda Gabler:
  - Vem e me conta...

   O olhar de Afrnio Portela acompanha os vultos que desaparecem na sombra. Maria Joo no deve ser amiga da mulher de Figueiredo. Personagem vital, mastigando homens e sucessos, acumulando fortuna e glria, ex-Princesa da Micareme, nascida num subrbio pobre, grande atriz. Os amores de Bruno, suas mulheres, todas marcadas por ele. A de Antnio, A de amor, marca indelvel no corao.

   Mestre Portela no contara a novidade a Rosarinho pois ainda no se decidira a enfrentar as resmas de papel em branco. Mas a tentao do romance cresce na noite conspirativa em que os maquis

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JORGE AMADO
assentaram seus bivaques no alto de Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro.

CLOCL E SETE PINOTES

Leviana, ai, leviana! Todavia possui bo corao e  justiceira, reflete o General Waldomiro Moreira ao ouvir a proposta de Ceclia. A moa desviara a ateno do rdio, onde Stela Maris canta blues, para recomendar:
   - Pai, quando o senhor mandar l na Academia, arranje logo um prmio para Claudionor. Clocl merece.
   - Dizes bem, mritos no lhe faltam. Amigo devotado, com senso de hierarquia, nem parece paisano.

   Realmente Claudionor Sabena mais parece ordenana do General, s suas ordens. Acompanha-lhe os passos, escuta e aplaude conferncias dos acadmicos, ouve o relatrio das visitas protocolares, conta e reconta votos, contagem felizmente tornada intil devido ao oportuno bito do Coronel.

   Alis, muito em particular, o autor da Gramtica Expositiva da Lngua Portuguesa (I, II e In Graus) reivindica a responsabilidade pelo passamento do temvel adversrio do pai de Ceclia. Simpatizante do espiritismo, de quando em quando freqenta um terreiro de umbanda, onde reina, gorda e absoluta, Me Graziela do Bunok, que recebe, entre outras menos terrveis, a poderosa entidade reverenciada sob o nome de Exu Sete Pinotes, um Exu capaz de malefcios indescritveis. Quando ele intervm, a pedido de Me Graziela,  tiro e queda. Para assuntos de dinheiro e amor, de cama a fazer e desfazer, de inveja e mau-olhado, a sacerdotisa recorre a outros encantados. Ao caboclo Curiboca, timo para curar enfermos,  Yemanj Mar Alta, especialista em enredos de amantes, e ao preto velho Ritacnio, cujo forte  o jogo do bicho, a loteria e tudo mais que se refira a dinheiro. Me Graziela reserva Sete Pinotes para apelos desesperados, casos de difcil soluo, exigindo tratamento especial, feitio forte.
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
 
   Sabena encomendou e pagou trabalho de muito fundamento e preo salgado para Sete Pinotes fechar os caminhos da Academia ao Coronel Sampaio Pereira. A inteno do suplicante era apenas eleitoral, o sangue dos galos e a cera das velas deviam apenas trancar as portas da Casa de Machado de Assis ao oponente do General Moreira. Mas Sete Pinotes, como disse Me Graziela e Sabena constatou, tinha a mo pesada, no agia com meias medidas. Medida inteira, fulminou o Coronel. 

   Catlico praticante, o General Moreira no acredita nessas abuses. Mas dona Conceio e a desquitada Ceclia no tiveram um momento de dvida e enviaram um adjutrio para a compra de cachaa e de charutos destinados ao benemrito Exu. Abuso ou coisa-feita, sabena tornou-se merecedor de gratido.
   - Na distribuio de prmios do ano que vem tratarei de laurear o Sabena. Ele poder receber o Prmio Jos Verssimo com a Coletnea que publicou agora. - O General est a par de tudo quanto se refere aos prmios concedidos pela Academia.
   - No d para ser ainda este ano, Pai? Era um bom presente de Natal para Clocl...
   - Prmio da Academia no  presente de Natal, sua tonta. Mas ele pode ficar tranqilo, cuidarei desse assunto. E no ponha apelidos ridculos num fillogo que, apesar de moo, j conquistou certo renome.
   Ceclia comenta, satisfeita:
   - Entrando para a Academia o senhor vai ser um bocado importante, no , Pai? L s tem bambas, os maiorais.

   Aproveitando o raro momento de interesse da filha por tais assuntos, o General se entrega a confidencias: a Academia necessita de uma sria reforma nos seus quadros, obrigatoriamente lenta pois o posto  vitalcio. Nas eleies realizadas nos ltimos anos, houvera evidente abandono de alguns princpios que norteavam a escolha dos acadmicos desde a fundao da Casa. Antes, a prioridade era dada aos expoentes das categorias superiores da sociedade. Hoje, a preferncia vai para os escritores, mesmo quando no possuem outra qualificao alm da literria. A tal ponto que a Ilustre Companhia ficara sem representante das Foras Armadas, um absurdo! No que
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JORGE AMADO
ele fosse contra a entrada de escritores, mas  preciso saber escolher. Alguns dos que l se encontram, Deus me livre! Ignoram as regras mais elementares da gramtica, assassinam a lngua portuguesa. A alguns falta at o decoro exigido pelo fardo da Imortalidade. O exemplo da seleo perfeita - dizia sem vaidade - era ele prprio: escritor e Oficial Superior do Exrcito, General. Encara a filha que divide a ateno entre o discurso do pai e a msica do rdio, voz divina a de Stela Maris, ordena:
   - No v sair por a repetindo o que lhe disse. A ningum, ouviu? Muito menos a algum Acadmico.
   No fosse ela contar ao Rodrigo, quando... Leviana, ai, leviana! Apesar de tudo, boa filha: corao de ouro e justiceira.

A lNSOSSA

Corao de ouro e justiceira, talvez. Generosa para com aqueles a quem se entrega, na eterna expectativa de encontrar quem dela no se farte.

   Por que h de ser sempre assim? Quando a conhecem, acendem-se em desejo, cortejam-na, buscam conquist-la, pem o mundo a seus ps. A princpio tudo marcha bem, Ceclia  graciosa, provocante e se entrega sem reservas, curso completo. 

   Por que o interesse no se prolonga, em pouco tempo se desfaz? Um deles, bonito e estpido, lhe atirara em rosto uma palavra cruel: vulgar, voc  vulgar, no se d conta? Outro, menos bonito e mais grosseiro, referindo-se  hora decisiva, usou insultuosa imagem: insossa, voc  insossa como uma viosa folha de alface sem tempero. A princpio, chorava, depois passou apenas a lanar mo dos reservas. Sim, porque sem homem no pode viver. A quem sara? - Dona Conceio jamais obteve resposta para a pergunta.

  Primeiro e nico na lista de espera - o cirurgio-dentista, boapinta, parecido com Jos Mojica, cara fora ao surpreend-la com Rodrigo -, Claudionor Sabena no tardar a ver recompensada a longa e insistente diligncia. Ceclia se humaniza, j se apoia em seu 
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FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR
brao, de relance o observa e baixa os olhos ao ser surpreendida, ouve o poema a suspirar: Para mim? Mas, que beleza! No mereo tanto. A hora do triunfo se aproxima. 

  Com Rodrigo, Ceclia atingira o cume: fidalgo, rico, o nome nas gazetas, 
o retrato nas revistas, entre elogios, requintado at demais. Nunca lhe dir: vulgar ou insossa,  a encarnao da cortesia. Contudo, ela sente que o interesse se acabou, os encontros se distanciam; de comeo dirios, em seguida dia sim, dia no, depois de trs em trs, agora apenas uma vez por semana e olhe l. No ltimo encontro, Rodrigo informou que em breve sair para Petrpolis onde passar o Natal e o Ano Novo, regressando ao Rio na segunda quinzena de janeiro para votar no General.

   Ceclia se oferecera para acompanh-lo: poderia ficar numa penso mas ele, sempre com a maior delicadeza, recusou, explicando que a breve separao far o reencontro mais ansiosamente desejado. Mas Ceclia sabe que no haver reencontro.

   De qualquer maneira, ele no partir imediatamente. Pretende assistir ao espetculo que ser apresentado s vsperas do Natal por Maria Joo, a nova montagem da comdia de Antnio Bruno. Na prxima semana, pois antes no tem um minuto livre, Rodrigo trar entradas para ela, o General e a esposa. Devendo fazer o elogio do poeta, no discurso de posse, o pai de Ceclia no pode deixar de assistir  pea, toda ela em versos. Rei da boa educao, solicita licena para oferecer os ingressos  famlia. Na prxima semana, confirma. No derradeiro encontro, adivinha Ceclia. To fino, elegante e gentil, to bom de pernada, ai, que pena!

  Foi nessa ocasio que pela primeira vez Ceclia tratou Claudionor Sabena por Clocl, Clocl respondeu em apaixonado impulso: Cia, minha doce Cia!

A INDISPENSABIL1DADE DA VISITA
A visita  absolutamente indispensvel. Nenhum candidato pode se arvorar o direito de no visitar esse ou aquele Acadmico, a qualquer pretexto que seja. O Acadmico, sim,  senhor de dispensar ou mesmo
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de recusar a visita, mas ao candidato cabe apenas solicitar dia e hora para comunicar sua pretenso e pedinchar apoio.

   Na biblioteca, refestelado numa poltrona, a cigarreira entre os dedos, o velho Francelino Almeida expe sua tese a trs colegas que tratavam do assunto  sua chegada. Decano, Imortal h quarenta e trs anos, sobrevivente do quadro de fundadores, autoridade indiscutvel em tudo quanto se relaciona com estatuto, regimento e tradies da Academia,  ouvido com ateno e respeito:

   - Bem sei que a visita no consta do regimento, no se trata de imposio escrita. Todavia  mais obrigatria que qualquer item estatutrio ou regimental.  condio sine qua non para que o candidato seja eleito. No adianta falar em inimizade, tampouco em desapreo. Aqui, neste silogeu, no existem inimigos nem desafetos e todos so dignos de apreo.
   
  Sobre o assunto, podia perorar durante horas pois o tinha na conta de fundamental para que se mantivessem inclumes a hierarquia e a autoridade da Ilustre Companhia:

   - O fato de um Acadmico demonstrar de pblico simpatia por determinado candidato, prometendo-lhe o voto, no desobriga os demais pretendentes. Ao contrrio, a visita se torna ainda mais imprescindvel.

   Sopra com prazer a fumaa do cigarro - apenas cinco durante o dia para evitar bronquite e catarro -, prossegue:
  - A Academia  uma nica, sem igual; deve ser cortejada, adulada. E como a Academia  formada pelos acadmicos, logicamente devemos ser cortejados, adulados. Que seria de ns, sem as visitas?
   Os colegas acolhem a pergunta com exclamaes que ratificam as afirmativas do venervel diplomata. Conclui, severo:

   - O General comete grave erro, inescusvel, declarando que no visitar o Lisandro. Por que assume essa atitude arrogante? Por haver o Lisandro trabalhado pela candidatura do Sampaio Pereira? Um direito que lhe cabia e ele o exerceu. O General  que no tem direito de se abespinhar e de romper com uma das tradies mais ldimas da Academia. Age muito mal.
   A exposio do Decano merece aprovao unnime dos colegas que a escutam. Um deles completa:
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
   -Alm de arbitrrio, Linha Maginot  boquirroto, no sei o que  pior.

   Podia acrescentar que, alm de arbitrrio e boquirroto, o General era um inocente: confidenciara a dois ou trs Imortais sua deciso de no visitar o Desembargador Lisandro Leite que o tratara com animosidade no decorrer da campanha e que prosseguia no combate  sua candidatura, tentando arrebatar acadmicos - ex-eleitores do Sampaio Pereira - para o voto em branco. Sua dignidade de General obrigava-o a tomar aquela deciso afrontosa. Candidato nico, pode se dar a certos luxos, tem privilgios.

   Confidencia feita a Acadmico em poca de eleio  segredo em saco sem fundo, circula levado pelo vento - pelo ar dos ventiladores nas tardes caniculares do vero carioca. Sobretudo quando revela heresia e imposio. Quem inventou que candidato nico goza de luxos e privilgios?

   Lisandro fora a nica exceo aberta pelo General na peregrinao das visitas. Gramara de trem para Minas, sacolejando os ossos, valera a pena: trouxe o voto do hemiplgico contista. Para So Paulo viajou de avio. Foi recebido com a maior cordialidade pelo poeta do Romanceiro dos Bandeirantes. Recordaram episdios da Revoluo de 32, da qual o vate participara no Estado-Maior do Coronel Euclides de Figueiredo. Em lugar dos vinte minutos habituais, a visita prolongou-se pela tarde afora. Quanto ao voto, o lrico do Livro dos Salmos ficou de envi-lo diretamente  Academia, conforme inveterado hbito. Viagem cara devido  passagem de avio, mas apesar da despesa o General retornara eufrico pois constatara que aquele sufrgio ilustre seria certamente seu, mesmo se, em lugar de candidato nico, ainda disputasse a eleio com o canalha do Sampaio Pereira. O poeta Mrio Bueno era companheiro de letras e armas.

O VISITANTE ANTERIOR

Mais forte do que o companheirismo das armas revelou-se o da poesia. Poucos dias antes do General, estivera em So Paulo o guerrilheiro Evandro Nunes dos Santos, dito El Pasionario por Afrnio Portela,
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JORGE AMADO
com o fim exclusivo de abraar Mrio Bueno e com ele debater assuntos acadmicos. Velhos amigos, de certa maneira aparentados por ser a esposa do poeta prima da falecida Anita. Nas raras vindas ao Rio, Bueno hospedava-se na manso de Santa Teresa. 

  A sucesso de Bruno levara Evandro duas vezes  casa to paulista do descendente dos bandeirantes. A primeira, para lhe pedir que votasse no General. Tarefa fcil, Mrio Bueno detestava Sampaio Pereira que, ainda Major, exercera a chefia das foras de segurana e informao do Exrcito em So Paulo, aps a derrota da Revoluo de 1932, e pintara o diabo com os vencidos, acusando-os de separatistas.

   -  um Capito-do-mato, como podes pensar que eu poderia apoi-lo? No me conheces? Veio me visitar, eu o tratei bem e lhe prometi o voto como fao corn todos, sou um homem educado. Mas  claro que voto no teu General que, alis, participou da epopia constitucionalista.

   Foi mais difcil da segunda vez, quando veio pedir ao poeta que no votasse no General, votasse em branco. A epopia constitucionalista revelou-se um obstculo srio:

  - Pode ser um subliterato, prepotente e chato, acredito que seja. Mas  um bravo, acudiu ao apelo de So Paulo! Alm de tudo, freqento to pouco a Academia, quase nunca vou ao Rio, a mim ele no vai chatear.

  Evandro contava com a objeo, tudo quanto se relacionava com o movimento de 32 tornara-se sagrado para o bardo deAvante, por So Paulo!, canto herico, a nica coisa realmente ruim em toda sua copiosa produo potica. Evandro, porm, tinha um trunfo forte:

   - Bem, pensei que teu maior desejo era ver Jos Feliciano na Academia... - Limpava o pincen devagar, recolocava-o no nariz: - Quando te telefonei para comunicar a morte de Bruno, concordamos que o candidato perfeito para substitu-lo era o Feliciano e foste tu quem pronunciou o nome dele primeiro. Grande poeta, tima pessoa e, alm do mais, paulista, gente de tua raa.

   -  evidente que o Feliciano  o ideal, mas com essa histria de militares...
   - Eu quis levantar a candidatura do Feliciano mas Afrnio achou que precisvamos de um General para enfrentar o Sampaio
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Pereira, que era Coronel. Tinha razo e, aqui para ns, te digo que, com General e tudo, no sei se o derrotaramos. Mas o fascisto no agentou os tropeos da campanha, levou a breca. Para que diabo nos serve, agora, um General? J ouviste dizer que na Academia existem cadeiras cativas? Uma do Exrcito, outra da Marinha, outra da Aeronutica? Mais dia menos dia, a Polcia Militar e o Corpo de Bombeiros reivindicam as suas. Ouve, Mrio: vamos impedir que esse chato seja eleito, teremos novamente a vaga de Bruno e ser a vez do Feliciano.
   -E... h possibilidades?
   -Pelas minhas contas, est na dependncia de teu voto. 

   Mrio Bueno estimava Jos Feliciano como se fosse seu irmo de sangue. Companheiros desde a juventude nas redaes dos jornais e na noite da paulicia desvairada, haviam dormido com as mesmas mulheres fceis, namorado idnticas filhas de famlia, brincado loucos carnavais em sales decorados por Lasar Segall, juntos participaram da Semana de Arte Moderna e assinaram violentos manifestos contra a Academia Brasileira de Letras. Em 1932, Jos Feliciano estava em Campos do Jordo, num sanatrio para tuberculosos, fazendo pneumotrax. No vacilou um segundo, foram descobri-lo soldado voluntrio na frente mineira. Trouxeram-no de volta, a pulso, para completar a cura.
   - Ganhaste, velho anarquista. No votarei em branco porque o General foi um combatente de 32 mas me abstenho. O resultado  o mesmo, porm h uma diferena...
   - Bem sei.
   - Guardo meu voto para o Jos. Afinal, se ele no chegou a combater foi porque os mdicos o arrancaram da trincheira. E que poeta, meu velho... - Mrio Bueno possua o raro dom de admirar:
   - O maior de So Paulo.
   - Um grande poeta, sim, mas o maior poeta de So Paulo s tu. Mrio Bueno possua o raro dom de admirar e tambm o dom bem menos raro, bastante comum nos meios literrios, de admirar a si prprio:
   - No, Evandro. No sou o maior poeta de So Paulo: sou o maior poeta do Brasil.
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ANTECEDENTES DO ESPETCULO

Na ltima segunda-feira antes do Natal, sob apreensiva e sfrega expectativa, Maria Joo apresentou no palco do Teatro Fnix, em Recita de Gala, a comdia em versos de Antnio Bruno, Maryjohn, dezoito anos aps a estria. Apesar dos preos altssimos cobrados pelos ingressos, no sobrou um nico lugar vazio; havia gente de p nos corredores laterais e sentada no cho do corredor central. At o momento de subir o pano, pretendentes a entradas se acotovelavam junto  bilheteria onde pequeno cartaz informava: lotao esgotada.

     Compareceu todo o Rio de Janeiro, o que a cidade tinha de mais importante, desde o Ministro Aranha, cuja presena adquiria carter de desafio  duplicidade da poltica externa do Estado Novo, at Stnio Barreto, o Nojento, a quem Maria Joo passara trs camarotes, cobrando uma pequena fortuna.

   O espetculo havia sido fartamente anunciado e promovido pelos jornais e estaes de rdio. Recita comemorativa dos vinte anos de cena de Maria Joo - contados a partir das pequenas pontas nas revistas estreladas por Margarida Vilar-, seria o fecho de ouro do ano teatral, acontecimento mpar na vida cultural da metrpole.

   Durante uns quantos dias, o noticirio se referiu ao fato da renda ser dedicada  causa da Frana Livre. O Dom Casmurro publicara com antecedncia a apresentao escrita para o programa por R. Figueiredo Jnior e assim o fato se tornou pblico: Ao comemorar vinte gloriosos anos de teatro, Maria Joo decidiu homenagear a Frana eterna, hoje pisoteada pelas botas nazistas, dedicando sua festa aos combatentes que lutam contra o ocupante sanguinrio e obscurantista de sua Ptria, fazendo reverter para os franceses livres a totalidade da renda apurada. Vale a pena ressaltar um fato: todos os que cooperaram para a realizao do espetculo, desde os proprietrios do Teatro Fnix at aos maquinistas e carpinteiros, fizeram-no sem nada cobrar, em prova de amizade e admirao  primeira-dama de nosso teatro e em prova de irrestrita solidariedade  herica luta do povo francs que  tambm a nossa luta. Nenhuma pea mais indicada para essa festa de Maria Joo e da Frana Combatente do que a comdia de Antnio Bruno, Mary John. Composta especialmente
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para a estria de Maria Joo no teatro declamado, contracenando com Leopoldo 
Froes, para o grande e inesquecvel poeta que a escreveu, a  Frana, onde residiu e de cuja cultura se alimentou, era uma segunda ptria. Seu corao no tolerou v-la humilhada, em cativeiro. Antnio Bruno foi uma das primeiras vtimas da queda de Paris. 

   No tendo sido o semanrio suspenso ou proibido, os demais jornais e as estaes de rdio aproveitaram a deixa e louvaram o gesto de Maria Joo, os adjetivos choveram, grandiloqentes e carinhosos. Soube-se que o Diretor do DIP - contraditria personalidade autorizara pessoalmente a publicao do texto de Figueiredo e fizera vista grossa ao noticirio. No conseguiu manter essa posio liberal por muito tempo. Logo vieram ordens superiores, partindo do mesmo gabinete, no Palcio da Guerra, antes ocupado pelo Coronel Sampaio Pereira, condenando o noticirio, qualificando-o de sedicioso. Em conseqncia, o DIP proibiu qualquer referncia, na publicidade e nas notcias sobre o espetculo,  Frana, ocupada ou eterna, a dos nazistas e a dos maquis. Proibida tambm a distribuio do programa.

   Mas o mal estava feito. No Rio, no se falava noutra coisa, a no ser em Mary John, e a procura de bilhetes quase se transforma em batalha campal. Ofereciam-se contos de ris por uma entrada e ainda mais por um exemplar do programa com o texto de R. Figueiredo Jnior. 

   Transpirou igualmente que, ademais da disputa de ingressos, outra batalha se travava, bem mais sria, no seio do Governo. Os setores mais radicais do Estado Novo reclamavam a proibio da recita; elementos simpticos  causa dos Aliados defendiam sua realizao. Os boatos circulavam, difundindo ameaas e previses diversas. Falava-se de forte presso exercida sobre os Guinles, proprietrios do Teatro, para lev-los a recuar da cesso do Fnix; no deu resultado. Soube-se que os responsveis pela remontagem da pea tinham decidido lev-la  cena mesmo se a censura a proibisse: as portas do teatro seriam abertas ao pblico e o pano de boca subiria, nas noras marcadas. Os atores iniciariam o espetculo mesmo correndo o fisco de priso e processo. Constou que a filha do Chefe do Governo, "Alzira, comunicara ao pai que ela prpria compareceria ao Fnix se a recita fosse proibida e aplaudiria os artistas.
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   Finalmente o espetculo foi liberado com a condio de que no houvesse em nenhum momento - sobretudo em cena aberta referncia a sua ligao com os organismos da Frana Livre. Apenas Recita de Gala, comemorativa dos vinte anos de tablado de Maria Joo.

   Tudo isso fez com que a remontagem de Mary John extralimitasse de sua importncia inicial para se transformar num confronto entre as foras do nazi-fascismo caboclo e os intelectuais brasileiros, mais uma vez nas trincheiras da liberdade. Assim vem acontecendo, desde os tempos da colnia e da poesia de um mulato baiano, Gregrio de Matos.

MARY JOHN, MARIA JOO, MARIANNE

A primeira salva de palmas irrompeu quando o pano de boca subiu no Teatro Fnix, mostrando o cenrio de Santa Rosa, uma revoluo na cenografia do teatro brasileiro, incio de uma nova era. Palmas que se repetiram  apario de cada um dos artistas. Crescendo em demorados aplausos para saudar Procpio Ferreira no papel do vigarista que se proclamava ator do cinema ianque (papel criado antes por Leopoldo Froes); contendo a emoo, comeou a dizer os versos iniciais da pea ainda ao som dos aplausos. Quando Maria Joo entrou em cena, jovem de dezoito anos, trfega e desmiolada suburbana, cabea-devento girando ao sabor dos filmes norte-americanos, miss Mary John, a representao teve de ser interrompida - a ovao se estendeu por um longo minuto.

   Aps esse vibrante incio, o pblico se conteve e a comdia, na fragilidade de sua composio? e na sonoridade dos versos inspirados pela beleza e pelo temperamento de Maria Joo, atravessou os dois primeiros atos num clima alegre ao qual no faltava uma ponta de inquietao: ningum se espantaria se a polcia surgisse de repente e evacuasse o teatro.

   Levantado o pano para o terceiro e ltimo ato, os espectadores se surpreenderam vendo de p, no fundo da cena, no somente o elenco completo como tambm o pessoal das diversas equipes tcnicas,
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
eletricistas, maquinistas, ponto, o autor do texto do programa, Acadmico R. Figueiredo Jnior, o diretor da pea, lvaro Moreyra, todos os que colaboraram para o espetculo. Faltava apenas Maria Joo.

  Enorme cesta de flores azuis, brancas e vermelhas, cores da Frana, ocupava 
o centro do tablado. O pblico voltou a aplaudir, aplausos que cresceram incontrolveis quando Maria Joo surgiu dos bastidores, vestida de Marianne, a saia e a blusa tricolores, o barrete frgio. Ela esperou que a ovao cessasse, a mo posta sobre o corao. Finalmente, com aquele acento de mistrio na voz rouca, inesquecvel para quem o ouvisse por uma vez que fosse, anunciou:

   - Canto de Amor para uma Cidade Ocupada, poema de Antnio Bruno, escrito aps a queda de Paris, pouco antes da morte do poeta.

   Impossvel descrever a comoo do pblico, ningum esperava ouvir, declamado do palco do Teatro Fnix, o poema maldito. Foi como uma descarga eltrica, algum se ps de p, outros acompanharam, logo toda a platia se levantou, aplaudindo, e de p se conservou. O silncio se fez, por fim, um silncio to total que as palavras de sangue e fogo, as estrofes molhadas de lgrimas e sacudidas pela clera, a humilhao e a revolta, o dio e o amor pareciam chegar do fundo do tempo, dos quatro cantos do mundo, rompendo as paredes do teatro.

   O lamento nos primeiros versos. O poeta chorando a cidade violada, um rio de lama onde antes corria o Sena, os corpos dos sacrificados, as botas dos nazistas, o luto e o silncio, o desespero e a morte na voz de cantocho da grande atriz. Depois o poema cresceu para o anncio da libertao, sons de clarins, a voz vibrante e vitoriosa, dizendo da solidariedade, proclamando o dia luminoso de amanh, a vida e o amor. Cada estrofe interrompida pelas palmas em crescendo, nunca se vira coisa igual.

   Na platia, sentada ao lado de dona Rosarinho e de mestre Afrnio, a portuguesa Maria Manuela sorria entre lgrimas, repetindo em surdina, palavra por palavra, os versos do poema, seu poema. No dia seguinte partiria do Rio para Caracas, quem sabe nunca mais ali poria os ps, mas deixava rastro de sua passagem: para servi-la, Antnio conclamara os homens  luta pela liberdade. Tambm Maria
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Manuela se levantar do luto e da viuvez, conclui mestre Portela. Pela mo de Bruno, ao apelo do canto libertrio.

   Correm lgrimas tambm pela face de Maria Joo mas a voz se mantm inteira e firme na apstrofe final contra os assassinos dos povos, cada palavra uma granada e uma ovao. Paris acende a aurora nas mos de Maria Joo, menina brasileira dos subrbios que, de repente,  Marianne, a Frana Livre.

   Paris, Paris, Paris, flama acesa e eterna! Todos de p, a voz de Marianne cada vez mais alta, repetindo o nome da cidade, escrito por Bruno com o sangue de suas veias. Os que ali estiveram, naquela noite, ficaram sabendo, de um saber sem dvidas, que jamais a opresso, a violncia, a morte conseguiro derrotar a liberdade, vida, o homem.

   Maria Joo repetiu Paris pela ltima vez e a aclamao imensa e sem fim explodiu; o mar de aplausos subiu em vagas descomunais, estremecendo o arcabouo do Teatro Fnix.

   No fim do terceiro ato, enquanto Mary John, os demais personagens e o diretor da nova montagem da comdia de Bruno eram mais uma vez ovacionados, do fundo da platia se elevou uma voz de mulher, logo por muitos reconhecida, a da poetisa Beatrix Reynal, entoando as estrofes iniciais da Marselhesa.

   Do palco, a comparsaria a acompanhou, seguida por todo o pblico. Muito mais do que um espetculo ou uma festa, a recita de gala de Maria Joo foi triunfal surtida dos maquis.

REPRESLIA

Em represlia, foi negada a subveno pedida pela Companhia Brasileira de Comdia, empresada por Maria Joo, para a temporada de 1941. A programao proposta compunha-se de Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, de uma nova comdia de Joracy Camargo e de O Rio, primeira pea de um jovem escritor cujo prestgio comeava a se afirmar, redator da recm-proibida revista Perspectivas, de Samuel Lederman, apontado como veemente articulista, exaltado tribuno, comunista dos mais perigosos, Carlos Lacerda. E 
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   Convidada a comparecer ao gabinete do diretor do DIP, com quem mantinha boas relaes, Maria Joo adivinhou, sem dificuldade, o motivo da convocao. Sentaram-se lado a lado no sof de couro negro. O olho troncho do controverso 
personagem fitou a triste paisagem de cimento; ao longe, uma nesga de mar:
- Certas horas tenho vontade de largar o cargo - confidenciou ele -, mandar tudo para o inferno; voc h de perguntar por que no o fao. No sei o que pensar se eu lhe disser que vou ficando porque, de uma ou de outra maneira, consigo impedir certas coisas, atenuar medidas, deixar um respiradouro aberto. Se  assim, porque ento no me mandam embora? Penso que o Homem precisa deles e de mim, de algum que os enfrente. Pelo mesmo motivo no aceita o pedido de demisso do Oswaldo Aranha. Na maioria das vezes sou vencido, mas quem pode ganhar sempre?

   Maria Joo sorriu com simpatia, quase co pena:
   - Desembuche, estou preparada.
   - Tentei defender a verba, me empenhei, posso lhe garantir, voc acreditar se quiser. Mas o escndalo foi grande demais, o poema de Bruno, a Marselhesa, nossos pequenos hitlers esto loucos de raiva. Pelo gosto deles, todo o elenco, voc  frente, estaria na cadeia.
   Contemplou a mulher sentada a seu lado, a beleza, a elegncia e o desafio:

   - Ainda por cima, o repertrio que voc props  de arrepiar os cabelos. Comea com Garcia Lorca, eu adoro mas eles odeiam: republicano espanhol, sinnimo de comunista, fuzilado por nosso bom aliado, o General Francisco Franco. Depois de Deus lhe Pague, a fama do Joracy no  melhor, e o novo dramaturgo que voc descobriu, esse rapaz Lacerda, tem uma das fichas mais volumosas da polcia. Perdi meu tempo e minha saliva. - Uma pausa, o olhar fugindo pela janela: - E agora, que pensa fazer?

   Maria Joo acompanhou o olhar do diretor do DIP, de comeo viu apenas cimento, por fim vislumbrou a nesga de mar azul:
   - Vou montar as peas que programei, a no ser que a censura
as proba.
   - Com que dinheiro? Sei que Hedda Gabler, se no deu prejuzo, lucro tambm no deu.
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   - Arranjo financiamento, tenho onde busc-lo, no se preocupe. - Levantou-se: - De qualquer maneira, obrigada pelo esforo que fez. Sei que  verdade e agradeo.

   Estendeu-lhe os dedos, o diretor do DIP os beijou e a acompanhou at  porta do gabinete. Posto to infame quanto importante, cada dia uma batalha perdida. Ainda assim permanecia agarrado ao cargo, no conseguia abandonar aquela controlada parcela de poder. Nascera na maior pobreza, em nfimo lugarejo nordestino, deveria estar lavrando terra alheia como o faziam o pai, a me e os irmos maiores. Mas lhe arranjaram uma vaga gratuita no Seminrio, pois sua inteligncia e a vontade de estudar sensibilizaram o Cura e o Bispo. Ao ver-se de batina, livro na mo, decidiu ser poderoso, custasse o que, custasse. Custava caro, por vezes caro demais. 

   Na rua, Maria Joo mordeu os lbios, com fora. Nunca tinham conseguido faz-la recuar quando se decidia; assim conquistara um lugar e uma responsabilidade no teatro brasileiro. Levaria seu repertrio  cena nem que fosse necessrio passar um fim de semana em Petrpolis com o Nojento. Depois da remontagem de Mary John nada podia manch-la, se colocara acima do bem e do mal.

CARTER DA CONFRATERNIZAO NATALINA

O contnuo de cabelos brancos serve o cafezinho. No gabinete da Presidncia, Hermano do Carmo escuta as razes dos dois luminares da Justia: o Ministro Paiva, do Supremo Tribunal Federal, e o Desembargador Lisandro Leite, do Tribunal de Apelao. Debatem detalhes do ch natalino cujo objetivo  a confraternizao entre os acadmicos, acompanhados pelas excelentssimas esposas, e o funcionalismo da Casa. 

  Realiza-se na ltima quinta-feira antes do Natal, reunindo em lacre intimidade, uma nica vez ao ano, as senhoras dos Imortais. A mesa apresenta-se ainda mais lauta do que a farta mesa semanal. O Presidente - tendo a Presidenta ao lado - recebe os casais, oferece flores e mimos s damas. Para elas, as esposas, essa festa anual possui 
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sedutor e excitante carter, pois podem percorrer todo o Petit Trianon, a biblioteca, os arquivos, a secretaria, as salas onde os maridos conversam e recebem, territrio proibido s mulheres - o clube de homens mais fechado do mundo, na definio do jornalista Austregsilo de Athayde, que publicara 
recentemente extensa reportagem, completa e imparcial, sobre a Academia Brasileira de Letras.

   Quando da posse de novo Acadmico, elas comparecem ao salo nobre, vestidas por costureiros famosos, recobertas de jias, exibindo penteados, majestosas. Mas no ch natalino o encontro no comporta luxos e formalidades, no h discursos longos a suportar e aplaudir. Descontradas, tratam os temas mais diversos, exibem fotos dos netos, falam de problemas domsticos, a falta de empregadas, o alto custo de vida. Prosseguem conversando e rindo, enquanto os acadmicos realizam rpida sesso, para justificar o jeton, nessa quinta-feira doado aos empregados da Casa. Na poca, as frias da Academia comeavam a primeiro de fevereiro e se prolongavam at o fim de maro. Assim sendo, o ch natalino no encerrava o ano Acadmico, no tendo outro sentido seno o de promover cordial encontro das esposas dos Imortais, por ocasio da maior festa crist, a pretexto de confraternizao com os funcionrios e serviais.

   - Comparece todas as quintas-feiras como se houvesse tomado posse antes de ter sido eleito.  capaz de aparecer comboiando a esposa, no ch do Natal. Inadmissvel! - o Ministro Paiva no esconde sua reprovao.

   Lisandro Leite, cuja oposio  candidatura do General Moreira se acentuara ferozmente ao saber que o postulante decidira no visit-lo, ope veto formal  inoportuna presena: 
   
   - E necessrio, caro Hermano, dar conhecimento ao General do carter restrito de nossa reunio festiva: apenas ns, acadmicos, nossas mulheres e os colaboradores da Casa. No fazemos convites nem admitimos penetras.

   Aqueles pequenos problemas de ordem protocolar deixavam o Presidente quase maluco. A Academia, por sua prpria condio, mantm um ritual preciso a regular cada acontecimento e os Imortais so extremamente ciosos de sua exata observncia. Hermano do Carmo eleva as mos aos cus:
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   -Acreditem que se o General Moreira comparecer, no ser por falta de insinuaes e indiretas de minha parte.
   -Insinuaes e indiretas no resolvem, Linha Maginot no tem esse apelido por acaso:  inabalvel - considera, solene, o Ministro Paiva.
   
   - Sei disso; motivo por que no me limitei s insinuaes. Na quinta-feira, aproveitando um pretexto qualquer, eu lhe disse, clara e diretamente, que o ch da semana do Natal  reservado aos acadmicos, s suas esposas e aos nossos funcionrios. S comparecer se for mesmo um casca-grossa.
   - Se ele vier, pego Maricia e vou embora - ameaa Lisandro.
   - No, Lisandro, voc no far isso... - contesta Hermano.
   - Por que no?  candidato e anuncia que no vai me visitar...
   
   - Exatamente por isso. Essa infeliz declarao do General tem sido muito prejudicial  sua candidatura, marcou ponto contra ele. Mas, se voc revidar, abandonando intempestivamente o convvio de seus colegas na festa de confraternizao, estar dando razo ao General. Voc por acaso deseja que ele tenha razo? Que lhe parece, Paiva?

   - Com certeza. O Lisandro falou sem refletir, est magoado, tem motivo. Mas no vai se retirar coisssima nenhuma. Assumo a responsabilidade.
   O Desembargador no discute com o Ministro a quem sonha substituir quando, dentro de poucos meses, ele se aposentar:
   - O sujeito me ofendeu. Mas  claro que saberei me comportar nos limites da boa educao.
   - Penso que no vir. - Considera Hermano do Carmo: - Fui explcito at demais, temo haver ultrapassado os limites da boa educao que voc acaba de fixar, meu caro Lisandro. Mas se, apesar disso, ele vier, o que  que acontece?
Os dois luminares esperam que o prprio Presidente responda:
   - Por um lado, teremos de toler-lo nos tais limites de Lisandro. Em troca, o General marcar mais um ponto negativo. No existe nada no mundo que no tenha um lado bom.
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  - Ora essa! No  que tens razo! - concorda o Ministro Paiva que no era 
destitudo de malcia e sabedoria.

A FAMLIA FELIZ

Casca-grossa ou a convico de j ser Acadmico, carecendo apenas de mera e prxima formalidade para marcar a data da posse solene e comear a pr em ordem (em ordem unida) a Ilustre Companhia? O General compareceu ao ch natalino, fardado e de brao dado com dona Conceio. Para completar, trouxe a filha Ceclia e o amigo Sabena.

   O amigo Sabena, apaixonado candidato  vaga aberta na cama de Ceclia, feliz, a um passo dos esponsais.

OS ACONTECIMENTOS DE SO PAULO E DO Rio DE JANEIRO

A morte sbita do Coronel Sampaio Pereira resolveu os problemas de conscincia de vrios acadmicos, inesperado alvio. No que se refere, porm, s aes empreendidas pelos numerosos rgos policiais do Distrito Federal e dos Estados e pelos organismos militares especficos, contra os elementos suspeitos de idias e aes subversivas, liberais, antifascistas, esquerdistas variados, uns e outros rotulados de comunistas, no chegou a haver mudana, muito menos alvio.

  Se o Coronel fez falta  frente da numerosa, ativa e bem remunerada rede de represso, o que provavelmente aconteceu devido  firmeza ideolgica e ao prestgio literrio do ex-candidato  Academia Brasileira, logo lhe arranjaram substituto  altura, pois, conforme comentrio do dplice diretor do DIP, no Brasil temos falta de pessoal competente em todos os ramos da administrao pblica,  exceo da Polcia. Servidores eficientes e devotados em todos os escales, de alto a baixo, nas mltiplas especialidades, sobretudo no quadro de peritos 
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em torturas. Os instrutores importados da Gestapo no encontraram o que ensinar, concorreram apenas com alguns sofisticados engenhos. 

   Mal haviam terminado as comemoraes de Natal e Ano Novo, quando um comunicado do Departamento de Polcia Poltica e Social de So Paulo anunciou feito sensacional, primeiro de uma srie a abalar o pas: o estouro do aparelho onde se encontrava reunido um pleno do Comit Central do Partido Comunista. Golpe mortal, segundo a nota da polcia, na estrutura da organizao subversiva, que resultar de persistente labor, demoradas investigaes, complexos estudos devidos ao eficaz sistema de segurana responsvel pela ordem e pela tranqilidade pblicas.

  Alm de brilhante, a ao das foras policiais foi difcil e revestiu-se de herosmo, informava o comunicado distribudo  imprensa. Os comunas, quando se deram conta do cerco estabelecido em torno da casa situada na Serra do Mar, no caminho de Santos, reagiram abala, resultando do tiroteio dois secretas feridos e seis agitadores mortos, entre os quais o procuradssimo Bexiga, membro do secretariado do Partido. Seis mortos, quinze altos dirigentes, dos mais responsveis, encanados, grande quantidade de armas e de material de propaganda apreendida. Outras prises poderiam ocorrer a qualquer momento, pois as investigaes prosseguiam enquanto os detidos eram interrogados. O comunicado no fazia referncias  participao de elementos militares na vitoriosa faanha.

   Poucos dias depois, o Chefe de Polcia de So Paulo convocou os jornalistas acreditados junto a seu Gabinete para anunciar novas e espetaculares atividades da polcia poltica. No prosseguimento das diligncias e em conseqncia de dados obtidos nos interrogatrios, os investigadores haviam localizado a oficina grfica clandestina onde eram impressos o rgo central, A Classe Operria, e a maior parte da literatura do Partido. Cinco elementos dos mais perigosos caram em mos da polcia.

   Os reprteres puderam ver e fotografar o material apreendido nas duas grandiosas operaes: poucas armas - alguns revlveres, dois fuzis, uma estropiada metralhadora, cartuchos de balas -, abundante material impresso. Alm de exemplares do ltimo nmero deA Classe Operria, manifestos, prospectos, panfletos, volantes, contendo palavras de ordem, anlises da contingncia poltica nacional, relatos de 
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movimentos grevistas no noticiados pela imprensa, apelos aos operrios e camponeses, pedidos de ajuda financeira para as organizaes de luta e para os presos polticos. Retratos de Marx, Lenin, Stalin, Dimitrov e Prestes. Alm do Canto de Amor para uma Cidade Ocupada, de A. Bruno, impresso num volante de cor alaranjada.

  Durante a entrevista coletiva, o Chefe de Polcia apresentou aos jornalistas o camarada Ao, nome de guerra de Flix Braga; pelas costas os companheiros o tratavam por Piolho de Stalin, devido  rudeza no trato,  exaltada admirao pelo secretrio-geral do Partido Bolchevique, de quem traduzira o nome de guerra e por ele citado como exemplo a todo e qualquer pretexto, e devido ao feroz sectarismo. Ex-estudante de medicina, oriundo da classe mdia, escondia as origens burguesas, fazendo-se passar por operrio txtil. Abandonara a Faculdade para se entregar ao trabalho ilegal, fizera rpida carreira no organismo partidrio numericamente reduzido em conseqncia dos golpes da reao, chegando a membro efetivo do Comit Central e a suplente do Bureau Poltico.

   O Chefe de Polcia ressaltou a importncia de Ao, seus ttulos e sua periculosidade, antes de passar a palavra ao preso, que tinha uma declarao a fazer.

   A voz insegura, Piolho de Stalin leu um documento que assinara na vspera, por livre e espontnea vontade, como acentuou o Chefe de Polcia. Ao ver-se preso, na solido da cela, pudera refletir, fazer um balano de sua vida, e se dera conta de que sacrificara a juventude por uma causa indigna, milhando no Partido Comunista, monstruoso refgio de assassinos e traidores da Ptria, de que se colocara a servio dos interesses da Rssia. O Partido iludia os estudantes e operrios, levando-os a conspirar e agir contra as instituies, a religio, a famlia, a Ptria. Percebendo o erro cometido, ele, Flix Braga, decidira abandonar publicamente as fileiras criminosas do Partido, fazendo-o atravs daquele documento que escrevera e assinara.

   Lia mal, errava palavras, voltava atrs, aos jornalistas parecia evidente que o texto no fora redigido por ele - um comunista, mesmo desertor, no escreveria Rssia e, sim, Unio Sovitica. Mas a assinatura era dele, sem dvida, pois ali mesmo a repetira nas diversas cpias distribudas aos reprteres.
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   Terminada a deprimente leitura, o Chefe de Polcia pediu a Ao que mais uma vez dissesse se escrevera tais declaraes devido a ameaas ou a violncias dos policiais. Os olhos baixos, respondeu que no; arrependido do seu passado de crimes, ele prprio resolvera dirigir aquela mensagem  mocidade brasileira, para que outros jovens no se deixassem corromper pelos comunistas. Respondeu ainda a outra pergunta do Chefe de Polcia sabia de algum preso que tivesse sido torturado? No. No vira nenhum com marcas de tortura nem ouvira queixas daqueles que com ele haviam sido presos. Batidas fotografias, o arrependido foi levado pelos tiras, os jornalistas no puderam interrog-lo. Para que, se a matria a publicar no poderia sofrer cortes nem acrscimos, nem ser sujeita a dvidas e a debate?

   Manchetes nas primeiras pginas, fotos em quatro colunas, editoriais louvando a competncia da polcia, chamando a ateno dos jovens para o comovente, sincero e dramtico documento de Flix Braga, ingnuo estudante iludido pelo canto de sereia dos comunistas. Uma semana inteira de elogios ao Estado Novo, de insultos  Unio Sovitica.

  Circulavam, todavia,  voz pequena, verses orais sobre os ruidosos acontecimentos, menos hericos, mais aceitveis. Segundo apuraram alguns jornalistas curiosos, tudo comeara com a priso, inteiramente casual, de um elemento que transportava um pacote contendo exemplares de A Classe Operria. Ia de p no nibus cheio quando, para desviar-se de carro vindo na contramo, o motorista atirou o veculo contra um poste, em violenta batida. Ao cair, o rapaz soltou o pacote que se desfez, espalhando exemplares do rgo proibido. Um tira, tambm passageiro, apreendeu o material subversivo e encanou o militante.

   Na Delegacia de Ordem Poltica, o clebre delegado Apolnio Serafim o interrogou. No segundo dia, transformado num trapo sanguinolento, o infeliz revelou os endereos da casa na Serra do Mar e da grfica no Brs, referindo-se inclusive  reunio do Comit Central. No auge da excitao, Apolnio Serafim foi ao Chefe de Polcia, o Chefe de Polcia foi mais adiante, aos organismos militares. Reunio do Comit Central? Assumiram o comando das operaes.
Um bolchevique deve possuir tempera de ao para enfrentar a reao, exigia Ao dos camaradas, ameaador. Levado para ser
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interrogado, ao entrar na sala e ver os tiras com os cassetetes de borracha, o charuto fumegante na boca de um deles, os chicotes corn ns e o sorriso quase cordial nos lbios de Apolnio Serafim (Flix o conhecia de fama e de fotografia), ficou branco de cera e sentiu um frio nos escrotos. Acentuaram-se a palidez e o frio quando enxergou Bangu e Martins, nus de p contra a parede, algemados, rebentados de pancada, cobertos de sangue. Estendido no cho, tambm nu e ainda mais maltratado, o rosto disforme, desmaiado ou morto, o camarada Gato. Martins e Bangu eram operrios, Gato, um jornalista conhecido, Flix Braga sentiu que ia urinar nas calas. Apolnio se aproximou:
  - Vamos ver se tu  mesmo de ao!

   A mo fechada atingiu o peito de Flix, cortando-lhe a respirao. Apolnio Serafim possua certo senso de humor. Minhas mos valem seu peso em ouro, dizia, exibindo as patas de elefante, punhos de ferro. Um soco foi suficiente. Ao no passava de um piolho de Stalin, s faltou vomitar a alma:
    - No me bata, por amor de Deus, conto tudo.

   Contou tudo, assinou o documento que leu para os jornalistas. Guiou pessoalmente as caravanas da polcia at os vrios aparelhos que conhecia, dando azo a nova onda de prises. Para escapar do processo e  convivncia com os ex-companheiros no mesmo presdio, pediu ao Coronel que o ouviu diariamente durante uma semana que o mandasse para o Rio, onde militava habitualmente, podendo assim ser de grande utilidade. Quando o soltaram, meses depois, de sua atuao poltica restou apenas parte do apelido, at os tiras o tratavam de Piolho.

   Tais misrias e tristezas sucedem de quando em vez. Quanto mais sectrio e radical se mostre um tipo, mais frouxo se revela diante da polcia. Quem j militou, sabe dessa verdade.

  Gato, visto por Flix Piolho estendido no cho na sala do delegado Apolnio Serafim, chamava-se Joaquim da Cmara Ferreira, jornalista, redator de um dos grandes dirios de So Paulo. Levava vida dupla, legal e ilegal, na redao do matutino, na direo do mensrio proibido. Era afvel, amigueiro, risonho. No exigia que os demais fossem de ao nem xingava os companheiros de pequeno-
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burgueses, fazendo praa de bolchevique. Foi torturado durante quinze dias, nada lhe arrancaram alm das unhas e de parte da pele. Certa manh, quando o trouxeram da cela para a sevcia, correu em direo  janela fechada, rebentou o vidro a socos e neles cortou os dois pulsos. Levaram-no s pressas para que no morresse. A notcia de sua priso e dos maus-tratos circulara nas redaes. Os jornalistas, o sindicato de classe, a Associao Paulista de Imprensa, os proprietrios do jornal onde Joaquim trabalhava se movimentaram. No morreu mas foi processado e condenado, cumpriu parte da pena, a anistia o libertou em 1945. Era o oposto de Ao e depois de solto prosseguiu milhando at ser assassinado na outra ditadura.

   No Rio, as prises no se reduziram aos elementos descobertos nos aparelhos apontados por Piolho (ainda com algemas nos punhos). Intelectuais, mdicos, engenheiros, funcionrios pblicos, bancrios e at banqueiros foram detidos e vrios deles processados - seus nomes figuravam em listas de contribuintes para as finanas do Partido, encontradas num dos aparelhos varejados.

   Os investigadores invadiram, ocuparam e saquearam o escritrio de advocacia localizado na Cinelndia, dirigido por um causdico considerado dos mais hbeis e capazes, tipo simptico, com livre trnsito em muitas esferas, respeitado inclusive pelos juizes do Tribunal de Segurana onde atuava defendendo presos polticos. Ele e seus colegas de escritrio haviam obtido absolvies e redues de pena, em numerosos processos. Chamava-se Letelba Rodrigues de Brito. Foi preso junto com um dos dois outros advogados e trs dos quatro estudantes de Direito que o auxiliavam.

  Entre os estudantes, Prudncia dos Santos Leite, mais conhecida por Pru. Ainda no quarto ano da Faculdade j se revelava mais competente e arguta do que muitos bacharis. Herdara a esperteza, a obstinao e a bonomia do pai, a beleza e a tranqilidade da me.

O PAI E A ME

Ao tomar conhecimento da priso da filha, Lisandro Leite ficou desatinado. Louco pela mulher, pelos filhos e netos, adorava a filha


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ingrata, desmiolada, inconseqente que se metera com os comunistas e no perdia ocasio de criticar posies e atos do Desembargador e Acadmico. Durante a candidatura de Sampaio Pereira, por exemplo, cansara de encontrar notas agressivas, escritas por ela, em cima de sua mesa de trabalho. Lisandro reclamava, gritava com a maluca, ameaava-a, nem por isso a queria menos. Babava-se de contentamento quando colegas de ctedra na Faculdade, professores de Pru, elogiavam o talento da moa, filha de peixe, peixinho , o devotamento ao estudo, inclusive a meritria (na opinio deles) atuao junto ao Tribunal de Segurana Nacional, auxiliar do pouco recomendvel (na opinio de Lisandro) escritrio de advocacia do doutor Letelba de Brito.

  Moveu mundos e fundos para conseguir a liberdade de Pru, empenhou-se junto aos demais Desembargadores, a militares que conhecera atravs de Sampaio Pereira, fez Hermano do Carmo se movimentar, falando em nome da Academia.

  Transcorriam os dias e o jurista se mostrava cada vez mais apreensivo e macambzio, perdera a graa, o bom humor, a extroverso. No conseguira saber nem mesmo onde a filha estava, tampouco obteve permisso para visit-la. Um dos militares a quem se dirigiu prometeu se interessar pelo caso mas, quarenta e oito horas depois, lhe disse que nada podia fazer por ser grave a situao do pessoal do escritrio: todos, inclusive sua filha, esto enterrados at o pescoo.

   Uma noite, no leito do casal, dona Maricia, vendo o marido insone, revirando no colcho, passou o brao em torno de seus ombros e o trouxe para junto de seu corpo: 
   - Precisas dormir, Lisandro.
   - No consigo. Quando penso na loucura de Pru, tenho ganas de mat-la no dia em que ela voltar.
   - Eu entendo. Temes que a priso de Pru venha prejudicar tuas pretenses ao Supremo.
   A voz irrompeu irada:
   - Que me importa o Supremo! Quero  minha filha em casa, s isso.
Baixou a voz, o acento dolorido, medroso:
   - Eles torturam, tu sabes?
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   - Ouvi Pru dizer, li naqueles papis...
   - No  inveno dos comunistas,  verdade, eu sei. Queimam as costas dos presos com pontas de cigarro, arrancam unhas, espancam, abusam das presas... Seis, sete de uma vez. Defloram, estupram ... Quando penso que Pru est nas mos deles, fico sem ao, no posso dormir...
   Dona Maricia beijou-o nos olhos, na face, na boca:
   - No vo fazer nada disso com Pru, esqueces que ela  tua filha e tu s um Acadmico?
   Aproximou-se ainda mais, Lisandro sentiu o contato dos seios, murmurou:
   - No tenho vontade de nada, estou incapaz.
   - No te aflijas tanto, Pru no tardar a voltar.

   Assim aconteceu. A requerimento dos advogados credenciados junto quela corte de exceo, os juizes do Tribunal de Segurana se interessaram pelo destino do doutor Letelba Rodrigues de Brito e de seus companheiros de escritrio.

   Quando Pru chegou inesperadamente ao apartamento, posta em liberdade no meio da noite, sem sinais de violncia, eufrica por ter sido solta e por ter sido presa, Lisandro a recebeu aos gritos:
   - A culpa  toda tua, tiveste o que buscaste. Queres te desgraar e desgraar tua famlia...
   - No se preocupe, Pai, que no continuarei a viver aqui, vou me mudar.
Dona Maricia soltou a filha do abrao em que a mantinha:
   - No acredites em uma s palavra de teu pai. Enquanto estavas presa, s faltou morrer. No comeu, no dormiu... - Acrescentou sorrindo: - ... nem quis fazer amor comigo, o que aconteceu pela primeira vez desde que nos casamos. Teu pai te adora.
   Pru sorriu para a me, caminhou para o pai: 
   - Pensas que eu no sei? Esse velho reacionrio  um piegas.
   Lisandro passou a mo gorda e suada nos cabelos da filha:
   - No vais te mudar, no  mesmo?
   - S se no me quiseres mais em casa, pai desnaturado.      !
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   - Maluca!
   Pru sentou-se no colo de Lisandro, como o fazia em pequena:
   - Fique tranqilo, Pai. Eu no tive medo nem um minuto.
   - O medo ficou aqui, em casa, viveu conosco esses dias, Pru. Foi a me quem respondeu.
   Dona Maricia veio at o marido e a filha. Dele podia fazer o que quisesse, estava sob sua guarda e a seu servio. Pru escapava de suas mos, era intil querer domin-la.
   - Ests suja, cheiras mal. Vai tomar um banho, eu e teu pai vamos dormir.
   - Dormir? Ser? - Alm de rebelde, debochada. Lisandro sorriu, agora tinha fome, sede, desejo, voltara a viver.

A CADEIRA DO EXRCITO

A partir dos meados de janeiro, o General Waldomiro Moreira passou a freqentar a Academia, diariamente,  tarde. Acadmicos de passagem pelo Petit Trianon, para recolher correspondncia, atender a algum leitor ou amigo, dar dois dedos de prosa ao Presidente, viam-no na biblioteca, a tomar notas, a redigir, a escrivania coberta de livros, e se interessavam pela surpreendente assiduidade. Vinham falar com ele, saber em que se ocupava. Tais interrupes no desagradavam ao General; ao contrrio, tinha gosto em revelar detalhes do trabalho que ali realizava. Alguns Imortais davam corda ao candidato, falastro e fanfarro.

  Candidato nico, acrescente-se, e, como tal, comeara a coligir dados para o discurso de recepo. Pretendia ser empossado logo aps o trmino das frias acadmicas. Havia o problema do fardo, mas Altino Alcntara, amigo e correligionrio, a quem convidara para receb-lo, honrado corn aquele sinal de considerao e estima, prometera soluo para o caso se o Governo de Pernambuco, Estado natal do nclito militar e escritor, cometesse a indelicadeza de romper corn antiga tradio, assente e grata: a oferta ao novel Acadmico do fardo, do espadim e do colar pela terra onde nascera, em prova do
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orgulho pelo conterrneo que conquistara a imortalidade. Se acontecesse tal baixeza, o prestigioso Alcntara levantaria fundos em So Paulo, mais que suficientes para fardo, espadim e colar, sobrando ainda para a champanha comemorativa, aps a sesso solene. Pelos feitos de trinta e dois, o General 
Waldomiro Moreira fizera-se credor da gratido dos paulistas, que jamais esquecem a solidariedade recebida em hora difcil. 

   Claudionor Sabena, nos dias em que no dava aulas - alm do trabalho no jornal ensinava Portugus num ginsio da Prefeitura -, acompanhava o amigo ilustre, o pai de Ceclia, e lhe servia de secretrio, procurando volumes nas estantes, copiando referncias e citaes. Quando sozinho, o General se dedicava a redigir trechos da orao. 

   Seria longa, a cadeira tivera quatro ocupantes, trs generais e o poeta Antnio Bruno. Com o patrono, somavam cinco figuras a serem estudadas para o elogio de praxe. 

   O General Moreira simpatizava com o patrono da cadeira, um clssico do sculo XVIII. Escrevera extenso poema pico em doze cantos, As Amazonas,  maneira de Os Lusadas. Desconhecido pelas novas geraes mas louvado e analisado nos compndios de histria literria: teria sido ou no um precursor do Romantismo? Precedido  de nota biogrfica, as antologias escolares reproduziam trecho da epopia, sempre o mesmo por estranha coincidncia. O patrono manejava aquela perspcua lngua portuguesa do agrado do autor dos Prolegmenos Idiomticos que, alis, se opunha aos crticos, no enxergando emAsAmazonas indcios de romantismo - os poetas da escola romntica foram extremamente descurados no trato do idioma, to correto nos versos do patrono.

   Manuseando veneranda edio, rarssima, um dos tesouros da biblioteca, o General saboreou, um a um, os doze cantos, declamando pginas e pginas para o atento Sabena - amor a quanto obrigas! Sentia-se culpado por no ter lido antes aquela jia de nossa literatura clssica. O amigo Sabena certamente a lera mais de uma vez, o General lembrava-se de ter visto um trecho reproduzido naAntologia da Literatura Luso-Brasileira. Sabena mentiu duplamente: sim, lera repetidas vezes, porm melhor ainda era ouvir as castias estrofes ditas pelo General, a voz imperiosa, mscula, marcial. Em verdade no lera, 
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fato pouco recomendvel para um autor de antologias, e na Luso- Brasileira reproduzira aquele mesmo famoso trecho, no sendo o primeiro a copi-lo. Se algum, no passado, tomara a si a tarefa da escolha, por que os demais haviam de atravessar o cipoal das duzentas pginas escritas em magistral e ilegvel vernculo? Enquanto o General lhe martelava os ouvidos com os versos do patrono, Sabena sonhava com Ceclia, deslumbrado.

   No discurso de recepo, calculado para umas trinta e cinco a quarenta laudas, medida conveniente, cerca de duas horas de leitura, trs pginas seriam dedicadas ao patrono. O General reclamaria maior ateno e culto para sua memria e seu poema. O miolo do discurso, contudo, faria anlise da obra dos trs Generais que haviam ocupado a cadeira, sucessivamente, antes da absurda eleio de Bruno. O General Moreira se adentrara, com a impvida valentia revelada nas trincheiras constitucionalistas, pelos livros dos bravos militares e os mastigara, um a um, com grande deleite intelectual.

   O primeiro General deixara apenas um volume e dos mais franzinos, cento e doze pginas em tipo grado, sob o ttulo de Datas Faustas da Nacionalidade, reunindo alocues comemorativas, pronunciadas nos aniversrios de relevantes feitos, quase sempre batalhas vencidas pelas tropas brasileiras nas guerras do Imprio. Bastante, todavia, para que o autor, expoente das Foras Armadas, pudesse represent-las no quadro dos Fundadores da Ilustre Companhia. Viveu mais de noventa anos; se lhe faltavam livros, sobrava-lhe simpatia, tendo sido de muita utilidade para a Academia nos tempos iniciais de pobreza e descrdito.

   Em troca, foi sucedido por General de vasta bibliografia que morreu poucos meses aps a posse. Historiador exuberante, deixou oito alentados tomos sobre 9! Guerra do Paraguai, quatro sobre a Questo Cisplatina e, quando faleceu, trabalhava numa srie sobre a campanha contra o tirano Rosas, da Argentina, da qual publicou apenas o primeiro volume, deixando dois outros inditos - inditos se conservam at hoje. O General Moreira conhecia alguns desses livros e os tinha em grande estima. Sentia a obra do panfletrio de Lpez, o Dspota como precursora da sua, contendo uma e outra o mesmo exaltado (e cego) patriotismo.
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   O terceiro General, alm de autor de srios e curiosos ensaios sobre os indgenas, publicados na Coleo Brasiliana, nos quais estudou seus costumes, lnguas, tradies e crenas, era uma figura quase lendria. Sertanista, varara florestas e pntanos, cruzara rios, estabelecera contatos com tribos que jamais haviam visto um branco. Compreenso e simpatia pelos silvcolas marcavam com um sopro de humanismo sua obra e sua atuao. Antnio Bruno, no discurso de posse, descobriu nele um poeta, se no nos livros que publicou, decerto na saga que viveu. 

   Da anlise da obra e dos feitos dos trs Generais nascera o ttulo sob o qual o General Moreira pensava publicar seu discurso, breve e substancioso ensaio: A Cadeira do Exrcito.

   Reservara pouco mais de uma pgina para a poesia de Antnio Bruno que, a seu ver, melosa e frasearia, nem isso merecia. Mas, como diria o dissoluto vate, viciado em citaes francesas, noblesse oblige...

   Percorrera os diversos volumes de poemas e crnicas do falecido e no guardara boa memria nem da poesia nem da prosa. Bruno usava e abusava do verso livre, abandonando rima e mtrica, e sem rima e mtrica no existe verso que se preze, afirmava o General. Freqentemente obscuro, incompreensvel, surrealista, em lugar de poesia compunha hierglifos. Sem falar na linguagem chula e nos inmeros galicismos.

   A pea em versos, Mary John, cuja remontagem assistira a convite do Acadmico Rodrigo Incio Filho, lhe parecera banal e frvola. Quanto ao poema sobre Paris, Bruno precisaria ter buscado inspirao em Os Lusadas ou, ao menos, nas estrofes de As Amazonas se realmente desejasse compor canto guerreiro capaz de conclamar os povos. Em resumo, Antnio Bruno no passava de um enganador, de um poeta chinfrim. Evidentemente no proclamaria essa verdade do alto da tribuna, soaria mal - os ritos acadmicos exigem do sucessor o elogio irrestrito daquele a quem sucede.

   No escondeu, porm, seu desapreo pela poesia do leviano vate de O Danarino e a Flor nas conversas com os acadmicos, durante a quinzena de intenso trabalho na biblioteca do Petit Trianon. Importante, de fato, no discurso, era A Cadeira do Exrcito, cuja nobre prospia seria retomada com sua eleio. Bruno nada tinha a ver com e por engano a ocupara.
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   Alguns acadmicos lhe davam corda, puxavam por sua lngua falastrona, outros ouviam em silncio. O General Waldomiro Moreira tomava corda e silncio como aprovao e concordncia. Candidato nico, no tem motivos para guardar secretos seus pensamentos. Bruno, no discurso de posse, entrava de intrometido, paisano de condenveis hbitos em meio a militares impolutos.

A BALZAQUIANA

Do grupo estofado, num recanto da biblioteca, para onde conduzira dona Mariana Cintra da Costa Ribeiro, mestre Afrnio Portela percebe o General Moreira debruado sobre a escrivania, lpis em punho. Pede licena e, a pretexto de evitar a luz direta, muda de poltrona, ficando de costas para o candidato. Retira da pasta a lauda de papel apergaminhado. No alto, as letras AB, iniciais do poeta, impressas em relevo; abaixo, as palavras traadas com a caligrafia bonita, quase um desenho: A Camisola de Dormir. Estende a pgina  senhora que mal pode conter a emoo:
   - Aqui est. Eu a recolhi para guard-la, uma espcie de relquia... Cada um tem seus santos.
   Uma lgrima brota e escorre, dona Mariana no busca impedi-la:
   - Morreu pensando em mim. Tantos anos passados, no se esquecera.

   No velrio, Afrnio Portela a cumprimentara quando, silenciosa, escutava o elogio de Bruno, no grupo de amigos. Beleza fanada, os cabelos de prata, ainda assim se impunha pela dignidade do porte e pela nostalgia dos grande?, imensos olhos de gua, tambm eles marcados pela idade, empapuados. Mestre Afrnio a ouvira suspirar, que recordaes esconderia no fundo da memria pejada de lembranas?

   No voltara a v-la no decorrer daqueles meses e na vspera se surpreendera com o telefonema interurbano, pouco habitual na poca. De So Paulo, dona Mariana solicitava uma entrevista. Chegara de avio para encontr-lo na Academia, conforme combinaram. Ali
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estava, a lgrima descendo pela face, a folha de papel na mo trmula, a voz ameaando romper-se em soluos. Conteve-se - sabia faz-lo - e prosseguiu:

  - Comemoramos seus vinte anos com uma festa que durou vinte e quatro horas. 
Fomos a uma casa de jias e lhe dei um relgio de presente, para evitar que chegasse atrasado como sempre acontecia. Eu j completara os trinta e dois e ele me chamava de balzaquiana, mas no para me ofender, muito pelo contrrio. - Um sorriso entre as lgrimas.

  Mestre Afrnio faz as contas, doze anos mais idosa do que Bruno, estava por conseqncia com sessenta e seis. No aparentava tanta idade, alis parece mais moa do que h quatro meses, os bolses sob os olhos haviam desaparecido.
Como se adivinhasse tais pensamentos, dona Mariana informa:

   - Estou com sessenta e seis e se no o procurei antes foi porque, logo aps a morte de Antnio, me internei numa clnica em So Paulo para uma pequena plstica. S a fiz para atender a um pedido de Alberto, ele gosta de meus olhos, retirei as bolsas que os enfeavam.

   Alberto da Costa Ribeiro, o marido, uma das potncias financeiras do pas, rei do caf, implacvel homem de negcios, grande fazendeiro, maior exportador. Afrnio o conhecia de longa data, o pai de Alberto e o de Rosarinho haviam sido scios em diversos empreendimentos.

   - No podia me apresentar em pblico antes da cicatrizao completa, fui me esconder na fazenda em Mato Grosso e l me demorei todo esse tempo, gosto daquela paz. Trasanteontem, folheando um nmero atrasado da Careta, fiquei sabendo, por um artigo de Peregrino Jnior, que Antnio acabara de escrever, numa folha em branco, as palavras   a camisola de dormir quando teve o enfarte. Peregrino acha que devia ser o ttulo de um poema. No imagina a minha comoo. Na hora de morrer, pensara em mim, recordara sua balzaquiana.

   - Era realmente o ttulo de um poema? - Curioso e discreto, mestre Afrnio.
   - Que no chegou a escrever. - Elevou a cabea, semicerrou os olhos (teus olhos fluviais, dizia Bruno): - O que ele intitulava
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orgulhosamente de estdio, era uma mansarda, no sexto andar de um pequeno hotel de estudantes, o Saint Michel. At hoje existe, na rue Cujas, ao lado do Boul'Mich. Pensei que ao conhecer Antnio eu havia destrudo minha vida, aconteceu exatamente o contrrio. Volta o olhar para o rosto solidrio do romancista: - Vou lhe dizer uma coisa absurda e verdadeira, meu amigo: foi Antnio quem salvou meu casamento e fez de mim uma esposa boa e fiel.

   Ai, as mulheres de Bruno! No cessam de confundi-lo, de derrot-lo, enigmticas personagens, que romance mais ilgico!

   -Lembro bem aquela manh porque durante toda a semana fizera mau tempo, sem sol. Quando acordei e estendi os braos para Antnio, ele estava de p e me contemplava com uma expresso de encantamento. Eu... eu estava nua,  natural que assim estivesse. Com aquele sorriso lindo de menino sem juzo, me disse: ests vestida com a luz do sol, tua camisola de dormir. Vou escrever um soneto para ti, com esse ttulo. No lhe dei tempo, ficou para depois, na hora da morte se lembrou. Se lembrou de mim.

   No consegue prender o soluo. Tapa a boca com o leno, num esforo se refaz, grande dama habituada a dominar os sentimentos.
   - Vim lhe propor uma troca. Deixe essa pgina comigo e eu lhe darei uma coisa muito valiosa mas que na minha mo continuar intil.
   Abre a bolsa de viagem, retira um caderno escolar:
   
   - Nesse caderno Antnio escreveu para mim uma coroa de sonetos. So impublicveis, infelizmente, pelo menos em edio para vender nas livrarias. Pensei que o senhor poderia mandar imprimir uma edio pequena, de luxo, talvez com uns desenhos. Alberto tem muitas edies dessas, francesas e inglesas. Os desenhos podiam ser do Di Cavalcanti,  muito amigo de meu filho mais velho, Antnio.
   - Aps dizer o nome, uma ligeira pausa: -  o retrato do pai.. 
Afrnio Portela recolhe o caderno, vai folhear as pginas, dona Mariana pede:
   - Por favor, depois que eu for embora. No sei quanto custara |a edio mas, se o senhor aceitar o encargo, eu pagarei as despesas. Quero apenas que me mande um exemplar, quando sair.
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   - Fique descansada, no precisa financiar, deixe tudo por minha conta. O Di, onde anda?
   - Em Lisboa com Antnio, vieram fugidos da Frana, tocados pela guerra. Entre as coisas que Antnio herdou do pai est a paixo por Paris. Vive mais l do que em So Paulo. Esto esperando, transporte para o Brasil.
   - E os originais?
   
   - Faa doao  Biblioteca da Academia ou  Biblioteca Nacional, deixo ao senhor a escolha. No quero guard-los comigo por mais tempo. De repente morro, no desejo que Alberto encontre esse caderno em meio aos meus pertences. Somente o senhor sabe que esses sonetos foram escritos para mim, nem Slvia teve conhecimento deles.
|         
   Desceram o elevador, mestre Afrnio foi lev-la ao porto de sada onde um txi a esperava, o chofer lendo notcias da guerra, num vespertino. Mariana curvou-se para entrar no carro, o romancista sorri ao admirar o volume das ancas - ela no escolhera Di Cavalcanti ao acaso para ilustrar a coroa de sonetos, o livro indito de Antnio Bruno, o primeiro, anterior a O Danarino e a Flor, e ainda por cima, frascrio, preciosidade bibliogrfica.

   Mestre Afrnio no retorna  biblioteca. Refugia-se numa das salas do terceiro andar, em meio aos arquivos. L de um flego os quinze sonetos libertinos. Iniciao ao Gozo. Um subttulo: Coroa de Sonetos para uma dama paulista, bacante de Parir, a dedicatria: Para M..., minha Maria de Mdias.

   Retorna ao primeiro soneto, rel o verso devagar, a meia voz, como quem degusta um vinho de esquisito buqu: 
  O calipgia Vnus de formosa bunda. \
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A SENHORA DE BELEZA PANADA
I

Unio de duas famlias tradicionais, aliana de duas poderosas fortunas, especularam os jornais no prolixo noticirio sobre o casamento de Mariana d'Almeida Cintra com Alberto da Costa Ribeiro. Entretanto fora um casamento de amor, noivos assim apaixonados eram raramente vistos nas altas camadas da sociedade onde o dinheiro comanda os sentimentos.

    Mariana, elevada estatura, loira de corpo exuberante-fugida de um quadro de Rubens, escrevera o poeta Menotti dei Picchia que por ela suspirara, curtindo aguda paixo -, aqueles olhos romnticos, imensas gotas de gua, perdidos no infinito; Alberto, ainda mais alto, belo, espadado, moreno, aplaudido esportista, vencedor de provas hpicas, saltando obstculos, montando cavalos excepcionais, com haras no Jquei Clube, scio do pai. A firma de exportao, sediada em Santos, comandava a bolsa do caf, decidindo sobre a alta e abaixa, encaixando rios de dinheiro. As fazendas de uma e outra famlia ocupavam as terras mais frteis de So Paulo, onde floresciam extenses de cafezais de lavra superior. Em Mato Grosso, engordavam gado de raa pura e milhares de cabeas de zebu.

   Vinte anos completara Mariana, ele vinte e cinco, quando saram em viagem de npcias, num cruzeiro de trs meses ao redor do mundo, mas a lua-de-mel prosseguiu durante mais de quatro anos: recepes, festas, bailes, passeios, viagens  Argentina, aos Estados Unidos,  Europa. 7

   Depois tudo mudou. Com a morte do pai, Alberto assumiu sozinho o comando da firma, a administrao das fazendas, por ser o mais velho dos irmos e a me no se envolver em negcios. Antes, auxiliava o pai, participava de decises, dava palpites mas o comando era do velho. Alberto vivia para a esposa, satisfazendo-lhe os menores caprichos, amoroso e devotado. Talvez pudesse ser um pouco menos formal na cama, pensava por vezes Mariana, o corpo se consumindo
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em desejos cuja existncia Alberto desconhecia pois ela, pundonorosa, jamais deixara transparecer a nsia a devor-la. Por isso, faziam uma vida sexual 
corriqueira e freqente, sem exageros e requintes. Para os exageros e os requintes Alberto recorria s francesas, na Capital e em Santos.

  Pouco a pouco, os inmeros afazeres, a febre dos negcios, ocuparam-no por inteiro e Mariana se viu cada vez mais relegada a um segundo plano na vida do marido, a quem faltavam tempo e bom humor. Terminaram os dias de cio, os cruzeiros de prazer. Alberto viajava muito, viagens de negcio, apressadas e cansativas. Cumpria as obrigaes sociais, to gratas a Mariana, reclamando,  fora, esmagado pela trabalheira e pela responsabilidade que lhe pesavam
sobre os ombros. Ainda fazia um pouco de esporte mas j no era o imbatvel cavaleiro de antes, descurara os ginetes e o haras estava - entregue aos irmos mais moos.

   Doze anos aps a festa maravilhosa do casamento, a vida conjugai de Mariana e Alberto chegara a um impasse. Num dia de chuva e  solido, cansada do abandono que ela acreditava resultar de indiferena e desamor de parte do marido, Mariana decidiu desquitar-se. No tinham filhos e a vida se transformara num sacrifcio estpido e intil,  apenas humilhao e desgosto. Acontecia Alberto passar um ms ou mais sem a procurar; ao se mudarem para o palacete novo, de linhas
modernas, projeto de Warchavchik, ocuparam quartos separados.

   Quando comunicou a Alberto sua deciso, o exportador de caf no quis acreditar. Ficou alucinado. Ests louca? Desquite por que, se vivemos to bem e nos amamos? Ou ser que no me amas mais? Ela o amava, sim, quem sabe talvez ele ainda a amasse, mas de que adiantava esse amor se j quase no se viam, raramente saam juntos para uma sesso de cinema, um espetculo de teatro, um compromisso social? Sabes h quanto tempo no bates na porta de meu quarto? Quase dois meses, te ds conta?

   Alberto defendeu-se. Fora a prpria Mariana quem pedira quartos separados, o que a ele parecera revelar desdm, desinteresse da esposa, sentira-se machucado. Tambm a falta de filhos concorria para o afastamento, tanto haviam desejado as crianas que no chegaram. De quem  a culpa? Mariana sujeitara-se a tratamentos, consultara especialistas, tudo intil. Alberto fez exames mdicos, no
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era estril. Foram se distanciando e Mariana comeou a ficar amarga. Fmea nascida para o amor e no o tendo, sofria trancada no orgulho de grande dama. Altiva demais para reclamar.

   A princpio manteve-se intransigente na deciso de separar-se. Mas Alberto a adorava, no admitia a possibilidade de viver sem ela. Sugeriu uma opo. A irm mais velha de Mariana, Slvia, que enviuvara havia pouco mais de dois anos, estava residindo em Paris, onde alugara um andar nas proximidades dos Champs-Elyses. Por que, antes de tomar uma deciso irrevogvel, Mariana no ia passar uns meses com a irm? Alberto props seis meses de frias conjugais. Caso suportassem viver longe um do outro, se desquitariam. Mas se sentissem a falta da vida em comum, voltariam para nova tentativa. Quem sabe, aps esses meses de ausncia, tudo tornaria a ser como nos primeiros anos? Ademais, os dois irmos de Alberto estavam trabalhando com ele e o mais moo revelava boa cabea para os negcios. Nesse meio tempo, trataria de passar para os irmos o grosso do trabalho e parte da responsabilidade que at agora carregara sozinho. Mariana concordou, no fundo no desejava perd-lo.

   Do cais de Santos, Alberto acenou adeus, Mariana chorou durante toda a viagem na sute do paquete ingls. No contava permanecer em Paris mais de ms, cumpriria os outros cinco na fazenda mais distante, uma que vinham de adquirir na fronteira de Mato Grosso com o Paraguai.

II
Slvia deixara em So Paulo os vus de viva e as obrigaes de famlia, ningum a diria oito anos mais velha do que Mariana. Remoara em Paris. 
   - Minha filha, fui escrava do marido e dos filhos vida inteira. O marido morreu, os filhos esto criados, terminando a Faculdade, cheios de dinheiro, no precisam de mim, viva Paris!
   Foi ela quem apresentou Bruno a Mariana:
   - Precisas de algum que te acompanhe, te leve a passear, a danar, te ensine os restaurantes, os teatros. Daqui a alguns dias se realizar o Baile de Mscaras da pera, precisas ir  costureira
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
encomendar tua fantasia. Para tudo isso e para o resto,  indispensvel um gigol. E eu sei de um feito  tua medida.  lindo e escreve versos.
   - E tu, tens um?
   - Para falar a verdade, tenho dois, o pequeno Jean e o grande Andr, so opostos no tamanho e em tudo mais, gosto de variar.
   - S que eu no gosto de variar, para mim at hoje s existiu Alberto.
   - Exatamente porque sei que s mongama, te aconselho somente Bruno. Se chama Antnio Bruno, estudante, poeta e baiano, queres melhor? Em matria de dengue, no tem igual.
   -Ficaste maluca. Vim aqui para esquecer meu marido, no para tra-lo.
   - Quem te falou em trair? Ests trgica, mulher! Bruno vai apenas te acompanhar, passear contigo, te levar  modista, ao restaurante, um pajem. S ir mais longe se tu consentires, se no fores capaz de resistir.
  
   Resistiu ao dengue, ao encanto,  poesia do rapaz durante mais de uma semana, sucumbiu por ocasio do Bal Masque da pera, ao nono dia.

   Antes, em companhia de Antnio - nunca o tratou por Bruno -, rapazola de terna e atrevida presena, descobriu uma Paris que no conhecera nas viagens precedentes, visitou museus, catedrais, aprendeu a Notre-Dame em seus detalhes e aprendeu a amar a graa, o encanto da cidade, sentiu o sopro de seu hlito verdadeiro, mais alm do turismo a que estava acostumada. Ora com Jean, ora com Andr, sempre com Slvia, varavam as noites dos restaurantes, bistrs, teatros, cabars, danando, rindo, bebendo champanha, ele a lhe repetir declaraes e versos de amor. Estaria realmente apaixonado? Era belo e gentil, irresponsvel e imprevisvel. O perfil moreno e forte recordava-lhe Alberto quando ela o conhecera, jovem e audaz cavaleiro saltando obstculos na Hpica, um Alberto que fosse poeta e louco. Cedeu-lhe beijos furtivos aqui e ali, nas pistas de dana, incomparvel danarino!, nas madrugadas  hora do retorno, quando Slvia, desavergonhada, se atracava com o acompanhante de planto. Mas no passara disso.
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   Recordando-se dos galanteies de outro poeta, o das Mscaras, fantasiou-se de Maria de Mdicis como ela  vista na hora do casamento por procurao, no quadro de Rubens. Fantasia? Era a prpria Maria de Mdicis e foi a Rainha do Bal Masque. Bruno enfiara o mesmo Arlequim do ano anterior. As saias pesadas da fantasia a impediam de ser o par ideal na dana do maxixe, mas Bruno era um virtuo-se, a ponto dos outros pares se afastarem e aplaudirem. Slvia aproveitou o sucesso da irm para sumir com Andr.

   Na barra da manh, Mariana se encontrou, Rainha pela metade, escrava da cintura para baixo, no leito do moo danarino, vagabundo e gigol, Franois Villon dos trpicos, como ele, gaiato, se intitulava a rir, aps ter subido, bbada e irresponsvel, os seis ngremes lances de corrodos degraus, at a mansarda no sexto andar do Hotel Saint Michel.

   Ao tomar posse do corpo esplndido da paulista, Bruno morria de desejo contido a duras penas. Nenhuma outra lhe custara tanto tempo, tamanha lbia, todo o dengue. Mariana abusara de sua pacincia, respondia aos galanteies com o nome e as qualidades do marido, ultrapassara todos os prazos; o competente conquistador sentira-se  beira do fracasso. Humilhante. Assim, na primeira vez, ele a possuiu com ferocidade, quase com raiva, despedaando as faustosas saias reais (a fantasia de rainha ficara pelos olhos da cara, encomendada a chiqurrimo costureiro), arrancando engomadas anguas, deixando-a de espartilho e grande gola armada. Um furaco.

   Passado o mpeto inicial, sentindo a adltera estreante estremecer na hora do gozo, prendendo um gemido, Bruno deu-se conta do drama daquele corpo de mulher feito  medida da incontinncia para a festa da cama e dela carente pois tivera apenas o limitado leito matrimonial de rico homem de negcios. O marido, cujo nome e vitrias na Hpica ela mantinha na boca em permanncia, podia ser cavaleiro emrito, campeo de sensacionais torneios, bonito, multimilionrio distinto, agradvel e tudo o mais, porm, na matria bsica que determina todo o resto, no ia alm do trivial, como Bruno pde facilmente comprovar.

  Depois de t-la violado com furor de apache, comeou a desvestila devagar, pea por pea, gastando tempo, pois, enquanto o fazia, apossou-se de todos os detalhes, em cada mincia se detendo, levando
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o corpo da mulher a vibrar inteiro, aceso, no espanto e na revelao do gozo. Perito na arte do prazer, por gosto e ofcio, Bruno a trouxe do trivial de Alberto para os manjares refinados, desvendando-lhe usos e costumes para ela inditos, delicadezas de lnguas e sensaes de tato, quando naquela primeira madrugada tocou nas ancas e nos peitos modelados por Rubens, na flor desabrochada em mel. Por fim a viu inteiramente nua, os altos seios, as fornidas coxas, os imensos olhos de gua pura. Virou-a de costas, o dorso magnfico, os quadris de gua, montaria que Alberto no soubera cavalgar. Em; espuma de champanha a saboreou devagarinho.

  Mariana reagiu numa exploso ansiosa e-urgente, demonstrando ao mesmo tempo ignorncia e vontade de aprender. Vulco adormecido, de sbito em erupo: chamas elevaram-se aos cus e pelas colinas do corpo da rainha escorreram lavas. O pequeno estdio, a pobre mansarda, na hora de luxria gemeu na msica dos ais de amor; se perfumou com aroma de mulher, suor de homem, odor de esperma, de sexo satisfeito, saciado e insacivel; se iluminou com a luz nascida nos olhos de gua de Mariana, ainda maiores pois cheios de lgrimas. Assim teve incio a bacanal, durou trs meses.

   Trs meses durante os quais Mariana se entregou e recebeu, recuperando os anos perdidos. Nada desejava seno estar na mansarda do poeta, do rapazola, do menino da Bahia que l bon Dieu de France lhe enviara pela mo fraterna de Slvia. Enchia-o de presentes, bebiaIhe palavras e versos. Beliscada, mordida, lambida, chupada, penetrada, cavalgada, cavalgando, cada noite uma estria, uma nova sensao, os sabores to diversos, as diferenas de buqu - e tudo em francs, lngua na qual nenhuma palavra referente ao amor  obscena: l beau vit et l gentil con, la verge et la chatte, la rosette et ls feuilles de rose, ls nichons et ls cuisses, la niotte, l cul. Bruno dizia-lhe poemas erticos de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Apollinaire: tes fesses lourdes comme desfromages de Hollande e os praticava: ma queue clatait sous tes lvres/comme une prune de juillet. Mariana aprendia e repetia com o acento das freiras do Ds Oiseaux onde estudara francs: mon culs'veille au souvenir/d'une inoubliabk caresse. Maravilha, adormecer nos braos de Bruno, despertar ao toque da lngua exmia:Ah!, comme c'est bon. 
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   Cama de gigol e de balzaquiana, de vagabundo e de bacante, gana e cio, fome 
e apetite. No lhe bastando a poesia dos outros, Bruno comps para Mariana uma coroa de sonetos dissolutos, onde cantou detalhe por detalhe seu corpo magnfico, dando rima e metro libertinos ao romance parisiense do Franois Villon da Bahia e da Maria de Mdicis de So Paulo, vivido no Boul'Mich.

III

O romance no se limitou porm s manhs e noites de carcias,  imensa bacanal. Foi completado e engrandecido pelas tardes de p   passeios, pelas infindveis conversas  borda do Sena, nos bistrs de Saint-Germain, nos jardins do Luxembourg, teusjardins e teu palcio minha Maria de Mdicis. Mariana narrou alegrias e tristezas, passou em revista sua vida. As iluses da aluna do Ds Oiseaux, os primeiros bailes, a herdeira exigente recusando noivos, o encontro com Alberto, o amor desmedido, o casamento feliz, a volta ao mundo, a lua-de-mel que se prolongara por mais de quatro anos e depois o lento abandono, indiferena, a ausncia de filhos, os quartos separados, o marido no af de ganhar dinheiro, dividido entre So Paulo e Santos, por fim o desespero, a proposta de desquite, a vinda para Paris antes de uma deciso final e irremedivel. Em Paris encontrara Bruno, a felicidade. A felicidade? Ou apenas o prazer, o frenesi de maravilhosa aventura, depravada e dulcssima? Fosse o que fosse, tornara o desquite obrigatrio, j no se tratava de saber se sentia ou no falta de Alberto. Ela o trara, acabara-se tudo.

   Bruno escutava com aquela terna ateno que desde cedo soube conceder s mulheres, tomava-a nos braos, mudava de assunto, beijava-lhe os imensos olhos de gua para afast-la dos tristes pensamentos:
   - Tens duas coisas, minha rainha, que nenhuma mulher possui mais belas: teus olhos e teus quadris.

   Falava de canonetas e quadros, dizia-lhe um verso recm-escrito mas ela voltava ao eterno tema do marido agora perdido para sempre. Uma noite, aps galgarem os abruptos lances de escada que levavam ao sexto andar do Saint Michel, Bruno perguntou:
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   - Por que ests preocupada? O que aconteceu? 
   Mariana abriu a bolsa, procurou o telegrama: 
   - L...

   Alberto anunciava o embarque num navio francs, estaria em Paris na quinzena seguinte, no suportara esperar os seis meses combinados, entregara a firma aos irmos, obtendo tempo para a esposa: sem ti no posso viver, afirmava no cable da Western.

   Ia ser desagradvel, desagradvel no, muito pior, ia ser um horror mas tinha de lhe dizer que a continuao da vida conjugai se tornara impossvel, ela o enganara... Bruno a tomou nos braos, comeou a despi-la enquanto falava:
   - No vais fazer nada disso, minha Maria de Mdicis, no contars coisa alguma, tu amas teu marido, essa  a nica coisa verdadeira, ppor que queres faz-lo sofrer
   -Achas que ainda amo Alberto? Se  assim, por que o tra?

   - Falas nele sem parar, andas com Alberto a teu lado o dia inteiro, se eu no fosse um bom rapaz podia at me ofender. Eu no sou teu amor, apenas te dei algo que te faltava, o conhecimento do prazer. Foste mal amada, certamente tanto por tua culpa quanto por culpa de teu marido. Quem sabe, rainha, te fechaste em tua altivez, em teu decoro imperial? Eu pude romper teu orgulho porque estavas embriagada e te tomei  fora. Quando rasguei tua roupa, desnudei teu corao. No  certo?
   - Acho que sim... - to jovem ainda, Antnio sabia ou adivinhava?
   
   - Ento? Volta para teu marido e faz de tua cama de casada a garantia de teu amor. Entrega a Alberto tudo o que te dei, tudo o que tomei de ti e te restituo. Mas somente na vspera dele chegar. At l sers minha, unicamente minha. Mariana Maria de Mdicis da Costa, nunca te esquecerei. Na hora da morte, me lembrarei de ti. Agora, vamos, depressa, temos poucos dias para a festa da despedida.
   - Mesmo que eu o ame, agora  impossvel voltar para ele, Antnio...
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   Bruno se assustou. Pensaria ela em vida em comum, em transformar a aventura alegre, exaltante e efmera em concubinato pior que o casamento?
   - J te disse, lembras?, que no pretendo me ligar a mulher nenhuma, no sou permanente, apenas provisrio.
   - No tenhas medo. Vou voltar para o Brasil...
   - Quero te dizer outra coisa: tu nasceste para casada, para ser fiel a teu marido. No te vejo passando de mo em mo, no serias feliz..
   - No se trata de nada disso, Antnio. Escuta: alm de tudo que me deste, dos versos e do prazer, tu me engravidaste. Te aviso logo que no vou abortar, sempre quis ter um filho. Mas no vou te aborrecer, terei meu filho no Brasil. Ele far que me recorde de ti, de meu Antnio provisrio.
   Bruno sorriu, a face iluminada:
   - Um filho? Por que teu filho? To teu quanto meu, nosso menino!
   Ficou pensativo durante longo minuto, depois a tomou nos braos e a beijou nos olhos e na boca. Ento falou, de sbito srio e refletido, experiente aos vinte anos como acontece apenas aos poetas; eles possuem o dom divinatrio:
      
   - Teu marido tambm deseja um filho, no ? Ademais somos parecidos, ele e eu, assim me disseste. No penses que abandono o nosso menino; sei que vai ser um menino e tu lhe dars o nome de Antnio. Mas, reflete comigo: por que vais criar um filho sem pai, adulterino? Ele pagar caro por isso, a vida inteira. Para o nosso Antnio, o melhor que pode acontecer  nascer filho de Alberto Ribeiro da Costa e eu quero o melhor para meu filho. No te exaltes, no me julgues indigno, pensa devagar, com calma, vers que tenho razo. Quero te dar mais do que o prazer e o filho, quero te dar de volta teu marido. Com ele, tu e Antnio sero felizes.

   Assim foi. Na vspera da chegada de Alberto, na hora do adeus, ela agradeceu, chorando, e Bruno lembrou que ficava lhe devendo um poema, um dia o escreveria pois guardava na retina a imagem do corpo de Mariana vestida com uma camisola de luz, da luz da aurora.

   Ao menino concebido em Paris, em leito de bacante na mansarda do sexto andar do Saint Michel, deram o nome de Antnio, em ao
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de graas ao santo protetor do matrimnio a quem Mariana recorrera pedindo um filho. O milagre aconteceu na noite da chegada de Alberto quando ela se despiu para o marido, em casa da irm, e pondo de lado o pundonor se deu corn fria e exigncia. Deslumbrado, Alberto afirmou:
   - Hoje vou te fazer um filho, tenho certeza, meu amor.

   Depois, em So Paulo, nasceram Alberto Filho e Slvia, assim batizada em homenagem  tia que continuava em Paris . no pensava voltar. Apenas, em lugar do pequeno Jean e do grande Andr, alternava Bob, um loiro e delicado norte-americano - os norte-americanos estavam em moda -, com o francs Georges, um francs  absolutamente indispensvel.

   Na alta sociedade paulista no se tem notcia de casal mais feliz, conforme constatou mestre Afrnio Portela em busca de maiores informaes, material para o romance. Esposo dedicado e atento, esposa fiel e amante, envelhecendo juntos, dentro de quatro anos festejaro bodas de ouro. Mariana e Alberto provaram que mesmo entre os gr-finos e os multimilionrios, feitos de dinheiro e de futilidade, pode medrar o amor e ser eterno. So mgicas devidas aos poetas, em matria de amor mais milagrosos do que os santos entronizados nos altares.

A RETA FINAL

Na reta final, na semana da eleio, naquele trrido janeiro de 1941, o mormao pesando sobre a cidade do Rio como uma laje de cimento armado, duas boas notcias, ambas devidas  interveno do Acadmico Altino Alcntara, abriram agradveis perspectivas para o candidato nico.

   A primeira, referente ao fardo, possua interesse sobretudo econmico. Com o peito, os punhos e o colarinho bordados a ouro no tecido de feltro verde, carssimo, o fardo custa uma fbula, fbula e meia com os indispensveis complementos: o bicorne corn debruns de ouro e plumas brancas, o lavrado espadim e o dourado colar. Altino Alcntara, surpreendido e lisonjeado com o convite do correligionrio 
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para pronunciar o discurso de recepo - pensara que o escolhido seria Rodrigo Incio Filho, um dos patronos da candidatura do  General e amigo ntimo da famlia, segundo lhe disseram -, prometer lanar uma subscrio em So Paulo destinada a financiar o suntuoso traje da imortalidade. Ia ser tremenda e demorada mo-de-obra, se bem no desagradasse ao antigo combatente de trinta e dois  a idia do reconhecimento pblico de seus feitos de guerra pelos
habitantes do grande Estado.

   Arrependido da promessa, Alcntara preferiu agir por portas travessas, pedindo a mediao de um amigo comum junto ao Interventor de Pernambuco, que se mostrou receptivo, prometendo assinar decreto abrindo verba para as despesas com o fardo do conterrneo. O orgulho estadual superava as divergncias polticas. Ademais, dissera o Interventor ao Chefe de Polcia, o General Waldomiro
Moreira, na reserva, sem comando de tropa, acomodado na poltrona acadmica, no representava nenhum perigo para o Estado Novo. A ddiva oficial iria neutraliz-lo por completo - uns contos de ris bem empregados.

   Alm dessa alvissareira notcia, o benemrito Alcntara abrira-lhe a perspectiva de eleio unnime. O General dava por descontado um voto em branco, o de Lisandro Leite. Supunha que fosse o nico, ainda assim suficiente para impedir o prazer da unanimidade to vasqueira nas votaes da Academia. Contavam-se nos dedos de uma nica mo os Imortais assim eleitos. 

   Poltico em recesso, eminente advogado  testa de uma das maiores bancas de So Paulo, responsvel pelos interesses jurdicos do Banco Portugus do Brasil e de grandes indstrias, Altino Alcntara, desde a clausura do Parlamento pelo golpe de 37, pouco vinha ao Rio e ainda menos  Academia. Correligionrio do General, declaradamente simptico  sua candidatura, escolhido para receblo - o General no fizera segredo do antecipado convite -, nem Evandro e seus sequazes, nem Lisandro e os fiis do Coronel Sampaio Pereira falaram com ele sobre a problemtica eleio do General. Pura perda de tempo, no pagava a pena. Todavia, o Presidente Hermano do Carmo, numa das raras aparies do Acadmico to pouco assduo, se referiu  deplorvel atitude do candidato que proclamava a deciso
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de no cumprir o protocolo, deixando de visitar Lisandro Leite: o fato repercutira mal.

   Antes de regressar a So Paulo, Alcntara procurou o General para lhe entregar os votos pois uma audincia  qual no podia faltar, marcada para o dia da eleio, impedia sua vinda ao Rio. Desculpou-se por no comparecer  casa do prezado amigo aps a votao, levando pessoalmente o abrao de parabns a ele,  sua dignssima esposa e  encantadora filha. Aproveitou para lhe aconselhar maior flexibilidade no trato com Lisandro, comeando por rever a posio assumida em relao  visita.

   - Perdoe-me, meu ilustre amigo, mas como Oficial Superior de nossas Foras Armadas, General do Exrcito, sinto-me impedido. Est em jogo minha honra...

   Hbil poltico, Alcntara encontrou o caminho da conciliao sempre encontrava caminhos para a conciliao:
   
   - Compreendo que no queira ir pessoalmente. Faa o seguinte: deixe seu carto com uma palavra na portaria do edifcio onde ele reside. Existem precedentes em eleies anteriores. Assim talvez seja possvel obter-se que o Lisandro no vote em branco, apenas se abstenha, possibilitando que o amigo seja eleito por unanimidade.

   O argumento pesou, o General Moreira amoleceu:
   - O caro amigo daria uma palavra a ele sobre o assunto?
   - Farei uma cartinha, de So Paulo.
   - Nesse caso, deixarei o carto. Amanh mesmo. 

  Seguindo o conselho, depositara na portaria do prdio o carto de visita, acrescendo ao nome impresso, Gen. Waldomiro Moreira, umas palavras do prprio punho: Cumprimenta o Acadmico Lisandro Leite. Esperava que o canalha retribusse o gesto delicado, abstendo-se, recuando do voto em branco. A unanimidade coroaria sua escolha, situando-o entre os dois ou trs privilegiados que, via de regra, no perdiam ocasio para fazer praa da rarssima distino.
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Azfama 

Palavra ao gosto do General Moreira, ele a utiliza para designar a agitao reinante na casa do Graja naquela ltima Quinta-feira do ms de janeiro de 1941, data da sesso da cademia Brasileira de Letras, a se iniciar s dezessete horas, na qual os trinta e nove Imortais deviam eleger o sucessor do poeta Antnio Bruno, falecido havia pouco mais de quatro meses. Acontece, em eleies extremamente disputadas, nenhum candidato obter o quorum indispensvel. Em caso de candidato nico, jamais sucedeu.

   Azfama! Dona Conceio no conhecia o termo mas, ao ouvir a explicao do lingista quase Imortal, concorda: trabalheira igual jamais enfrentara em toda a sua vida de serva da cunhada e do irmo, e de casada. Trabalheira infernal, responsabilidade medonha. Anda pela casa, barata tonta - pareces uma barata tonta, comentou o General ao v-la aflita -, dando ordens, cobrando tarefas. Surge na copa, onde Ceclia e Sabena descascam frutas para o ponche, abacaxis, mas, peras, laranjas, uvas e, quando a ss, trocam beijinhos dia feliz!
   - Vocs acham que viro mais de cinqenta pessoas?
   - Cinqenta? Bote gente nisso, dona Ceio. - Sabena aprecia os diminutivos e as abreviaes, sinais de estima e intimidade:
   - A senhora ainda no se deu conta da importncia da Academia Brasileira. Fazer parte da Ilustre Companhia  a consagrao mxima a que um homem de letras pode aspirar. Conte com cem pessoas, da para cima.
   - O jeito  aumentar a encomenda de coxinhas e empadas na panificao de seu Antero. Pedir mais vinte de cada. Telefone, Ceclia.
   - Deixe que eu me encarrego, dona Ceio.

   Pessoa mais prestativa esse senhor Sabena. Se Ceclia tiver de se juntar com  algum-mesmo que queira voltar para o marido, ele no vai aceitar e tem razo -, que seja com seu Claudionor: no  menino, deve andar pelos quarenta, ganha born dinheiro como jornalista e
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professor, separado da mulher que arribou com outro, um namorado antigo, trs meses aps o casamento; Ceclia pelo menos esperou completar um ano. Sem contar que, apenas quarento, seu Claudionor j pertence a uma Academia. Academia de segunda, no dizer de Moreira; mas isso ele diz agora. Antes de receber a comisso de Imortais bem que ele queria entrar na outra, andava atrs do senhor Sabena, doidinho.

    Mas no  hora de pensar no destino de Ceclia nem nas qualidades de seu Claudionor, ser o que Deus determinar! Sabena volta do telefone, misso cumprida. Dona Conceio, antes de partir para o quartel-General da cozinha, exclama:
    - Que despesa! Ser que compensa?
 
   Na cozinha, fritam montanhas de bolinhos de bacalhau e de pastis. Trs ajudantes,  base de polpudas gratificaes, duas primas e uma cunhada vieram auxiliar Eunice, fiel pau-para-toda-obra a servio da famlia Moreira desde tempos imemoriais. Uma delas, especialista em doces, se encarregou de preparar quindins, fios-de-ovos, olhos-de-sogra, bom-bocados, brigadeiros. Dona Conceio, ao passar, mastiga um quindim, est uma delcia. No forno, o presunto enorme; prontos, o peru e o pernil de porco. Seu Arlindo anda s voltas com as bebidas. Garom recomendado por um vizinho festeiro, chegou logo aps o almoo, cobra caro mas  eficiente - dona Conceio no sabe se deve ou no descontar do pagamento a taa de cristal que ele quebrou ao lavar os copos. Prejuzo material e sentimental: a taa, presente de casamento, fazia parte de uma dzia que ficara incompleta. Alm do ponche, dos refrigerantes e da cerveja dois barris de chope dos pequenos -, trs garrafas de usque escocs e duas de conhaque francs, custaram horrores! Exigncia de Ceclia, a par dos maus hbitos dos acadmicos:

   - Usque e conhaque no podem faltar... - no faltavam na garonnire de Rodrigo, estrangeiros. - E nada de usque nacional e conhaque de alcatro...

   Dona Conceio punha as mos na cabea mas, que fazer? A conta no Banco, onde as economias amassadas no correr dos anos rendiam juros, sofreu um rombo srio. Ceclia exigira que os vestidos para a noite aps a eleio, quando receberiam os parabns, e para a grande noite da posse, da a uns trs meses, fossem confeccionados por
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dona Dinah Amado. Informadssima sobre os bastidores da Academia, Ceclia a escolhera por sab-la costureira das senhoras de vrios acadmicos. Quatro vestidos, dois chapus, uma bolada de dinheiro ;dona Dinah arrancava o couro das freguesas. 
  
   Dona Conceio abandona a cozinha, d instrues a Cosme, antigo ordenana do General, retirado das atividades militares, exercendo profisso menos nobre porm melhor remunerada, a de bicheiro. Requisitado desde a antevspera, para servios pesados: carregar engradados, buscar mesas e cadeiras emprestadas pelos vizinhos, encerar a casa.
   - Quero essa sala brilhando que nem um espelho.

   No pode esquecer o remdio de Moreira. Na visita mensal ao cardiologista, o mdico, constatando que a presso subira ainda mais, acrescentara um comprimido aos outros medicamentos. Aparentando calma, o marido est tenso, ela o conhece - prepotente mas no grosseiro, pelo menos com a esposa e a filha. Naquele dia, a tratara de barata tonta, sinal de nervosismo.

   Dona Conceio aparece na copa, de repente, por pouco flagrando Ceclia e Sabena atracados num chupo de dia de festa:
   - Ceclia, largue essas frutas, entregue a seu Arlindo, v ajudar Eunice na cozinha, para as moas poderem fazer os quartos. E o senhor, seu Claudionor, v conversar com Moreira para distrair ele um pouco.

   Sabena lana apaixonado olhar a Ceclia, Cia o devolve a Clocl repleto de promessas. Dona Conceio suspira: queira Deus seja duradouro, terminem se juntando, no acabe de supeto como os anteriores; ai, a cabea de vento de Ceclia!

   Incapaz de manter-se na espreguiadeira, o candidato cruza o quintal de lado a lado, em passo de marcha. Sabena, mau recruta, erra o passo mas ainda assim acompanha o amigo e, quem sabe, futuro sogro. Combinam mais uma vez os detalhes para a hora solene da eleio. Sabena ficar no hall que separa a sala de ch da sala das reunies, mantendo-se ao lado do aparelho telefnico colocado em cima de uma cmoda. Assim termine a votao, telefonar o resultado final: algum voto em branco ou a consagradora unanimidade? Talvez, em deferncia ao carto de visita, Lisandro Leite no recorra ao voto
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em branco. Nesse caso, o General se dispe a esquecer os agravos do f assado e a estender a destra ao colega de imortalidade- conforme revela ao bom Sabena.
Copo e plula na mo, dona Conceio se aproxima:
   - O remdio, Moreira. No acha que hoje voc deve tomar dois comprimidos em lugar de um?
   - No vejo por qu. Sinto-me perfeitamente bem. - Engole o remdio, bebe um gole de gua: - Quero tudo pronto e em ordem para a hora da chegada dos Acadmicos.
   Deixa que um sorriso corte a seriedade habitual do rosto, belisca, gesto raro, a face da esposa:
   - Amanh irei ao Pena, alfaiate oficial da Academia, tirar as
medidas para o fardo.
   
   A posse do General vai lhe custar um traje novo, pensa Claudionor Sabena, mas ser dinheiro bem empregado: a mo de Ceclia, o prmio Jos Verssimo e, no futuro, quem sabe... com o sogro l dentro, trabalhando por ele... Os sonhos povoam  a casa do Graja onde dona Conceio se agita em meio  espaventosa azfama.

O CANDIDATO AMINISTRO

Renato Muller Vieira, Embaixador do Brasil no Mxico, chegou ao  Rio, em frias, exatamente na vspera da eleio. Acadmico h cinco  anos, escolhido no quarto escrutnio de um pleito difcil, pela primeira vez tinha ocasio de votar de corpo presente. Suas vindas ao Brasil no coincidiram com as duas eleies realizadas, votara por correspondncia. Tambm para a vaga de Bruno mandara a carta ao falecido candidato Sampaio Pereira apenas recebera seu extenso e caloroso cable.

   No conhecia o Coronel a no ser de nome: nunca o vira nem lera nenhum dos polmicos estudos polticos de sua autoria. Mas se apressara em enviar votos e congratulaes por se tratar de personalidade influente no Governo, de reconhecido prestgio nos meios militares. Poderia ser decisivo para as ambies de Muller Vieira, que 
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estava na relao dos possveis substitutos de Oswaldo Aranha no Ministrio, caso se concretizasse a anunciada renncia. O fato de haver servido na Alemanha depois da tomada do poder por Hitler parecia-lhe credencial de peso: deixara bom ambiente junto s autoridades nazistas, til na circunstncia atual quando a poltica exterior do Brasil se inclina no sentido de uma aliana com o Eixo.

   Poeta e romancista, poesia hermtica, cabalstica fico, com meia dzia de volumes publicados, muito estimado por certos crticos que, em meio a elogios, citavam Dostoiewski, Joyce e Kafka para explicar a angstia e a solido presentes em suas obras; pouco lido, dado o extremo elitismo e a temtica intimista: em seus romances o Brasil no existia, em sua poesia nem os mais argutos perceberam amor. No  lido sequer pelos crticos que tanto o exaltam, afirmava R. Figueiredo Jnior (e vrios outros maldizentes), crticos que, alis, segundo o mesmo cido dramaturgo, tampouco haviam lido Joyce e Kafka, quando muito tinham folheado tradues de Dostoiewski. A verdade  que, lido ou no, criara-se em torno de Renato Muller Vieira uma aura de gnio: seus romances e poemas refletiam, na opinio daqueles tericos de literatura, o pattico mundo atual, a violncia desencadeada, no a da guerra  - cirurgia universal e necessria - mas a violncia interior do ser humano.

   Recebera tambm cable do General Moreira, curto; o General pagava com seu rico dinheirinho, o Coronel usava a verba do combate ao comunismo. Respondera agradecendo a comunicao e informando estar comprometido com Sampaio Pereira. Aps a morte do poderoso Coronel, mostrou-se mais gentil ao acusar recebimento de carta do agora candidato nico, chamando sua ateno para a nova conjuntura e pedindo que lhe enviasse os votos. Informou que estaria no Brasil no momento da eleio e teria prazer em sufragar pessoalmente o nome do eminente General. No disse quanto lastimava a morte do Coronel. Poderoso, pagaria o apoio com juros. As virtudes do candidato nico reduziam-se s estrelas da tnica. De qualquer maneira, mesmo oposicionista, General  sempre General.

   Chegara disposto a aproveitar as frias para tirar a limpo a verdade sobre a renncia de Aranha e consolidar o trabalho em torno de seu prprio nome. Contava com amigos no gabinete do Chefe do Governo. Passou a manh e o comeo da tarde no Itamaraty, de onde saiu
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diretamente para a Academia. Recebido com abraos e palavras de boas-vindas, na Secretaria embolsou o cheque correspondente aos jetons em atraso - mesmo sem comparecer os recebia numa deferncia do Presidente - e na sala de ch houve quem o tratasse de Ministro. Lisandro Leite, no se contentando com o abrao e as boas-vindas, arrastou o colega para o vo de uma janela:

   - Antes que lhe falem em outro nome, quero lhe avisar que o nosso Raul Lameira ser candidato...
   - O Reitor?
   - Ele mesmo. Mais do que Reitor, amigo do peito do Homem. Para quem est com um p no estribo para ser Ministro...
   - Mas, candidato a que vaga? Morreu algum de anteontem para ontem, enquanto eu estava no avio?
   - Na vaga de Antnio Bruno.
   - Mas essa ser preenchida hoje.       
   - Isso depende...
   - Depende de qu?
   - De seu voto, por exemplo. Pode ser decisivo. Eu estou autorizado pelo Raul a conversar com voc. Ele saber ser grato.
   - No estou entendendo nada. Fale claro.
   - Vamos para a biblioteca, l estaremos mais  vontade.

A NATUREZA HUMANA

Ao desembarcar diante do porto do Petit Trianon, vindo de Petrpolis para a eleio, Rodrigolncio Filho v-se apertado pelos braos ossudos de Evandro Nunes dos Santos:
   - Felizardo, gozando as delcias da serra enquanto ns sufocamos nesta fornalha...
   De brao dado se encaminham para a Secretaria, Rodrigo pede informaes sobre a marcha dos acontecimentos:
   - Ento, como vai a guerrilha, El Pasionario? Quem inventou o apelido foi seu compadre Portela, aquele gozador.
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FARDA FARDAO CAMISOLA DE DORMIR
   - A guerrilha vai fazer a derradeira surtida daqui a pouquinho.
   - Evandro se detm no meio do vestbulo, retira o pincen, risonho.
   - O inimigo est acuado, vamos liquid-lo.
Rodrigo confidencia:
- A natureza humana  muito salafrria, seu Evandro.
- Acha?
   - Fui eu quem descobriu o General quando voc e Portela estavam atrs de um com as condies necessrias. Fiz parte da delegao que foi  casa dele convid-lo a se candidatar...
   - Eu tambm, Afrnio me obrigou. 
   - ... li um livro que me enviou...
   - No cheguei a tanto. 
   
   - ... tive um namorico com a filha, moa galante, um pouco sensaborona... Enfim, sou amigo da famlia, quase parente. Contudo, voto nele somente para estar bem com minha conscincia e, o que  pior, toro pela vitria de vocs, contra o pobre homem. No h dvida, a natureza humana  muito salafrria.

   - Pobre homem? J manda e desmanda e diz que o Bruno era uma besta quadrada. Imagine se chegar a ser eleito... Olhe que seu voto pode nos fazer falta. Pensando com lgica, voc vai votar contra sua conscincia e no devido a ela. Raciocine...
   Rodrigo retoma a marcha para a Secretaria:
   - Vade retro!
   - Galante e sensaborona! V l, pague o preo da libertinagem. Mas, por favor, no se comprometa para daqui a quatro meses: nosso candidato  o Feliciano. Voc j sabia, no?
   - Votarei nele com muito prazer, se vocs ganharem.
   - Ainda duvida? Comigo aqui, ningum troca a farda pelo fardo. Nem farda, nem batina.
   - Voc  o ltimo anticlerical do mundo...
   - No sou anticlerical, sou materialista. Tenho muitos amigos entre os padres, no quero  que venham pregar religio aqui.
   - ... e o ltimo antimilitarista...
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  - Sou civilista, isso sim. Tenho amigos tambm entre os milicos, mas no admito que venham se meter aqui para enquadrar a gente... Cadeira do Exrcito, onde j se viu?

A URNA

Como de hbito, o Decano Francelino Almeida posa para os fotgrafos, a mo estendida para a urna na atitude de quem est depositando o voto. Aps a retirada dos reprteres, as portas da"sala de reunio so fechadas.

   Vestido com a elegncia de um lorde ingls, negro retinto, os cabelos brancos, o velho contnuo apresenta a urna ao Presidente, o primeiro a votar. Prossegue pelos membros da mesa, desce ao plenrio.

   O nmero dos acadmicos presentes  pequeno naquela ltima sesso antes das frias. A maioria fugiu do calor para as cidades serranas, alguns foram passar as festas nos Estados natais, ainda no regressaram. O velho contnuo vai de poltrona em poltrona, cada Imortal deposita na urna a tira de papel. O Presidente dera conhecimento, antes da coleta ser iniciada, das cartas recebidas de ausentes, acompanhadas dos votos em envelopes fechados.

   Entregue de volta  mesa, a urna  esvaziada. A contagem dos sufrgios vai comear. Assim termine, as papeletas sero repostas na urna e o velho contnuo as embeber em lcool antes de riscar o fsforo para acender o fogo que as consumir. Assim, o segredo do voto ficar enterrado em cinzas.

   Na sala de ch jornalistas e fotgrafos liquidam o que restou da mesa bem servida. Nas eleies disputadas, sobra gente pelas salas, na biblioteca, no hall, adeptos das diversas candidaturas, um burburinho. Eleio com candidato nico no tem luta nem surpresa, no tem graa. Ainda assim compareceram alguns curiosos, entre os quais o velho mercador de livros, Carlos Ribeiro. Aguardam o encerramento da sesso para pegar uma carona at a casa do Acadmico recm-eleito, para os parabns e os comes e bebes. De p, junto  cmoda onde est o telefone, Claudionor Sabena espera o instante de
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comunicar ao General Waldomiro Moreira a conquista da imortalidade.

O TELEFONEMA

Sentado na poltrona, ao lado do telefone, o General Waldomiro Moreira espera a chamada do amigo Claudionor Sabena que vai lhe comunicar a conquista da imortalidade. A farda de gala, o rosto grave, aparenta digna serenidade. A filha ao lado, leviana mas dedicada ao pai. Dona Conceio vai e vem, nas ltimas providncias. Nos trinques, as duas.

   Algumas visitas chegaram para aguardar a auspiciosa notcia em companhia do candidato, espalham-se pela sala: vizinhos, amigos mais prximos, alguns companheiros de caserna, oficiais que serviram com ele. Admiram as mesas bem sorridas, travessas e pratos de salgados e doces, as bandejas com o presunto, o pernil, o peru. Os ntimos sabem das qualidades culinrias de Eunice. No quintal, seu Arlindo montou o bar: os barris de chope, as poncheiras cheias, os refrigerantes e, escondidas, as garrafas de usque e de conhaque reservadas para os Imortais e outras Excelncias.

   Jamais o tempo decorreu to lento, o General espera, os presentes conversam em voz baixa, de quando em quando o som de um riso. Dona Conceio mostra-se  porta, vinda da cozinha, traz uma ltima travessa:
   - Ainda nada?
   Nesse exato momento soa a campainha do telefone, o General estende a mo, Ceclia arvora um sorriso, dona Conceio fica parada.
   - Sabena? Sou eu, sim. Ento? Unnime?
   Escuta, arregala os olhos, abre a boca, a voz estrangulada:
   - O qu?

   O sangue sobe rosto acima, um filete entre os lbios, o General larga o aparelho, o corpo se dobra para a frente, na cadeira. Dona Conceio deixa cair a travessa, bolinhos de bacalhau rolam pela sala. Corre para o marido, se abraa com ele.
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Sons distantes e repetidos, quase inaudveis, no telefone: al!, al! Ceclia atende, a voz desfeita:
   - Venha depressa, Papai teve uma coisa...
   Morreu na hora errada, disse dona Conceio tempos depois. Deixara passar a hora certa, a do outro telefonema, quando se soube candidato nico e se considerou eleito.

A NOTCIA 

Afrnio Portela deposita o chapu e a bengala, a empregada est 
espera, com o recado:
   - O doutor Hermano pede que o senhor telefone para ele imediatamente,  assunto da maior urgncia.
   Caminhando para o gabinete, mestre Afrnio sorri a dona Rosarinho que est vindo a seu encontro, ansiosa pelo resultado. Enquanto aguarda que o Presidente atenda, beija a esposa e promete satisfazer-lhe a curiosidade:
   -J te contarei tudo. - Atende  voz do outro lado do fio: Sim, Hermano, pode dizer, estou ouvindo.
   Escuta, a mo apoiada no ombro de dona Rosarinho. A mo se contrai, a exclamao escapa:
   - Porra!
   Desliga, fica parado, em silncio. Dona Rosarinho toma-lhe o
brao:
   - O que foi, Afrnio? 
   - Matamos o General.     
   
O SEGUNDO
O av entra em casa, um neto de cada lado.
   - Conta, av.
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   - Depressa, meu bem, estamos doidos para saber. Evandro Nunes dos Santos senta-se em sua cadeira preferida, acende o cigarro. Enquanto fala, brinca com o pincen:
   - Teve dezesseis votos, faltaram quatro para obter o quorum. Doze se abstiveram, onze votaram em branco. Acabou-se essa histria de cadeira cativa na Academia. Bruno ter o substituto que merece, o Feliciano.
   - Voc no acha que os poetas podiam ter cadeira cativa, meu bem? - Lembra Isabel, insacivel leitora de poesia.
   A campainha do telefone, Pedro atende:
   - Vosso Presidente, av. Acho que deseja lhe felicitar, est muito excitado.
Evandro toma do fone:
   - Estamos de... - no completa a frase, fica ouvindo: - No me diga. Lastimvel, sem dvida. Triste, de acordo. Mas, afinal, guerra  guerra.
   Repe o aparelho, comunica aos netos o sucedido ao General:
   - Ao saber da notcia, caiu fulminado. Morte instantnea.
   - Enfarte?
   - Podes chamar assim, se quiseres, Isabel. Para mim, foi morte
matada.
   - O segundo, av. No esquea o Coronel...- relembra Pedro.
- Para uma briga, foi uma briga e tanto, av.

DOIS VELHOS LITERATOS

Dois velhos senhores literatos de renome, democratas, um apenas liberal, Afrnio Portela, o outro com laivos anarquistas, Evandro Nunes dos Santos, bebericam na Colombo, ao fim da tarde, no dia seguinte ao da eleio. O olhar de mestre Afrnio se eleva at a sacada do atelier de Madame Picq, de onde, em tempos passados, Rosa flertava Antnio Bruno. Ela j no se debrua no balco, inaugurou 
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seu prprio atelier, um andar na Rua do Rosrio, mandara um carto oferecendo os prstimos a dona Rosarinho.
    - Comecei a escrever um romance, compadre. Depois de amanh subo para a chcara em Terespolis, vou botar papel na mquina.
   - J era tempo.
   - Pensei que  A Mulher no Espelho tivesse sido o ltimo, perdera o gosto pelos enredos dessa gente que vive nos sales e nas garonnires e Lenis ficou muito para trs, no dava para criar outra Maluquinha.
   - Mas eu li um conto, no faz tanto tempo assim... At a Colombo entrava na histria, me recordo muito bem.
   Mestre Afrnio sentiu-se envaidecido ao ouvir Evandro falar do conto, no sabia que o compadre o houvesse lido e guardado memria de detalhes:
   - O Ch das Cinco, publicado h uns quatro anos. Inspirado num caso que Bruno manteve com uma costureirinha do atelier ali em frente, no segundo andar daquele prdio. Pois vou voltar a ela...
   - A quem,  costureira?
   - A ela, sim, agora a conheo bem, no conto falsifiquei sua personalidade por completo. As personagens sero ela e trs outras amantes de Bruno. Todas quatro estavam no velrio. Alis, o romance comea no velrio.
   
   - Foi ali tambm que a nossa peleja comeou, com a entrada do Sampaio Pereira, te lembras? Bateu continncia para o defunto, a fotografia saiu nos jornais para ningum duvidar. - Evandro pega o clice: - Que diabo vou fazer agora? Tu tens o romance que vai ocupar teu tempo em Terespolis. Vou sentir falta da guerrilha.
   - No ias comear tuas memrias?
   - A guerrilha pode dar um bom captulo... O enterro do General foi hoje pela manh, no foi? - Levanta o clice e o esvazia.
   Tambm Afrnio Portela bebe o ltimo trago, antes de responder. Os clices erguidos, parecem propor um brinde.
   - Foi, sim. Enterraram-no s onze horas. Rodrigo compareceu s exquias, correram com ele.
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   Chama o garom, pede a conta. Olha para o compadre Evandro Nunes dos Santos, nos lbios aquele sorriso de malcia. Conclui voz macabra e afetuosa:
   - Assassino!
   Caminham os dois velhos literatos, em passos medidos pela rua contentes da vida. Dirigem-se  livraria, para o vcio de folheai volumes, saber das ltimas novidades sadas do prelo, comentar sucessos e fracassos, adquirir por baixo do balco livros estrangeiros de venda proibida pela ditadura.

A MORAL DA FBULA

A moral? Veja: em toda parte, pelo mundo afora, so as trevas novamente, a guerra contra o povo, a prepotncia. Mas, como se comprova nesta fbula,  sempre possvel plantar uma semente, acender uma esperana.
FlM
Pedra do Sal, Bahia, janeiro/junho, 1979
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Esta edio de
FARDA FARDO CAMISOLA DE DORMIR foi preparada para a Editora Record por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, sob a orientao de Jorge Amado, pela confrontao dos textos dos originais e da 1a edio; a indicao das modificaes e o dicionrio de termos prprios estaro arquivados na Fundao Casa de Jorge Amado; as ilustraes de Otvio Arajo foram preparadas em
Adobe Photoshop(r); a composio foi feita em PageMaker(r)
em tipos Adobe Caslon(r) - normal 11/13 e outros-, e Corel
Amherst(r), USABlack(r) e USALight(r), a partir de textos reconhecidos por OmniPage Pr(r), examinados em Word for Windows(r); entre novembro de 1996 e maro de 1997.
